Nada dura para sempre [em Português]
- Автор: Шелдон Сидни
- Год: 1996
- Язык: португальский
- Жанр: Современная русская и зарубежная проза
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Quero-o vivo!
- Sim, doutora.
Paige passou as duas horas seguintes a certificar-se de que se fazia tudo o que era possível por Jimmy Ford. As radiografias mostraram uma fratura no crânio, uma contusão cerebral, um úmero partido e diversas dilacerações.
Mas tudo teria de esperar até que ele estabilizasse.
Às três e meia Paige decidiu que, de momento, nada mais podia fazer. Ele respirava melhor e a pulsação era mais forte. Olhou para a figura inconsciente. “Vamos ter meia dúzia de filhos. A primeira menina irá chamar-se Paige. Espero que não se importe.” - Chamem-me se houver alguma alteração - disse Paige.
- Não se preocupe, doutora - disse uma das enfermeiras.
- Cuidaremos bem dele.
Paige regressou ao quarto dos médicos de serviço. Estava exausta mas demasiado preocupada com Jimmy para voltar a adormecer.
O telefone voltou a tocar. Mal tinha forças para o atender:
- Está.
- Doutora, é melhor vir ao terceiro andar. Stat. Acho que um dos doentes do doutor Barker está a sofrer um ataque cardíaco.
- Vou já - respondeu Paige. Um dos doentes do Dr. Barker.
Paige respirou fundo, saltou da cama, lavou a cara com água fria e correu para o terceiro andar.
Uma enfermeira esperava do lado de fora de um quarto privado:
- É a senhora Hearns. Parece que está a ter outro ataque cardíaco.
Paige entrou no quarto.
A Sra. Hearns era uma mulher de cerca de cinquenta anos. No rosto ainda se viam traços de uma antiga beleza, mas o corpo era gordo e inchado.
Tinha as mãos sobre o peito e gemia:
- Estou a morrer - disse. - Estou a morrer. Não consigo respirar.
- Vai ficar boa - disse Paige em tom confortante.
Virou-se para a enfermeira. - Fez-lhe um eletrocardiograma?
- Ela não me deixa tocar-lhe. Diz que está muito nervosa.
- Temos de fazer um ECG - informou Paige à doente.
- Não! Não quero morrer. Por favor, não me deixe morrer…
Paige disse à enfermeira:
- Chame o doutor Barker. Peça-lhe para vir aqui imediatamente.
A enfermeira desapareceu.
Paige colocou o estetoscópio no peito da Sra. Hearns.
Escutou. O ritmo cardíaco parecia normal mas Paige não podia correr riscos.
- O doutor Barker estará aqui dentro de instantes - disse a Mrs. Hearns. - Tente descansar.
- Nunca me senti assim tão mal. Sinto um peso tão grande no peito. Por favor, não me deixe sozinha.
- Não a vou deixar sozinha - prometeu Paige.
Enquanto esperava pelo Dr. Barker, Paige telefonou para a unidade de cuidados intensivos. Não havia alterações no estado de Jimmy. Ainda estava em coma.
Trinta minutos mais tarde, apareceu o Dr. Barker.
Obviamente, tinha-se vestido à pressa:
- O que se passa? - perguntou.
Paige respondeu:
- Penso que a senhora Hearns está a sofrer outro ataque cardíaco.
O médico aproximou-se da cama:
- Fez um ECG?
- Ela não nos deixa.
- Pulsação?
- Normal. Não tem febre.
O Dr. Barker colocou o estetoscópio nas costas da Sra.
Hearns:
- Respire fundo.
Ela assim o fez.
- Outra vez.
A Sra. Hearns deu um grande arroto.
- Perdão - sorriu. - Oh. Estou muito melhor.
Ele estudou-a por momentos:
- O que é que comeu ao jantar, senhora Hearns?
- Comi um hamburger.
- Só um hamburger? Só isso? Apenas um?
- Dois.
- Mais alguma coisa?
- Bem, sabe… cebolas e batatas fritas.
- E para beber?
- Um batido de chocolate.
O Dr. Barker olhou para a doente:
- O seu coração está bom. É com o seu apetite que temos de nos preocupar.
- Voltou-se para Paige. - O que vê aqui é um caso de azia. Quero falar consigo lá fora, doutora.
Quando se encontravam no corredor, resmungou:
- Que raio lhe ensinaram na faculdade de medicina? Nem sequer consegue distinguir a diferença entre azia e um ataque cardíaco?
- Pensei…
- A questão é que você não conseguiu! Se voltar a acordar-me a meio da noite por causa de um caso de azia, está feita comigo. Percebeu bem?
Paige ficou estática, com o rosto a arder.
- Dê-lhe um antiácido, doutora - disse Lawrence parker com sarcasmo -, e verá que fica curada. Vê-la-ei na ronda das seis e meia.
Paige ficou a vê-lo partir.
Quando voltou a deitar-se no quarto dos médicos de serviço, pensou: “Vou matar Lawrence Barker. Fá-lo-ei certamente.
Ficará muito doente. Terá uma dúzia de tubos metidos ao corpo.
Irá implorar-me para que acabe com o sofrimento, mas não o farei. Deixálo- ei sofrer e depois quando se sentir melhor… será então que o matarei!”
Paige estava a fazer a ronda da manhã com a Besta, como intimamente chamava ao Dr. Barker. Tinha-o assistido em três cirurgias cardiotorácicas e, apesar de não simpatizar com ele, não conseguia deixar de admirar as suas incríveis capacidades.
Olhou estupefata quando ele abriu um doente, substituiu habilmente o coração velho pelo de um dador e coseu. A operação demorou menos de cinco horas.
“Dentro de cinco semanas” pensou Paige, “esse doente poderá voltar a ter uma vida normal. Não é de admirar que os cirurgiões julguem ser deuses.
Ressuscitam mortos.” Hora após hora, Paige via um coração parar e transformar-se num pedaço de carne inerte. E então acontecia o milagre e o órgão sem vida começava a bater de novo e a enviar sangue para um corpo que tinha estado a morrer.
Uma manhã, tinha sido marcada uma pequena cirurgia para inserção de um balão intra-aórtico num doente. Paige estava na sala de operações a assistir o Dr. Barker.
Quando estavam prestes a começar, o Dr. Barker ordenou:
- Faça você!
Paige olhou para ele:
- Desculpe?
- É um processo simples. Acha que consegue fazê-lo? Notava-se um certo desdém na voz.
- Sim - respondeu Paige, timidamente.
- Bem, então comece.
Era uma pessoa enervante.
Barker viu como Paige inseria habilmente um tubo na artéria do doente e o introduzia no coração. Tudo correu perfeitamente. Barker manteve-se ali, sem dizer uma única palavra.
“Que vá para o inferno”, pensou Paige. “Nada do que faço ou possa fazer irá satisfazê-lo.”
Paige injetou um líquido radiopaco através do tubo.
Olharam para o monitor enquanto o líquido corria para as artérias coronárias. Surgiram imagens num ecrã fluoroscópico que mostraram o grau de bloqueio e a respetiva localização na artéria, enquanto uma câmara de filmar automática gravava as radiografias para um registo permanente.
O residente-chefe olhou para Paige e sorriu:
- Bom trabalho.
- Obrigada. - Voltou-se para o Dr. Barker.
- Foi demasiado lenta - resmungou.
E saiu.
Paige agradeceu os dias em que o Dr. Barker estava fora do hospital, a trabalhar na sua clínica privada. Disse a Kat:
- Estar um dia longe dele é como passar uma semana no campo.
- Tu odeia-lo mesmo, nãoé?
- É um médico brilhante, mas um ser humano miserável. Já notaste como os nomes encaixam tão bem em determinadas pessoas? Se o doutor Barker
[em inglês: que ladra”] não parar de ladrar para as pessoas, vai ter um enfarte.
- Vê bem as maravilhas que tenho de enfrentar - disse Kat a rir. - Todos pensam que são uma dádiva divina para as ratinhas. Que bom seria se não houvessem homens no mundo! Paige olhou para ela, mas não disse nada.
Paige e Kat foram examinar Jimmy Ford. Ainda estava em coma.
Não podiam fazer nada.
Kat suspirou:
- Merda. Porque é que isto acontece às pessoas boas?
- Quem me dera saber.
- Achas que se salva?
Paige hesitou:
- Fizemos tudo o que podíamos. Agora está tudo nas mãos de Deus.
- Engraçado. Pensei que éramos Deus.