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Nada dura para sempre [em Português]

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Nada dura para sempre [em Português]
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Jat Hunter era uma médica negra.

Kat passava um mau bocado. Nada era abertamente dito ou feito e, contudo, a discriminação surgia de maneira demasiado subtil para ser apontada. As enfermeiras que mandava chamar não estavam disponíveis e as que lhe eram designadas eram quase incompetentes. Frequentemente, Kat era enviada para examinar doentes clínicos masculinos com doenças venéreas.

Aceitou os primeiros casos como rotina, mas quando lhe foram dados meia dúzia para examinar num único dia, ficou desconfiada.

Num interválo para o almoço, disse a Paige: -Já assististe muitos homens com doenças venéreas? Por um momento, Paige ficou pensativa: - um, na semana passada. Um empregado do hospital.

“Vou ter de resolver isto de alguma maneira” - pensou Kat.

A enfermeira Spencer tinha planejado livrar-se da Dra. Hunter dificultando-lhe a vida de tal maneira que esta seria obrigada a desistir, mas não contara com a dedicação ou a habilidade de Kat. Pouco a pouco, Kat foi ganhando a confiança dos colegas com quem trabalhava e dos doentes. Mas a verdadeira oportunidade surgiu devido ao que acabou por ser conhecido no hospital como a famosa chantagem do sangue de porco.

Um dia, durante a ronda da manhã, Kat trabalhava com um residente chefe, chamado Dundas. Encontravam-se junto à cabeceira de um doente inconsciente.

- O senhor Levy sofreu um acidente de automóvel - informou Dundas aos residentes mais novos. - Perdeu muito sangue e necessita de uma transfusão imediata.

Neste momento, o hospital não tem sangue suficiente. Este homem tem família mas esta recusa-se a doar-lhe sangue. É revoltante.

Kat perguntou:

- Onde está a família dele?

- Na sala de espera das visitas - respondeu o Dr. Dundas.

- Permite-me que fale com eles? - perguntou Kat.

- Não vai adiantar nada. Já falei com eles. Já tomaram a decisão.

Quando a ronda terminou, Kat dirigiu-se à sala de espera das visitas. A esposa do homem e filhos já grandes encontravam-se lá. O filho vestia um solidéu e trajes rituais judeus.

- Senhora Levy? - perguntou Kat, dirigindo-se à mulher.

Esta levantou-se:

- Como está o meu marido? O médico vai operá-lo?

- Sim - respondeu Kat.

- Bem, não nos peça para doarmos sangue. Atualmente é muito perigoso por causa da sida e tudo o mais.

- Senhora Levy - disse Kat -, não se apanha sida por doação de sangue.

Não é posssível…

- Não me diga! Eu leio os jornais. Sei o que é.

Kat estudou-a por um momento:

- Já percebi isso. Bom, está bem, senhora Levy. Neste momento o hospital não tem sangue suficiente, mas nós já solucionámos o problema.

- Que bom.

- Vamos dar ao seu marido sangue de porco.

Mãe e filho olharam chocados para Kat:

- O quê?

- Sangue de porco - disse Kat, alegremente. - Provavelmente não irá fazerlhe mal. - E começou a afastar-se.

- Um momento, por favor! - suplicou a mulher.

Kat parou:

- Sim?

- Eu, am… dêem-nos algum tempo, por favor.

- Com certeza.

Quinze minutos mais tarde, Kat foi ter com o Dr. Dundas:

- Não tem de se preocupar mais com a família do senhor Levy.

Todos eles estão dispostos a doar sangue.

No hospital, a história transformou-se imediatamente numa lenda. Os médicos e enfermeiras que antes ignoravam Kat, arranjaram maneira de falar com ela.

Alguns dias mais tarde, Kat entrou no quarto particular de Tom Leonard, um doente com úlcera. Este comia um enorme almoço que trouxera consigo, depois de o ter adquirido numa casa de comestíveis muito próxima.

Kat aproximou-se da cama:

- O que está a fazer?

Ele ergueu a cabeça e sorriu:

- A comer um almoço decente, para variar. É servida? Há muito aqui.

Kat chamou uma enfermeira.

- Sim, doutora?

- Tire esta comida daqui. O senhor Leonard está sob dieta rigorosa do hospital. Não leu o gráfico?

- Sim, mas ele insistiu…

- Retire tudo, por favor.

- Eh! Espere um momento! - protestou Leonard.

- Não consigo comer a papa que este hospital me dá!

- Vai comer, se quiser livrar-se da sua úlcera. - Kat voltou-se para a enfermeira: - Leve isto daqui.

Trinta minutos mais tarde, Kat foi chamada ao gabinete do administrador.

- Mandou-me chamar, doutor Wallace?

- Sim. Sente-se. Tom Leonard é um dos seus doentes, não é assim?

- Exato. Hoje, à hora do almoço, apanhei-o a comer uma sanduíche de carne muito condimentada com picles e salada de batata, cheia de especiarias, e…

- E tirou-a das mãos.

- Claro.

Wallace inclinou-se na cadeira:

- Doutora, provavelmente não deu conta de que Tom Leonard faz parte do quadro supervisor do hospital. Queremos que ele se sinta bem. Percebe o que quero dizer? Kat olhou para ele e disse, obstinadamente:

- Não, senhor.

Ele pestanejou:

- O quê?

- Parece-me a mim que a maneira de manter Tom Leonard feliz é ajudá-lo a ser saudável. Nunca ficará curado se encher o estômago até rebentar.

Benjamin Wallace forçou um sorriso:

- Porque não o deixamos tomar essa decisão? Kat levantou-se:

- Porque eu sou a médica dele. Mais alguma coisa? -Eu… hum… não. É tudo.

Kat saiu do gabinete.

Benjamin Wallace, abismado, manteve-se ali sentado.

Médicas!

Kat estava de serviço à noite quando recebeu uma chamada:

- Doutora Hunter, acho melhor vir ao trezentos e vinte.

- Vou já para aí.

A doente do quarto 320 era a Sra. Molloy, uma doente cancerosa com cerca de oitenta anos, de prognóstico muito fraco. Quando Kat se aproximava da porta ouviu vozes lá dentro, a discutirem alto, mas ela entrou no quarto.

A Sra. Molloy estava deitada, cheia de sedativos mas consciente. O filho e duas filhas encontravam-se no quarto.

O filho disse:

- Acho que devemos dividir os bens por três.

- Não! - afirmou uma das filhas. - Laurie e eu é que cuidámos da mamã.

Quem tem estado a limpar e a cozinhar para ela? Nós! Bem, temos direito ao dinheiro dela e…

- Sou tão carne e sangue dela como vocês! - gritou o homem.

A Sra. Molloy, indefesa, ouvia.

Kat estava furiosa:

- Com licença - disse ela.

Uma das mulheres olhou para ela:

- Venha mais tarde, enfermeira. Estamos ocupados.

Kat disse zangada:

- Esta é minha doente. Dou-vos dez segundos para saírem deste quarto.

Podem aguardar na sala de espera.

Agora saiam, antes que chame a segurança para os tirar daqui para fora.

O homem começou a dizer qualquer coisa, mas o olhar de Kat fê-lo interromper. Voltou-se para as irmãs e gesticulou:

- Podemos falar lá fora.

Kat ficou a ver os três abandonarem o quarto. Voltou-se para a Sra. Molloy e abanou a cabeça:

- Eles não quiseram dizer isso - disse Kat, gentilmente.

Sentou-se na borda da cama, pegou na mão da velha e ficou a vê-la chorar até adormecer.

“Todos nós estamos a morrer”, pensou Kat. “Esqueçam o que disse Dylan Thomas. O verdadeiro truque é entrar suavemente nesse sono eterno.”

Kat estava a tratar um doente quando um empregado entrou na sala.

- Há uma chamada urgente para si na secretaria, doutora.

Kat franziu as sobrancelhas:

- Obrigada. - Voltou-se para o doente, que tinha gesso em todo o corpo e as pernas suspensas por uma roldana: - Volto já. - No corredor, na área das enfermeiras, levantou o telefone: - Estou?

- Olá, mana!

- Mike! - Ficou eufórica ao ouvi-lo, mas a excitação transformou-se logo em preocupação: - Mike, disse-te para nunca me procurares aqui. Tens o número do apartamento se…

- Eh, desculpa. Isto não podia esperar. Tenho um pequeno problema.

Kat sabia o que ia ouvir.

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