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O outro lado de mim [em Português]

Электронная книга - «O outro lado de mim [em Português]». Краткое содержание книги:

O livro traz detalhes inéditos, reveladores e sinceros, com as memórias do escritor Sidney Sheldon, um dos maiores bestsellers de toda a história, com mais de 300 milhões de livros vendidos, em 51 idiomas e em mais de 180 países. Todos os 18 romances do autor alcançaram a Lista dos Mais Vendidos. Sheldon assinou obras como 'O outro lado da meia-noite', 'A herdeira', 'A ira dos anjos', 'Juízo final', entre outros. O livro apresenta revelações sobre a vida do autor em Hollywood, ao lado de estrelas como Cary Grant, Marylin Monroe, Judy Garland, Frank Sinatra e Doris Day. 'O outro lado de mim' traz alguns detalhes sobre a vida pessoal do autor, como a infância em Chicago, em um ambiente familiar instável com as constantes discussões dos pais, a revelação de ser portador da psicose maníaco-depressiva, e muito mais.
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- Doutor, como está...?

Ele passou apressadamente por mim. Entrei em pânico. Um momento mais tarde, Jorja surgiu numa cama com rodas vinda da sala de partos para ser levada para o quarto. Parecia muito pálida.

- Está tudo bem? Perguntou. Peguei-lhe na mão.

- Está tudo bem. Já vou ter contigo.

E fiquei a olhar enquanto a levavam pelo corredor fora. Em seguida, apressei-me à procura do doutor Watson.

Quando passei em frente da unidade de cuidados intensivos de recém-nascidos, vi-o através da janela. Ele e outros médicos estavam em volta de um berço em acesa discussão. O meu coração começou a bater descompassadamente. Eu queria entrar na sala, mas obriguei-me a esperar. Quando o doutor Watson olhou para cima e me viu, disse qualquer coisa aos colegas. Todos se viraram e olharam para mim. Eu estava com dificuldade em respirar. O doutor Watson saiu para o corredor.

- O que é que se passa? - Perguntei - O que é... o que é que está errado? Eu mal conseguia falar.

- Receio que tenha más notícias para si, senhor Sheldon.

- O bebê morreu!

- Não. Mas... - Ele estava com dificuldade em falar - O seu bebê nasceu com espinha bífida.

Eu queria abaná-lo.

- E o que é isso? Explique-me isso em inglês.

- A espinha bífida é um defeito congênito. Durante os primeiros meses da gravidez, a espinha não fecha adequadamente. Quando o bebê nasce, só tem uma fina camada de pele sobre a espinha. A espinal medula está muito protuberante pelas costas. É uma das mais...

- Então, por amor de Deus, trate disso! Eu estava a gritar.

- Não é assim tão simples. É preciso que um especialista...

- Então mande vir os especialistas. Está-me a ouvir? Já! Quero-os aqui já!

Eu gritava, completamente descontrolado. Ele olhou para mim por segundos, acenou com a cabeça e afastou-se apressadamente.

Tive de dar a notícia a Jorja. Foi provavelmente o momento mais difícil da minha vida.

Assim que entrei no quarto, ela olhou para a minha cara e perguntou:

- O que se passa?

Vai correr tudo bem - Garanti-lhe - A Alexandra nasceu com um... um problema. Mas já vêm uns especialistas a caminho para tratar disso. Tudo se vai arranjar.

As quatro da manhã chegaram dois médicos e o doutor Watson levou-os à unidade de cuidados intensivos. Eu fiquei lá fora durante um bocado a olhar os rostos deles, a rezar para que acenassem com a cabeça, que sorrissem para me acalmar. Por fim, não aguentei mais. Voltei para perto de Jorja. Sentei-me com ela e ali ficamos à espera, em silêncio.

Meia hora mais tarde, o doutor Watson entrou. Olhou para Jorja e para mim durante uns segundos e disse pausadamente:

- Dois dos maiores especialistas em tratamento de espinha bífida examinaram sua bebê. Concordaram que existem poucas probabilidades de ela sobreviver. Se o fizer, provavelmente terá hidrocefalia, uma acumulação de líquido no cérebro.

Cada palavra dele era como um martelo.

- Terá também problemas de bexiga e de intestinos. A espinha bífida é uma deficiência congênita permanente.

- Mas é possível que ela viva? Perguntei.

- Sim, mas...

- Então nós levamo-la para casa. Vamos ter enfermeira vinte e quatro horas e todo o equipamento...

- Senhor Sheldon, não. Ela precisa ser colocada num centro de cuidados onde estão habituados a lidar com este problema. Recomendamos um local perto de Pomona, onde lidam com estes casos.

Jorja e eu olhamos um para o outro.

- Isso quer dizer que a podemos visitar. Disse a Jorja.

- Seria melhor que não o fizessem. Demorou um bocado até percebermos.

- Quer dizer que...

- Ela vai morrer. Lamento muito. A única coisa que vos resta é rezar.

Como é que uma pessoa reza para que o filho morra?

Li tudo o que encontrei em revistas de medicina sobre espinha bífida. O prognóstico não era bom. Quando Mary perguntou onde estava a Alexandra, respondemos que estava doente e que não podia vir ainda para casa.

Eu não conseguia dormir. Tinha visões de Alexandra deitada num berço cheia de dores, num lugar desconhecido sem ninguém para lhe pegar ao colo, ninguém para amá-la. Acordei várias vezes a meio da noite e encontrava Jorja no quarto vazio do bebê, a chorar. Mas havia esperança. Os registros mostravam que algumas crianças com espinha bífida viviam até à idade adulta. Alexandra precisaria de cuidados especiais, mas nós podíamos dar-lhos, íamos tentar tudo. O doutor Watson estava errado. Os milagres clínicos aconteciam todos os dias.

Quando apanhava um artigo sobre um medicamento miraculoso, mostrava-o a Jorja.

- Olha. Isto ontem nem sequer estava no mercado. Agora vai salvar milhares de vidas.

E Jorja procurava artigos sobre descobertas médicas.

- Aqui diz que há novas descobertas científicas prestes a mudar a face da medicina. Não há nenhuma razão que impeça que descubram alguma coisa que salve o nosso bebé.

- Podes crer. Ela tem os nossos genes. É uma sobrevivente. Só precisa de aguentar durante algum tempo. Hesitei e acrescentei: Acho que a devemos trazer para casa.

Os olhos de Jorja estavam rasos de lágrimas.

- Concordo contigo.

Vou ligar ao doutor Watson logo de manhã. E apanhei-o no consultório.

- Doutor Watson, eu queria falar consigo sobre a Alexandra. Eu e a Jorja pensamos que...

- Senhor Sheldon, eu ia agora mesmo ligar-lhe. A Alexandra morreu esta noite.

Se existe um inferno na terra, ele existe para um pai que perde um filho. É uma dor inexplicável que nunca desaparece completamente. Não conseguíamos parar de pensar em Alexandra e Mary a crescerem juntas, com uma vida maravilhosa e feliz, protegidas pelo nosso amor.

Mas Alexandra nunca veria um pôr do sol, nem passearia por um maravilhoso jardim. Nunca veria o voo de uma ave nem sentiria a quente brisa de verão. Nunca saborearia um cone de gelado, nem apreciaria um filme ou uma peça de teatro. Nunca usaria um vestido bonito, nem guiaria um automóvel. Nunca conheceria a alegria de se apaixonar, nem de ter uma família. Nunca, nunca, nunca.

Diz-se que, à medida que o tempo passa, a dor diminui. A nossa dor aumentava. As nossas vidas estavam num limbo. O único conforto que tínhamos era Mary, e a Jorja e eu demos por nós a sermos ridiculamente protetores.

Um dia, perguntei-lhe:

- Que acha de adotarmos uma criança?

- Não, ainda não.

Uns dias mais tarde, ela chegou junto de mim e disse:

- Se calhar deveríamos. A Mary precisa de um irmão.

Falamos com o doutor Watson sobre adotarmos uma criança. Ele acabara de ser abordado por uma estudante universitária que estava grávida e que rompera a ligação com o namorado. Queria entregar o bebê para adoção.

- A mãe do bebê é inteligente e atraente e vem de um bom ambiente familiar. Acho que dificilmente encontrariam melhor. Comentou.

Jorja, a nossa filha de seis anos e eu reunimos numa conferência de família.

- Tu tens o voto decisivo. Gostarias de ter um irmão ou irmã? Perguntamos.

Ela pensou por um momento.

- Não vai morrer, pois não?

Eu e Jorja olhamos um para o outro:

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