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A Romana [La romana - pt]

Электронная книга - «A Romana [La romana - pt]». Краткое содержание книги:

Um livro de Alberto Moravia, escrito durante a Segunda Grande Guerra, que se centra na vida simples e aparentemente desinteressante de Adriana, uma jovem habitante de Roma. Traída pelo seu primeiro amor, a romana entrega-se à prostituição como quem se entrega a uma vocação. Numa trajetória de inúmeros amantes, três homens se destacam: um jovem revolucionário, um criminoso foragido e um alto funcionário do governo facista, a romana interliga o destino desses homens, quem têm um final dramático e inesperado. No romance de Moravia o sexo tem um valor sobretudo simbólico.
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Tinha marcado encontro com Astárito em minha casa. Quando cheguei estava esgotada; já não estava habituada a sair de manhã; todo este sol e todas estas idas e vindas me tinham fatigado. Sentia-me triste; a minha visita a Gisela já a tinha expiado quando chorara no táxi que me transportara à sua casa nova. Foi minha mãe quem me abriu a porta, dizendo-me que alguém me esperava há mais de uma hora no meu quarto. Fui directamente para lá e sentei-me na beira da cama, sem me importar com Astárito, que, de pé, em frente da janela, parecia olhar para o pátio. Fiquei um momento imóvel, com a mão sobre o coração, ofegante, tanto correra pelas escadas acima. Estava de costas voltadas para Astárito e olhava com ar abstracto para a porta do quarto: ele tinha-me dado os bons-dias, mas nem sequer lhe respondera. Veio sentar-se ao pé de mim e, passando-me a mão pela cintura, olhou-me fixamente.

No meio de todas as minhas preocupações esquecera a sua louca sensualidade, sempre viva e aguçada. Achei-a intolerável.

— Então tu tens sempre desejo? — disse-lhe lentamente, num tom desagradável e recuando.

Não respondeu, tomou-me a mão e levou-a aos lábios com um olhar submisso.

— Tens sempre desejo? — repeti. — Mesmo a esta hora? Depois de teres trabalhado toda a manhã? Em jejum? Antes do almoço? Sabes que és extraordinário?

— Mas eu amo-te — disse-me. Vi os lábios tremerem-lhe e os olhos franzirem-se-lhe.

— Mesmo assim… — disse-lhe. — Há uma hora para o amor e uma hora para o resto. Marquei-te encontro justamente a esta hora para que compreendesses que não era de amor que se tratava… e tu, ao contrário… Não tens vergonha?

Olhava-me fixamente sem responder. Bruscamente tive a impressão de o compreender demasiado bem. Ele amava-me e este encontro esperava-o há não sei quantos meses. Enquanto eu me debatia no meio de mil dificuldades, ele não tinha feito outra coisa senão pensar nas minhas pernas, no meu seio, nas minhas ancas, na minha boca!

— Então — disse-lhe mais branda —, se eu me despir…

Ele disse que sim com a cabeça. Deu-me vontade de rir, sem maldade, mas não sem despeito.

— E a ideia de que me possa sentir triste ou simplesmente longe de todas estas coisas nunca te passa pela cabeça? Que posso ter fome, estar cansada… ou ainda ter outras preocupações… Isso nunca te ocorre, não?

Olhava-me. De repente atirou-se sobre mim, abraçou-me com força e aconchegou a cabeça na cavidade do meu ombro. Não me beijava, contentava-se em apoiar a cara contra a minha carne para sentir o seu calor. Respirava com força e de vez em quando suspirava. Agora já não estava irritada com ele; os seus gestos suscitavam-me pelo menos a compaixão e a consternação que me eram habituais: já não estava triste. Quando achei que ele já tinha suspirado bastante, repeli-o e disse-lhe:

— Preciso de falar contigo de uma coisa muito séria.

Olhou-me, segurou a minha mão e começou a acariciá-la. Era persistente. Realmente para ele nada mais existia que o seu desejo.

— Tu és da polícia, não és? — perguntei-lhe.

— Sou.

— Pois bem! Então manda-me prender e mete-me na prisão!

Disse-lhe isto em tom resoluto. Naquele momento desejava realmente que ele o fizesse.

— Mas porquê? Que te aconteceu?

— Aconteceu que sou uma ladra! — disse-lhe com força. — Acontece que roubei e que prenderam uma inocente por minha causa… portanto é preciso que me prendam; irei para a prisão de boa vontade. É isso que eu quero.

Não me pareceu admirado, mas apenas contrariado. Fez uma careta e disse:

— Explica-te!

— Já acabei de te dizer… sou uma ladra!

Em poucas palavras contei-lhe o roubo e expliquei-lhe como tinha sido presa a criada de quarto. Falei do estratagema de Gino, mas sem o nomear; disse somente: “um criado”. Mas desejava imenso falar-lhe de Sonzogne e do seu crime; fiz um esforço enorme para me conter. Concluí:

— Agora escolhe: ou libertas esta mulher da prisão… ou vou hoje mesmo entregar-me ao comissariado.

— Devagarinho!… — repetia levantando a mão. — Não há urgência alguma. Essa mulher está na prisão, mas não foi condenada. Esperemos.

— Não… não posso esperar. Ela está presa e parece que lhe batem… não posso esperar… Agora és tu quem tem de decidir…

O meu tom fez-lhe compreender que estava a falar sério. Levantou-se com uma expressão descontente e deu alguns passos pelo quarto. Depois disse como se falasse consigo próprio :

— Ainda há a história dos dólares.

— Mas ela negou sempre… depois de lhos terem encontrado… podemos dizer que era uma vingança de alguém que a detesta.

— E a caixa, tem-na?

— Está aqui! — disse-lhe tirando o objecto da mala e dando-lho.

Ele recusou-se a aceitá-lo.

— Não, não — disse-me —, não é a mim que o tens de dar.

Hesitou um momento, depois acrescentou:

— Posso conseguir libertar essa pobre mulher, mas é preciso que ao mesmo tempo a policia tenha a prova da sua inocência… esta caixa precisamente.

— Pronto! Vai restituí-la à sua proprietária.

Teve um riso desagradável.

— Como se vê que nada percebes destas coisas! — disse-me. — Se és tu quem me dá a caixa, sou moralmente obrigado a mandar-te prender… Senão dirão: como é que Astárito tem o objecto roubado, quem lho deu e como? Não, tens de arranjar maneira de fazer chegar a caixa às mãos do comissário, mas sem te descobrir.

— Posso mandá-la pelo correio?

— Não, pelo correio, não.

Deu ainda alguns passos pelo quarto e depois veio sentar-se ao meu lado e disse-me:

— Vais fazer o seguinte… Conheces algum padre? Lembrei-me do monge francês ao qual me confessara depois do passeio a Viterbo.

— Sim — respondi-lhe —, o meu confessor.

— Confessas-te ainda?

— Confessava-me.

— Bem… vai procurar o teu confessor e conta-lhe o que fizeste como acabas de mo fazer a mim… roga-lhe que devolva a caixa ao comissariado… nenhum confessor pode recusar uma coisa destas… ele não é obrigado a fornecer qualquer indicação porque está ligado ao segredo da confissão. Um ou dois dias depois, telefonarei e agirei… por fim a tua criada de quarto será posta em liberdade.

Senti uma alegria tão grande que não me contive e deitei-lhe os braços à roda do pescoço e beijei-o. Continuou já com a voz trêmula de volúpia:

— Mas não deves tornar a fazer destas coisas. Quando precisares de dinheiro, não tens mais que me pedir…

— Posso ir hoje mesmo procurar o confessor?

— Com certeza!

Tinha ficado com a caixa na mão. Fiquei muito tempo imóvel com o olhar perdido. Sentia um grande alivio, como se fosse eu a criada de quarto. Tinha realmente a impressão de ser ela ao pensar no alivio que ela experimentaria, bem maior que o meu quando a libertassem! Já não me sentia triste, nem cansada, nem desgostosa. Entretanto, Astárito, introduzindo os dedos em volta do meu pulso, procurava subir ao longo do braço por debaixo da manga. Voltei-me e disse-lhe com doçura e com voz acariciadora :

— Ainda continuas a desejar-me?

Incapaz de falar, disse que sim com a cabeça.

— Não te sentes cansado? — continuei com voz terna e cruel. — Não achas que é tarde, que seria melhor deixar para outro dia?

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