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A Romana [La romana - pt]

Электронная книга - «A Romana [La romana - pt]». Краткое содержание книги:

Um livro de Alberto Moravia, escrito durante a Segunda Grande Guerra, que se centra na vida simples e aparentemente desinteressante de Adriana, uma jovem habitante de Roma. Traída pelo seu primeiro amor, a romana entrega-se à prostituição como quem se entrega a uma vocação. Numa trajetória de inúmeros amantes, três homens se destacam: um jovem revolucionário, um criminoso foragido e um alto funcionário do governo facista, a romana interliga o destino desses homens, quem têm um final dramático e inesperado. No romance de Moravia o sexo tem um valor sobretudo simbólico.
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Encontrei um telefone público num restaurante e marquei o número de Astárito. Havia bem umas seis semanas que não lhe telefonava; devo tê-lo apanhado desprevenido, porque não reconheceu logo a minha voz e respondeu-me primeiro com o tom expedito que empregava quando estava no seu gabinete. Durante um instante tive a nítida impressão de que ele não queria mais ouvir falar de mim e senti um baque no coração ao pensar na criada de quarto na sua prisão, e na fatalidade que fizera com que Astárito deixasse de amar-me no próprio momento em que a sua intervenção era necessária para salvar esta desgraçada. No entanto, o meu próprio susto agradou-me porque me deu de novo o sentimento perdido da minha bondade e me fez compreender que a libertação desta mulher era verdadeiramente importante para mim, e que, não obstante as minhas relações com Sonzogne, o assassino, continuava a doce e compassiva Adriana que sempre fora.

Assustada, disse o meu nome a Astárito e ouvi com alívio a sua voz mudar imediatamente de tom e tartamudear enquanto o ritmo das suas palavras se acelerava.

Devo confessar que me senti invadir por uma onda de afeição por ele, porque um amor assim (aliás sempre lisonjeiro para uma mulher) dava-me segurança e enchia-me de gratidão. Marquei-lhe encontro com uma voz acariciadora; prometeu vir sem falta e saí do restaurante.

Durante toda aquela noite que passara com pesadelos tinha chovido muito; várias vezes ouvira durante o sono o ruído da chuva misturado com os assobios do vento, formando como uma parede de mau tempo à roda da casa, aumentando a solidão e as trevas nas quais eu me debatia. Mas de madrugada a chuva cessara e os últimos sopros de vento tinham varrido as nuvens, deixando o céu límpido e o ar imóvel e lavado. Depois de ter telefonado a Astárito, comecei a andar ao longo de uma avenida de plátanos, sob os primeiros raios de sol dessa manhã. Do meu penoso e frequentemente interrompido sono não ficara mais que um leve atordoamento que o ar frio me fez em breve passar. A beleza do dia dava-me uma grande alegria, e todos os objectos sobre os quais os meus olhos pousavam pareciam-me dotados de uma sedução que encantava os meus olhos e me alegrava. Gostava das gotas de orvalho em torno das pedras, agora secas. Gostava dos troncos dos plátanos com as escamas sobrepostas da sua casca; brancas, verdes, amarelas, castanhas, e aqui e ali douradas; gostava das fachadas das casas onde as grandes manchas molhadas conservavam ainda o traço da lavagem nocturna; gostava dos transeuntes da manhã; homens que vão apressados para o trabalho, criadas com o cesto no braço, raparigas e rapazes acompanhados dos pais ou dos irmãos, levando pastas e livros. Parei para dar esmola a um velho mendigo, e quando procurava o dinheiro no meu porta-moedas, os meus olhos pousaram ternamente sobre o seu velho capote militar e começaram a sentir simpatia pelos bocados com que ele estava remendado nos cotovelos e junto da gola. Eram bocados cinzentos, castanhos, amarelos ou de um verde menos destacado do conjunto; reparei no prazer que sentia ao observar a sua cor e a maneira como eles estavam solidamente cosidos com linha preta, com grandes pontos visíveis, e surpreendi-me a pensar no trabalho que ele teria tido uma manhã para cortar com a tesoura a parte usada, procurar um bocado em qualquer velho farrapo, ajustá-lo sobre o buraco e cosê-lo com amor. Gostava desses remeados como o esfomeado gosta de ver o pão saindo do forno; afastando-me, não pude impedir-me de olhar para trás várias vezes para os olhar. Então, de repente, pensei que devia ser bom ter uma vida semelhante àquela tão límpida, tão agradável, tão limpa. Uma vida que tivesse sido lavada de todos os seus aspectos embaciados e permitir olhar tudo com amor, mesmo as coisas mais humildes. Nesse momento senti de novo o desejo, há muito adormecido e mudo, de uma vida normal, com um homem só, numa casa nova, arrumada, clara e limpa. Apercebi-me de que o meu trabalho não me agradava, se bem que, por uma singular contradição, a minha natureza me levasse para ele. Pensava que este não era um trabalho limpo, que nele havia sempre à minha volta, sobre o meu corpo, sobre os meus dedos, na minha cama, como que uma impressão de suor, de espuma, de calor impuro, de humidade pegajosa que parecia persistir mesmo depois de me ter lavado e de ter arrumado o quarto. Pensava também que esta história de me despir e de me vestir durante quase todo o dia debaixo dos olhares de homens sempre diferentes impedia-me de considerar o meu corpo com o sentimento de prazer e de intimidade que teria gostado e que me lembro de ter experimentado, ainda rapariguinha, quando me via ao espelho ou quando tomava banho. É uma bela coisa poder observar o nosso próprio corpo como uma coisa nova e desconhecida que floresce, toma vigor e se embeleza sozinha; ora eu para dar de cada vez esta impressão de novidade aos meus amantes roubara-a a mim própria para sempre.

A luz destas reflexões, o crime de Sonzogne, a perversidade de Gino, a infelicidade da criada de quarto e todas as outras intrigas nas quais me debatia apareciam-me como consequências da irregularidade da minha vida. Consequências aliás privadas de sentido e que não me davam qualquer impressão de falta nem podiam ser suprimidas, a não ser que eu conseguisse satisfazer as minhas velhas aspirações a uma vida normal. Tomou-me um grande desejo de estar em regra em todos os sentidos. Em regra com a moral, que não permitia um ofício como o meu, em regra com a natureza, que impunha que na minha idade uma mulher tivesse filhos, em regra com o gosto, que mandava que se vivesse no meio de belos objectos, que se usasse lindos vestidos frequentemente renovados, que se morasse em casas iluminadas, limpas e cômodas. Somente estas coisas excluíam-se umas às outras; se eu estivesse em regra com a moral, não podia estar em regra com a natureza; e o gosto contradizia ao mesmo tempo a moral e a natureza. A esta ideia experimentava o despeito que me era habitual, tão velho como a minha vida, de me saber sempre em dívida com a necessidade e na incapacidade de me satisfazer somente pelo sacrifício das minhas melhores aspirações. Mas apercebia-me também mais uma vez de que não tinha aceite inteiramente a minha sorte; e isso dava-me confiança porque pensava que logo que se proporcionasse ocasião de mudar de vida, eu não seria apanhada desprevenida, mas aproveitaria a ocasião com clarividência e decisão.

Marcara encontro com Astárito ao meio-dia, à saída da repartição; tinha ainda algumas horas à minha frente: sem saber o que fazer, decidi ir a casa de Gisela. Havia já algum tempo que não a via; supus que qualquer outro ocupava na sua vida o antigo lugar de Ricardo: meio noivo, meio amante. Gisela, também como eu, esperava regularizar a sua situação; suponho que é uma esperança que têm todas as mulheres da minha espécie. Mas eu era levada a isso por uma inclinação nata, enquanto Gisela, que dava uma grande importância à consideração, era sobretudo por questão de decoro. Ela corava quando se pensava no que ela era, eis tudo, se bem que ela tivesse sido levada a sê-lo por uma vocação muito mais profunda que a minha. Eu, ao contrário, não sentia o menor sentimento de vergonha, mas, em certos momentos, uma impressão de servidão e de vida contra a natureza.

Chegada a casa de Gisela, dispunha-me a subir a escada quando a voz da porteira me obrigou a parar:

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