A Romana [La romana - pt]
- Автор: Моравиа Альберто
- Год: 1972
- Язык: португальский
- Год: Abril Cultural
- Переводчик: Marina Colassanti
- Жанр: Классическая проза
Электронная книга - «A Romana [La romana - pt]». Краткое содержание книги:
Vi-o fazer um gesto negativo com a cabeça.
— Amas-me assim tanto? — perguntei-lhe.
— Sabes bem que te amo — respondeu em voz baixa. Fez menção de me beijar. Libertei-me e disse:
— Espera!
Acalmou-se logo porque compreendeu que eu tinha acedido. Levantei-me, dirigi-me lentamente para a porta e dei volta à chave na fechadura. Depois fui à janela, abri-a, corri as persianas e fechei as portas. Ele seguia-me com os olhos enquanto eu girava pelo quarto, com uma atitude cheia de complacência, de preguiça, de majestade. Sentia o seu olhar sobre mim e compreendia até que ponto a minha aceitação inesperada lhe era agradável. Logo que puxei as persianas comecei a cantarolar em surdina com voz íntima e alegre. Sempre cantarolando, abri o armário, tirei o casaco e pendurei-o. Depois, sem cessar de cantar em voz baixa. olhei-me no espelho. Tive a impressão de nunca ter estado tão bonita, com os olhos brilhantes, doces e profundos, as narinas frementes, a boca entreaberta sobre os meus dentes regulares e brancos. Compreendi que era bela porque estava contente comigo própria e porque me sentia boa. Cantei um pouco mais alto e comecei a desabotoar o vestido de baixo para cima. Cantava uma canção completamente idiota que estava muito em voga nessa altura e dizia:
— Canto esta canção de que gosto tanto, que faz dlin dlon, dlin dlon, dlin dlon!
Esta cançoneta pateta parecia-me a própria vida, absurda sem dúvida, mas por vezes também doce e sedutora. Bruscamente, quando já estava com o peito nu, alguém bateu à porta.
— Mais logo — disse eu. — Agora não posso.
— É uma coisa urgente — respondeu a voz de minha mãe.
Desconfiei de qualquer coisa, abri a porta e espreitei.
Minha mãe fez-me sinal para sair e fechar a porta. Depois sussurrou-me :
— Está uma pessoa na sala que quer falar-te por força.
— Quem é?
— Não sei. É um rapaz moreno.
Abri devagarinho a porta da sala e olhei. Vi um homem virado de costas para mim, encostado à mesa. Depois recomendei a minha mãe:
— Diz-lhe que venho já… Não o deixes sair da sala.
Ela disse-me que ficasse descansada que o faria e tornei a entrar no quarto.
Astárito estava ainda sentado na cama como eu o tinha deixado :
— Depressa, depressa! Tenho pena, mas preciso de que te vás embora!
Perturbou-se e começou a balbuciar quaisquer protestos. Não o deixei acabar e continuei:
— A minha tia adoeceu de repente no meio da rua e eu e minha mãe temos de ir já ao hospital… Depressa, depressa!
Era uma mentira bastante grosseira, mas naquele momento foi a única que me ocorreu. Olhava-me aparvalhado, como se não acreditasse na sua pouca sorte. Reparei que tinha tirado os sapatos e que tinha umas meias listadas.
— Então! Porque me olhas assim? Tens de te retirar! — insistia eu, desesperada.
— Está bem, vou-me embora.
Baixou-se para calçar os sapatos. De pé, na sua frente, estendia-lhe já o casaco. Compreendi que teria de lhe fazer alguma promessa se quisesse que interviesse a favor da criada de quarto.
— Ouve — acrescentei, ajudando-o a vestir o sobretudo —, estou realmente vexada… mas volta amanhã à noite… depois do jantar… podemos estar juntos com tranquilidade… agora teria que te deixar logo em seguida… assim é melhor.
Ele não respondeu e eu acompanhei-o até à porta, conduzindo-o pela mão, como se fosse a primeira vez que ele tivesse vindo a minha casa, tal era o medo de que ele entrasse na sala onde Jaime me esperava.
— Ouve — disse-lhe. — Olha que vou hoje mesmo falar ao confessor.
Respondeu que sim com a cabeça para dizer que era conveniente. Tinha uma expressão ofendida e gelada. Na minha Impaciência, nem esperei que ele se despedisse e fechei-lhe a porta.
5
Enquanto me aproximava da porta da sala grande e punha a mão no puxador, compreendi de repente que, a menos que sucedesse um milagre, eu arriscava-me a criar entre mim e Jaime as lamentáveis relações que existiam entre mim e Astárito. E apercebi-me de que o sentimento de timidez, de receio e de cego desejo que eu inspirava a Astárito era o mesmo que eu sentia por Jaime.
Compreendendo perfeitamente que se quisesse ser amada me devia portar de uma maneira diferente, sentia-me invencivelmente impulsionada pelo desejo de me colocar perante a sua pessoa numa posição de dependência, de ansiedade, de sujeição. Quais poderiam ser os motivos da minha posição de inferioridade não saberia dizer: se os tivesse conhecido, esta posição deixaria de existir. O meu instinto advertia-me apenas de que éramos feitos de maneira diferente e que eu era mais resistente do que Astárito, mas mais frágil que Jaime: que da mesma maneira que qualquer coisa me impedia de amar Astárito, alguma coisa também havia que impedia Jaime de me amar; que da mesma forma como o amor de Astárito por mim, o meu amor por Jaime nascera sob mau signo e acabaria ainda pior. O coração saltava-me do peito e tinha a respiração entrecortada antes de o ver e de lhe falar. Estava cheia de medo de dar um passo em falso, de lhe fazer notar a minha ansiedade e o desejo que tinha de lhe agradar e ao mesmo tempo o receio de o perder para sempre. esta seguramente a pior maldição do amor; nunca é suficientemente retribuído: quando se ama não se é amado e quando nos amam não correspondemos. Nunca acontece dois amantes terem a mesma força de desejo e de sentimento, se bem que este seja o ideal para o qual todos os homens tendem, cada um por sua conta. Sabia com certeza que desde o momento em que me apaixonasse por Jaime ele não estaria apaixonado por mim. E sabia também, sem querer confessá-lo a mim própria, que, por mais que fizesse, nunca conseguiria que ele me tivesse amor. Tudo isto me passou pelo espírito enquanto esperava. mortalmente perturbada, atrás da porta da sala grande. Sentia-me completamente aturdida, pronta a cometer as maiores tolices, e isso irritava-me o mais possível. Acabei por me encher de coragem e entrei.
Estava ainda na posição em que o vira quando espreitara pela porta entreaberta, apoiado à mesa, de costas para a porta. Ouvindo-me entrar, voltou-se, olhou-me com ar hesitante, atento e crítico e disse-me:
— Passei por tua casa e lembrei-me de te fazer uma visita… achas que fiz mal?
Reparei que falava devagar, como se quisesse observar-me antes de pronunciar as palavras, e eu tremia à ideia de que talvez lhe parecesse menos sedutora que a recordação que o levara a procurar-me depois de tanto tempo. Encorajou-me a lembrança de que pouco antes, quando me olhara ao espelho, me achara bela. Respondi-lhe ansiosa:
— De maneira nenhuma. Fizeste muito bem… ia sair para almoçar… Vamos almoçar juntos!
— Mas tu reconheces-me? — perguntou-me, talvez com ironia. — Sabes quem eu sou?
— Se te reconheço! — disse eu, brincalhona.
E antes que a minha vontade dominasse os meus gestos, já lhe tinha pegado na mão e levado aos lábios, olhando-o com amor. Ele perdeu um pouco a serenidade e isso deu-me prazer.
— Porque nunca mais deste sinal de vida, grande maroto! — disse-lhe com voz terna.
Abanou a cabeça e respondeu:
— Tenho tido muito que fazer.
Eu perdera completamente a cabeça. Dos lábios levei a mão ao coração, abaixo do seio, e disse-lhe:
— Sente como o meu coração bate!
Mas ao mesmo tempo chamava-me idiota, porque pensei que não deveria fazer nem dizer aquilo.
Fez uma careta um pouco aborrecida; então, assustada. acrescentei depressa:
— Vou vestir o casaco. Volto já. Espera.
Sentia-me tão transtornada e tinha tanto medo de o perder que, uma vez no vestíbulo, fechei rapidamente à chave a porta da escada e tirei-a da fechadura. Se ele quisesse aproveitar o momento em que eu me vestia para se safar não lhe seria possível. Em seguida entrei no quarto e, diante do espelho, tirei o resto da pintura da boca e dos olhos com um canto do lenço. Depois tornei a pôr bâton, mas muito levemente. Fui ao bengaleiro buscar o casaco, não o encontrei e senti-me completamente perdida; depois lembrei-me de que o tinha pendurado no armário, tirei-o e vesti-o. Olhei-me no espelho e pareceu-me que o penteado que tinha chamava demasiado a atenção. Rapidamente, com algumas penteadelas, arranjei o cabelo como o usava na época em que era a noiva de Gino. Mas enquanto me penteava jurei solenemente que de futuro dominaria a minha paixão e não teria nem gestos nem palavras irreflectidos. Por fim estava pronta. Passei pelo vestíbulo e cheguei à porta da sala grande para chamar Jaime.