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A Romana [La romana - pt]

Электронная книга - «A Romana [La romana - pt]». Краткое содержание книги:

Um livro de Alberto Moravia, escrito durante a Segunda Grande Guerra, que se centra na vida simples e aparentemente desinteressante de Adriana, uma jovem habitante de Roma. Traída pelo seu primeiro amor, a romana entrega-se à prostituição como quem se entrega a uma vocação. Numa trajetória de inúmeros amantes, três homens se destacam: um jovem revolucionário, um criminoso foragido e um alto funcionário do governo facista, a romana interliga o destino desses homens, quem têm um final dramático e inesperado. No romance de Moravia o sexo tem um valor sobretudo simbólico.
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— Vai a casa da menina Gisela? Ela já cá não mora.

— Para onde foi ela?

— Rua Casablanca, 7.

A Rua Casablanca era uma rua nova situada num bairro recente.

— Um senhor louro veio buscá-la de automóvel; levaram as coisas e partiram.

Reparei imediatamente que se viera era justamente para ouvir aquilo, que ela tinha partido com alguém. Não sei porquê experimentei uma brusca impressão de cansaço; as pernas vergaram-se-me e tive de me apoiar à ombreira da porta para não cair. Mas reagi, e depois de reflectir decidi ir à nova casa de Gisela. Tomei um táxi e disse ao motorista que me levasse à Rua Casablanca.

Quanto mais o táxi avançava, tanto mais nos afastávamos da cidade e das suas velhas casas, alinhadas nas ruas estreitas e encostadas umas às outras. As ruas alargavam, bifurcavam, confluíam para formar praças e tornavam-se mais e mais largas; as casas eram novas, e entre duas construções entrevia-se de vez em quando uma faixa verde que era o campo. Percebi que a minha viagem tinha um sentido oculto, extremamente penoso, e tornava-me cada vez mais triste. Lembrava-me de todos os esforços feitos por Gisela para me roubar a inocência e me tornar igual a ela; e sem o querer, da mesma maneira natural como uma ferida sangra, assim também comecei a chorar.

Quando desci do táxi, tinha os olhos brilhantes e as faces cheias de lágrimas.

— Não vale a pena chorar, menina — disse-me o chauffeur.

Limitei-me a abanar a cabeça e encaminhei-me para a porta da casa de Gisela.

Esta casa era inteiramente branca, de estilo moderno, de construção absolutamente recente como o demonstravam os materiais ainda acumulados no pequeno jardim e as manchas de cal que maculavam as grades. Entrei num hall branco completamente nu; a escada era também branca, com janelas de vidro fosco, deixando passar uma luz suave. O porteiro, um forte rapaz ruivo, de fato-macaco, muito diferente dos velhos porteiros sujos que estava habituada a ver, indicou-me o ascensor; premi o botão e o elevador começou a subir. Exalava um agradável cheiro a madeira nova e verniz. No ruído que fazia também se tinha a impressão de se notar qualquer coisa de novo como o trabalhar de um motor em rodagem. O elevador subiu até ao último andar: à medida que subia, a luz aumentava como se não existisse tecto e como se subisse direito para o céu.

Por fim parou, eu saí e encontrei-me rodeada de uma claridade luminosa, num patamar de um branco ardente. em frente de uma porta de madeira clara com puxadores de cobre lavrados. Toquei: uma criadinha morena e magra veio abrir: tinha uma figura gentil, uma touca de renda e um avental bordado.

— A menina Santis? — perguntei. — Diga-lhe que está aqui a Adriana.

Deixou-me para ir ao fundo do corredor junto de uma porta envidraçada com vidros baços como os da escada. O corredor era também branco e nu como o resto da casa; julguei que o apartamento devia ser pequeno, quatro casas, não mais. Estava aquecido; o calor do irradiador reavivava o cheiro penetrante da cal fresca e da pintura nova. A porta envidraçada abriu-se ao fundo do corredor; a criadinha reapareceu e disse-me que podia entrar.

Entrando, primeiro nada vi, porque através de um grande vitral o sol de Inverno entrava em jorros deslumbrantes. Era o último andar: através desse vitral só se via o céu azul, resplandecente de sol. Por momentos esqueci a minha visita. Fechando os olhos perante esse sol quente e dourado como um velho vinho, senti uma impressão de bem-estar. Mas a voz de Gisela fez-me estremecer. Estava sentada em frente do vitral e por cima de uma mesinha semeada de frascos estendia os dedos a uma mulher baixinha e grisalha: a manicura.

— Oh! Adriana! Senta-te um momento — disse-me Gisela com falsa atenção, como lhe era habitual.

Sentei-me ao lado da porta e olhei à minha volta. A sala, vista do lado da janela, era comprida e estreita. A bem dizer quase não tinha móveis: uma mesa, um bufete, algumas cadeiras de madeira clara; mas era tudo novo e sobretudo havia o sol. Este sol tinha qualquer coisa de luxuoso. Há casas ricas — pensei eu — que não possuem um sol como este. Fechei os olhos gulosamente com doçura e por um momento em nada pensei. Depois senti qualquer coisa pesada e fofa cair sobre os meus joelhos; abri os olhos e vi que era um gato enorme, de uma raça que eu nunca tinha visto, com um pêlo extremamente comprido, fino como seda, de um cinzento-azulado, com um focinho grande, mau e majestoso, que não me agradou. O gato começou a ronronar, roçou-se por mim, levantou a sua cauda emplumada e emitiu uns roncos miados. Depois enroscou-se sobre os meus joelhos.

— Que lindo gato! — disse eu. — De que raça é?

— É um gato persa — respondeu com orgulho Gisela. É uma raça muito apreciada. Estes gatos chegam a ser pagos por muito dinheiro.

— Nunca tinha visto — disse eu acariciando o gato.

— Sabe quem tem um gato igual a este? — disse a manicura. — A senhora Radaelli. Se visse como o amima! Mais que a um cristão! No outro dia perfumou-o com o pulverizador… Então. ponho mais uma camada de verniz nas unhas dos pés?

— Não, Marta, não vale a pena, por hoje chega — disse Gisela.

A manicura arrumou os seus instrumentos e os frasquinhos numa maleta, cumprimentou-me e saiu da sala.

Uma vez sós, olhámo-nos. Gisela também me pareceu toda de novo como a casa. Vestia um bonito tricot de angorá vermelho com uma saia castanha que eu nunca lhe tinha visto. Tinha engordado: debaixo da malha o seio sobressaía mais e as ancas estavam mais amplas. Notei também que tinha as pálpebras um pouco inchadas como as pessoas que comem bem, dormem muito e não têm aborrecimentos.

As pálpebras assim davam-lhe um ar ligeiramente sonso. Olhou um instante para as suas unhas e perguntou-me, para dizer qualquer coisa:

— Que dizes? Gostas da minha casa?

Eu não sou invejosa. Mas nesse momento, talvez pela primeira vez na minha existência, senti a mordedura da inveja e admirava-me que houvesse pessoas capazes de manter em toda a sua vida um tal sentimento, por me parecer desagradável e doloroso no mais alto grau. Sentia na cara uma espécie de esticão como se tivesse emagrecido subitamente e esse esgar impossibilitava-me de sorrir e de dizer algumas palavras gentis a Gisela, como teria desejado. Experimentava por ela uma aversão encarniçada. Teria querido dizer-lhe alguma frase desagradáveclass="underline" feri-la, ofendê-la, humilhá-la, qualquer coisa que envenenasse a sua alegria. “Que tenho eu? — pensava, confusa, sem deixar de acariciar o gato. — Já não sou eu?” Felizmente que estes sentimentos não duraram muito. Logo a bondade existente no fundo da minha alma se revoltou e lutou contra esta súbita inveja. Pensava que Gisela era minha amiga, que a sua sorte me devia ser grata e que devia estar contente por ela.

Imaginei Gisela entrando pela primeira vez na sua casa nova batendo as mãos de alegria: no mesmo instante o frio da inveja desapareceu da minha cara e senti-me de novo aquecida pelo belo sol da sala, mas de uma maneira mais íntima, como se o sol tivesse entrado também na minha alma.

— Ainda o perguntas? — disse-lhe. — Uma casa tão bonita, tão alegre? Como a arranjaste?

Tive a impressão de ter pronunciado estas palavras com sinceridade e sorri; mais para mim própria, como por uma recompensa, do que para Gisela. Respondeu-me em ar de confidência e familiaridade:

— Lembras-te de João Carlos, daquele louro com o qual me zanguei logo naquela noite? Pois bem! Algum tempo depois voltou a procurar-me… era bem melhor do que me pareceu à primeira vista… Depois tornámo-nos a encontrar várias vezes… E há alguns dias disse-me: “Vem comigo, que quero fazer-te uma surpresa…” Eu pensei que me quisesse dar um presente: uma mala, um perfume… Em vez disso meteu-me no carro, trouxe-me aqui, mandou-me entrar… A casa estava completamente vazia… Pensei que fosse para ele. Perguntou-me se eu gostava, disse-lhe que sim mas sem imaginar, claro… Então ele disse-me: “Aluguei esta casa para ti!” Podes calcular a minha surpresa!

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