A Romana [La romana - pt]
- Автор: Моравиа Альберто
- Год: 1972
- Язык: португальский
- Год: Abril Cultural
- Переводчик: Marina Colassanti
- Жанр: Классическая проза
Электронная книга - «A Romana [La romana - pt]». Краткое содержание книги:
Mas quando saímos, a porta da escada que eu tinha esquecido que fechara à chave revelou o meu subterfúgio.
— Tinhas medo que eu saísse! — murmurou enquanto eu, confusa, procurava a chave na mala.
Ele agarrou a chave e foi ele próprio quem abriu a porta, olhando-me com um abanar de cabeça que parecia reprimir uma afectuosa severidade. O meu coração encheu-se de alegria e corri atrás dele na escada, segurei-lhe o braço e perguntei-lhe esbaforida:
— Não ficaste contrariado, pois não?
Não respondeu.
Na rua começamos a caminhar ao sol, de braço dado, ao longo das portas e das lojas. Estava tão feliz de andar ao seu lado que esqueci completamente os meus juramentos, e quando passamos em frente do pequeno pavilhão do torreão foi como se alguém pegasse na minha mão e a forçasse a apertar a sua. Apercebi-me de que me inclinava para a frente para o olhar melhor e lhe dizia:
— Sabes que estou bem contente de te ver?
Fez a sua careta habitual de embaraço e respondeu-me:
— Também estou contente — mas num tom que não condizia com as suas palavras.
Mordi os lábios até fazer sangue e desentrelacei os meus dedos dos seus. Não pareceu dar por isso; olhava à sua volta com ar distraído. A porta das muralhas parou e pronunciou numa voz reticente:
— Ouve, devo dizer-te uma coisa.
— Diz!
— Foi realmente por acaso que vim ver-te… e também por acaso não tenho nem um soldo no bolso. Por isso é melhor que nos separemos.
E dizendo isto estendia-me a mão. Comecei por experimentar um grande pavor: “Ele deixa-me”, pensava e, no meu desespero, não via outra solução senão agarrar-me ao seu pescoço chorando e suplicando. Mas o meu segundo movimento fez-me encontrar, no próprio pretexto que ele encontrara antes para me abandonar, uma solução fácil e mudei de sentimento. Pensei que podia pagar a refeição, e a ideia de lhe pagar da mesma maneira que toda a gente me pagava a mim seduziu-me. Já tenho falado no prazer sensual que sentia de cada vez que recebia dinheiro dos homens. Descobrira agora que havia em pagar-lhe um prazer também forte, e que a mistura do amor e do dinheiro — seja o dinheiro dado ou recebido — não era somente uma questão de proveito. Impetuosamente gritei-lhe:
— Mas não penses nisso! Serei eu quem pagará! Olha: tenho dinheiro.
Abri a mala e mostrei-lhe algumas notas que metera lá na véspera à noite.
Ele disse com uma espécie de decepção:
— Mas isso não se faz!
— Que importância tem isso? Tu voltaste: é justo que festeje o teu regresso!
— Não, não, não quero!
De novo fez menção de estender a mão e de se ir embora. Mas desta vez agarrei-o pelo braço declarando-lhe:
— Vá! Depressa! Não falemos mais nisso!
E dirigi-me para o restaurante. Sentámo-nos à mesma mesa que da primeira vez. Tudo estava como então, à parte um raio de sol invernal que penetrava pelos vidros da porta, iluminando as mesas e a parede. O dono da casa trouxe-nos a lista e eu dei as ordens num tom seguro e protector, parecido com aquele que empregavam comigo os meus amantes. Enquanto encomendava o almoço, ele conservou-se em silêncio, de olhos baixos. Esquecera-me de pedir vinho porque não bebia; mas lembrei-me de que na primeira vez ele bebera; tornei a chamar o homem e encomendei-lhe um litro.
Logo que ele se afastou, abri a mala, tirei uma nota, dobrei-a em quatro, olhei à minha volta e estendi-a por debaixo da mesa ao meu companheiro.
Olhou-me com ar interrogativo.
— É o dinheiro — disse-lhe em voz baixa. — Assim, quando quiseres, podes pagar.
— Ah! O dinheiro — disse lentamente.
Apanhou a nota, desdobrou-a em cima da mesa, olhou-a, depois tornou a dobrá-la, abriu a minha mala e tornou a metê-la lá com uma seriedade ligeiramente irônica.
— Queres que seja eu a pagar? — perguntei, desconcertada.
— Não — respondeu tranquilamente. — Eu pagarei.
— Mas então porque me disseste que não tinhas dinheiro?
Hesitou, depois respondeu com uma sinceridade cheia de amargura:
— Não foi por acaso que te procurei. Para te dizer a verdade. há um mês que penso em vir. Mas quando me encontrei diante de ti desejei tornar a ir-me embora. Então lembrei-me de te dizer que não tinha dinheiro: esperava que tu me mandasses para o diabo. Sorriu e passou a mão pelo queixo:
— Enganei-me, ao que parece — acrescentou.
Fora então uma espécie de experiência que ele fizera comigo. Mas não me desejava. Ou, para ser mais exacta, a atracção que sentia por mim era combatida por uma aversão igualmente forte. De futuro reconheceria nesta faculdade de mentir e de representar um papel para fazer uma experiência uma das suas características principais. Naquele momento sentia-me deveras perturbada e perguntava a mim própria se me devia lamentar ou felicitar pela sua astúcia e pela sua desfeita.
— Porque te querias ir embora? — perguntei-lhe maquinalmente.
— Porque compreendi que não experimentava qualquer sentimento por ti… ou, mais exactamente, um desejo como aquele que o meu amigo sente pela tua camarada.
— Sabes que eles vivem juntos? — disse-lhe.
— Sim — respondeu-me com ar de desprezo. — São feitos um para o outro.
— Nada sentes por mim — repeti —, e vieste? No meu amor decepcionado (decepção que eu, de resto, previra) tinha prazer em lhe fazer notar a sua inconsequência.
— Parece-me — respondeu — que eu sou o que vulgarmente se chama um carácter fraco.
— Vieste e isso basta-me — disse-lhe cruelmente.
Alonguei a mão por debaixo da mesa e pousei-lha sobre os joelhos, olhando-o. A este contacto vi-o perturbar-se e notei que o queixo lhe tremia. Senti prazer em vê-lo tremer; compreendi que, apesar de me desejar tanto como acabara de me dizer quando me confessara ter pensado durante um mês em me vir ver, havia uma parte dele próprio que me era hostil e que era contra essa parte que eu deveria dirigir os meus esforços a fim de a humilhar e destruir. Lembrei-me do seu olhar passando como um fio sobre as minhas costas nuas na primeira vez em que estivemos juntos; fizera mal em me deixar gelar por aquele olhar, que se eu tivesse persistido nos meus esforços para o seduzir, esse olhar se teria extinto da mesma maneira que neste momento a dignidade convulsa da sua cara caíra e se evaporara. Inclinada sobre a mesa como se lhe quisesse falar em voz baixa, acariciava-o e espiava com o olhar — um olhar que eu sentia alegre e satisfeito — o efeito da minha carícia sobre o seu rosto. Olhava-me com o ar interrogativo e magoado dos seus grandes olhos brilhantes com longos cílios de mulher. Acabou por me dizer:
— Se te chega agradares-me desta maneira, podes continuar.
Endireitei-me imediatamente. Quase no mesmo instante o patrão trouxe a comida. Começamos os dois a comer, sem apetite.
— No teu lugar procuraria obrigar-me a beber — disse-me.
— Porque?
— Porque quando estou embriagado faço com mais facilidade aquilo que os outros querem.