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A Romana [La romana - pt]

Электронная книга - «A Romana [La romana - pt]». Краткое содержание книги:

Um livro de Alberto Moravia, escrito durante a Segunda Grande Guerra, que se centra na vida simples e aparentemente desinteressante de Adriana, uma jovem habitante de Roma. Traída pelo seu primeiro amor, a romana entrega-se à prostituição como quem se entrega a uma vocação. Numa trajetória de inúmeros amantes, três homens se destacam: um jovem revolucionário, um criminoso foragido e um alto funcionário do governo facista, a romana interliga o destino desses homens, quem têm um final dramático e inesperado. No romance de Moravia o sexo tem um valor sobretudo simbólico.
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Entretanto, lentamente a escuridão entrava em mim como a água de uma inundação subindo do rés-do-chão aos andares superiores de uma casa. A primeira coisa a ser submersa foi seguramente a minha faculdade de julgamento. Até ao fim a minha imaginação fascinada saciou-se do crime de Sonzogne, mas isenta de toda a reprovação e de todo o horror, como de um acto incompreensível, e por conseguinte, no seu gênero, estranhamente atraente. Julguei ver Sonzogne caminhar pela Rua Palestro, as mãos nos bolsos do impermeável, depois entrar na casa e esperar de pé na pequena sala do ourives. Julguei ver o ourives entrar e apertar a mão a Sonzogne. Estava atrás da secretária. Sonzogne estendeu-lhe a caixa, que ele examinou com abanadelas de cabeça destinadas a indicar o seu desprezo. Depois levantava a sua cara de coelho e oferecia uma cifra irrisória. Sonzogne olhava-o fixamente, com olhos já cheios de ira, e arrancava-lhe violentamente o objecto das mãos. Depois acusava-o de ladrão e usurário. O outro ameaçava-o de o denunciar e intimava-o a ir-se embora. Depois voltava-se ou baixava-se como quem não quer discutir mais. Sonzogne agarrava o pisa-papéis de bronze e batia-lhe com ele na cabeça uma primeira vez. O outro tentava fugir e então Sonzogne saltava de novo sobre ele é atingia-o com novas pancadas até sentir que o tinha morto. Depois Sonzogne atirava-o ao chão, abria as gavetas, apoderava-se do dinheiro e fugia. Mas antes de sair, tinha eu lido no jornal, num novo acesso de fúria, dera um pontapé na cara do morto estendido no chão.

Demorava-me apaixonadamente sobre todos os pormenores do crime. Seguia Sonzogne como se acariciasse os seus gestos; era a sua mão que estendia a caixa, que empunhava o pisa-papéis, que feria o ourives; era o seu pé furioso que acabava por bater na cara do morto. Nenhum horror entrava nesta representação, o menor, como já disse, mas também qualquer aprovação. Experimentava o mesmo deleite singular que me provocavam, quando era pequena, os contos de minha mãe: está-se no quente, encolhida contra sua mãe e a imaginação segue com embriaguez maravilhada as aventuras das personagens do conto. Somente, o meu conto era sombrio e sangrento, o herói era Sonzogne e o meu encantamento misturava-se a uma impotente e melancólica tristeza. Como se quisesse tirar o sentido do conto, recomeçava, revia ainda as fases do crime, sentindo de novo um obscuro prazer e encontrava-me de novo em face do mistério. Como um homem que salta de um lado para o outro de um precipício mede mal o salto e cai no vácuo, no decurso de uma destas lucubrações adormeci.

Dormi talvez duas horas e acordei; ou, melhor, o meu corpo começou a acordar enquanto o meu espírito, mergulhado numa espécie de torpor, continuava adormecido. Foi com as mãos que comecei a acordar; estendia-as nas trevas como as de um cego, sem conseguir reconhecer o sítio onde estava. Adormecera estendida sobre a cama e agora estava de pé, num lugar estreito, entre muralhas verticais, herméticas e lisas. Veio-me imediatamente à ideia uma cela de prisão; e ao mesmo tempo a recordação da criada de quarto que Gino havia feito prender injustamente. Eu era a criada de quarto e a minha alma padecia toda a dor física da injustiça sofrida. Esta dor dava-me a sensação física de não ser já eu, mas a criada de quarto; sentia que esta dor me transformava, me fechava no corpo desta mulher, me impunha a sua cara, me obrigava aos seus gestos. Levei as mãos à cara, chorava, pensava que me tinham fechado injustamente numa cela e que me era impossível sair de lá. Mas ao mesmo tempo sentia que era ainda a Adriana a quem não tinham feito qualquer injustiça e que não tinha sido aprisionada. E compreendi que me bastaria um gesto para me libertar e deixar de ser a criada de quarto. No entanto, não conseguia adivinhar qual seria esse gesto, sofrendo e desejando desesperadamente sair da minha prisão de angústia e de piedade. Depois, de repente, rodeada desta mesma luz, feita de espasmos e de trevas, que nos deslumbra quando recebemos uma pancada violenta, o nome de Astárito resplandeceu no meu espírito. “Irei ter com Astárito e pedirei que a liberte!”, pensava eu. Estendi de novo as mãos e descobri ao mesmo tempo que as paredes da minha cela se tinham separado, deixando uma estreita abertura vertical por onde eu podia escapar-me. Dei alguns passos às escuras, os meus dedos encontraram o interruptor. Acendi a luz com uma febre histérica. O quarto iluminou-se. Estava ao pé da porta, nua, anelante, o corpo e a cara molhados de suor frio e abundante. A cela na qual me parecera estar encerrada não era senão o espaço compreendido entre o armário, o canto do quarto e a cómoda: espaço restrito que efectivamente as paredes e os dois móveis quase fechavam. Durante o sono levantara-me, e tinha-me encurralado ali.

Apaguei de novo a luz e voltei para a cama, medindo os passos. Antes de tornar a adormecer pensei que não podia ressuscitar o ourives, mas que podia salvar, ou pelo menos tentar salvar, a criada de quarto: era a única coisa que contava. Devia-o fazer, ainda mais porque acabava de descobrir que não era tão boa como pensava. Pelo menos a minha bondade não excluía o gosto pelo sangue, a admiração pela violência e a simpatia pelo crime.

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Na manhã seguinte vesti-me com cuidado, meti a caixa na mala e saí para telefonar a Astárito. Sentia-me estranhamente alegre. A angústia que a revelação de Sonzogne me inspirara na noite anterior desaparecera completamente. Além disso observei mais vezes no decorrer da minha vida que a vaidade é a pior inimiga da caridade e da reprovação moral. Mais do que horror ou medo, eu sentia agora um sentimento de vaidade ao pensar que em toda a cidade eu era a única a saber como fora praticado o crime e quem era o autor. “Eu sei quem matou o ourives”, dizia a mim própria, e tinha a sensação de olhar os homens e as coisas com olhos diferentes. Parecia-me que qualquer coisa mudara, mesmo na minha fisionomia, e receava quase que se decifrasse claramente o segredo de Sonzogne na expressão da minha cara. Ao mesmo tempo experimentava um desejo doce, agradável, irresistível, de contar a alguém o que sabia. Como se fosse demasiada a água num vaso muito pequeno para a conter, o segredo transbordava da minha alma e eu sentia a tentação de o lançar para outra. Suponho que é o principal motivo pelo qual tantos criminosos confiam às suas amantes ou às suas mulheres os crimes que cometeram e estas os contam a algum amigo mais íntimo e aquele a outro, até que a informação chega aos ouvidos da polícia, provocando assim a perdição de todos. Mas penso também que, quando confiam os seus actos infames, os criminosos procuram descarregar uma parte de um peso que lhes pareceu intolerável e fazem com que os outros também o carreguem. Como se o crime fosse um fardo que eles pudessem partilhar e repartir por vários ombros até o tornar sem importância. Como se, pelo contrário, ele não fosse uma carga inalienável, cujo peso não diminuiu por estar distribuído por outras pessoas, mas que se multiplica por todos aqueles que aceitam a sua carga!

Percorrendo as ruas para encontrar um telefone público, comprei dois jornais e procurei, nas notícias da cidade. informações sobre o crime da Rua Palestro. Mas muitos dias se tinham passado: não vi senão algumas linhas que exprimiam a decepção no seguinte título: “Nenhuma luz sobre o assassínio do ourives.” Compreendi que, a menos que praticasse qualquer erro grosseiro, Sonzogne podia estar certo de que nunca mais o descobririam. O carácter ilícito das actividades da vítima tornava, por si mesmo, muito difíceis as investigações policiais. O ourives, como diziam os jornais, estava com frequência em contacto, secretamente e por motivos inconfessáveis, com pessoas de todas as classes sociais e de todas as condições; o assassino podia muito bem ser alguém que nunca o tivesse visto antes e que o matasse sem premeditação. Esta hipótese estava muito próxima da verdade. Mas, precisamente porque era justa, deixava ver que a polícia renunciara a descobrir o culpado.

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