A Romana [La romana - pt]
- Автор: Моравиа Альберто
- Год: 1972
- Язык: португальский
- Год: Abril Cultural
- Переводчик: Marina Colassanti
- Жанр: Классическая проза
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Sorria com ar digno e satisfeito, deitando um olhar à sua volta. Impulsivamente levantei-me e fui beijá-la, dizendo:
— Fico bem contente! Bem contente! Podes crer que sinto verdadeiro prazer com isso!
Este gesto acabou por dissipar no meu espírito todo o sentimento hostil que ainda conservava. Encostei a cara à janela e olhei para fora. A casa elevava-se sobre uma espécie de promontório debaixo do qual se estendia uma paisagem imensa. Era uma terra cultivada, percorrida por um riachozinho sinuoso, semeada aqui e ali de matas, de quintas, de acidentes de terreno pedregoso. Da cidade só se via, num canto do panorama, um pequeno número de casas brancas, último prolongamento dos arrabaldes. Uma fila de montanhas desenhava-se no horizonte sobre o céu azul e luminoso. Voltei-me para Gisela e disse-lhe:
— Sabes que tens uma vista magnífica?
— Não é? — respondeu-me.
Foi ao bufete e tirou dois copinhos e uma garrafa de ventre bojudo :
— Tomas um cálice de licor? — perguntou-me com ar negligente.
Notava-se com clareza que todos os gestos de dona de casa a enchiam de satisfação.
Sentámo-nos à mesa e bebemos o licor em silêncio. Sentia que Gisela estava embaraçada. Fui ao encontro das suas ideias e disse-lhe com doçura:
— Tu não te portaste bem comigo! Podias ao menos ter-me dito!
— Não tive tempo — respondeu-me vivamente. — Com a mudança, sabes… E depois tive que comprar tanta coisa: móveis, roupa branca, louças… Nem tinha tempo para respirar… É que é preciso tanta coisa para montar uma casa!
Falava beliscando os lábios como certas senhoras distintas costumam fazer quando falam nestas coisas.
— Compreendo — disse eu sem sombra de maldade nem de amargura, absolutamente como se se tratasse de uma coisa que não me dissesse respeito. — Agora, que estás instalada e que as tuas coisas caminham melhor, não te agrada ver-me… tens vergonha de mim.
— Não tenho vergonha de ti — retorquiu com uma leve irritação, mais motivada, pareceu-me, pelo meu tom razoável que pelas minhas palavras. — Se pensas isso, és estúpida. Somente, doravante não nos podemos ver como dantes… quero dizer, não podemos sair juntas e fazer tudo o resto… Se ele viesse a saber, estava arranjada!
— Está sossegada — disse-lhe com doçura. — Não me tornarás a ver. Hoje vim unicamente para saber o que te tinha acontecido.
Fingiu não ouvir, confirmando assim as minhas suposições. Houve um momento de silêncio. Depois perguntou-me com ar de falsa solicitude:
— E tu?
Em seguida, com uma espontaneidade que me assustou, pensei em Jaime. Respondi-lhe com voz embargada:
— Eu? Está tudo como de costume.
— E Astárito?
— Vejo-o às vezes.
— E Gino?
— Acabei com tudo.
A recordação de Gino apertou-me o coração. Mas Gisela interpretou à sua maneira a expressão mortificada que o meu rosto deixava transparecer; pensava talvez que eu estava amargurada pela sua sorte e pela sua atitude desdenhosa. Disse com uma delicadeza afectada:
— Ninguém me tira da cabeça que bastava tu quereres para Astárito te pôr casa também.
— Mas eu não quero Astárito nem outro qualquer — respondi-lhe tranquilamente.
Vi a sua cara desconcertada.
— Porquê? — perguntou-me. — Não gostavas de ter uma casa como esta?
— A casa é bonita — respondi —, mas eu gosto mais da minha liberdade.
— Eu sou livre — disse-me, irritada. — Mais livre do que tu… tenho o dia todo para mim.
— Não é dessa liberdade que eu falo.
— Então de qual?
Compreendi que a magoara, mas porque não tinha mostrado admiração suficiente pela casa, de que ela estava tão orgulhosa. Expliquei-lhe, no entanto, que de maneira nenhuma desprezava a situação dela, mas que não me queria ligar sem amor a qualquer homem. e feri-a de novo, mais ainda desta vez. Preferi mudar de conversa e disse-lhe :
— Mostra-me a casa… Quantos quartos tens?
— Que te importa a casa — disse-me com desapontamento ingênuo —, se acabas de dizer que não gostarias de ter uma casa como esta?
— Não foi isso que eu disse — respondi com calma. — A tua casa é muito bonita. Gostaria até muito de ter uma assim!
Ela não respondeu. Baixou os olhos com ar mortificado:
— Então — disse eu molemente ao fim de uns instantes —, não ma queres mostrar?
Levantou os olhos e vi com espanto que estavam cheios de lágrimas.
— Não és a amiga que eu julgava ! — gritou-me. — Tu… tu… estás cheia de inveja… Desprezas de propósito a minha casa para me magoares.
Falava sem me olhar, com a cara cheia de lágrimas. Eram lágrimas de despeito; a invejosa desta vez era ela; sofria de uma inveja sem objectivo e corava sem o saber pelo meu amor desesperado por Jaime e pelo desprendimento amargo que este amor me dava. Mas, compreendendo-a tão bem, e porque a compreendia, senti pena dela. Levantei-me, aproximei-me e pousei-lhe a mão no ombro.
— Porque dizes isso? Não sou invejosa… Não são estas coisas que eu invejo. Mas estou contente por te saber feliz. Então, vá, mostra-me os outros quartos — disse-lhe beijando-a.
Assoou-se e pareceu-me desejar fazê-lo:
— São só quatro — disse-me —, e estão quase vazios.
— Mostra-mos.
Levantou-se, precedeu-me no corredor, abriu várias portas e mostrou-me o quarto, onde havia só uma cama, um sofá aos pés da cama, um quarto vazio onde ela tinha a intenção de pôr mais uma outra cama para os convidados e o quarto da criada, que não era mais que um cubículo. Mostrou-me estas três casas com uma espécie de despeito, explicando-me com brevidade o seu respectivo uso e sem tirar qualquer prazer disso. Mas a sua vaidade era mais forte do que o seu mau humor quando me mostrou a casa de banho e a cozinha, ambas revestidas de azulejos, com engenhos eléctricos novos e torneiras cintilantes… Explicou-me a maneira como funcionavam esses aparelhos, a sua superioridade sobre a aparelhagem de gás, o seu asseio e o seu rendimento; e se bem que o meu espírito andasse longe, fingi desta vez interessar-me pelas suas explicações com exclamações de admiração e de surpresa. Ficou tão contente com a minha atitude que me disse, uma vez acabada a visita:
— Vamos lá dentro tomar outro cálice de licor.
— Não, não — respondi-lhe. — Tenho de me retirar.
— Porquê esta pressa? Espera um momento.
— Não posso.
Estávamos no corredor. Hesitou um momento, depois declarou-me :
— Gostava que voltasses. Sabes o que podemos fazer? Ele vai com frequência a Roma… Um destes dias mando dizer-te, arranjamos dois dos teus amigos e passamos um bom bocado.
— Mas se ele sabe?
— E porque há-de saber?
— Está bem — disse eu. — Fica combinado.
Hesitei por minha vez, depois perguntei-lhe corajosamente :
— A propósito, diz-me uma coisa… e ele nunca te falou do amigo que o acompanhava naquela noite?
— O estudante? Porque? Interessa-te?
— Não, é só para saber…
— Ainda ontem à noite o vimos.
Não consegui dissimular mais a minha perturbação.
— Ouve — disse-lhe com a voz mal segura —, se o vires diz-lhe que venha ter comigo… mas diz-lhe sem parecer ligar grande importância ao assunto.
— Está bem — respondeu-me. — Eu digo-lhe.
Mas ela perscrutava-me com ar desconfiado e eu, sob o seu olhar, perdi a segurança, porque me parecia que o meu amor por Jaime estava escrito na minha cara em letras bem visíveis. Pelo tom da sua resposta compreendi que não faria o que lhe pedira. Desesperada, abri a porta, pedi licença e desci a escada com rapidez sem olhar para trás. No segundo andar parei e apoiei-me à parede olhando para cima. “Porque lhe disse isto? — pensava. — Que se passou em mim?” Continuei a descer, de cabeça baixa.