A Romana [La romana - pt]
- Автор: Моравиа Альберто
- Год: 1972
- Язык: португальский
- Год: Abril Cultural
- Переводчик: Marina Colassanti
- Жанр: Классическая проза
Электронная книга - «A Romana [La romana - pt]». Краткое содержание книги:
A frase que tinha já pronunciado: “Se te chega agradares-me desta maneira, podes continuar!” tinha-me magoado. O que ele dizia a respeito do vinho convenceu-me da inutilidade dos meus esforços. Desesperada, respondi-lhe:
— Quero que faças só aquilo que te apetecer. Se te queres ir embora, não tens mais que ir… a porta está ali.
— Para me ir embora — disse ele num tom brincalhão — era preciso que tivesse a certeza de o desejar!
— Queres que seja eu a ir-me embora?
Olhamo-nos. A minha dor dava-me a segurança da minha resolução. Esta atitude pareceu perturbá-lo tanto como as carícias que lhe fizera primeiro:
— Não — disse-me com esforço. — Fica.
Recomeçamos a comer em silêncio. Depois vi-o encher um grande copo de vinho e esvaziá-lo de um trago.
— Vês? Estou a beber — disse-me.
— Vejo.
— Daqui a pouco estou bêbado. Então já serei bem capaz de te fazer uma declaração!
Estas palavras trespassaram-me o coração. Tive a impressão de que já não podia continuar a sofrer desta maneira.
— Ouve — disse-lhe humildemente. — Não me atormentes mais!
— Atormento-te?
— Sim, metes-me a ridículo. Mas eu não te peço outra coisa senão que não te preocupes mais comigo. Apaixonei-me por ti… acabará por passar… Mas por enquanto deixa-me tranquila.
Não respondeu e bebeu o segundo copo de vinho. Temi tê-lo ferido e perguntei-lhe:
— Que queres? Estás zangado comigo?
— Eu? Pelo contrário.
— Se te agradar troçar de mim, podes fazê-lo; dizia aquilo só por dizer.
— Mas eu não faço troça de ti.
— E se te dá prazer dizeres-me maldades — insistia eu, tomada de não sei que desejo de me mostrar submissa com ele, sem manobras nem cálculos —, podes dizê-las… não te amarei menos por isso; amar-te-ei ainda mais! Se me batesses, beijaria a mão com a qual me tivesses batido.
Olhava-me com atenção e parecia extraordinariamente embaraçado. Era evidente que a minha paixão o desconcertava. Acabou por dizer:
— Vamos embora?
— Para onde?
— Para tua casa.
Estava tão desesperada que tinha quase esquecido o motivo do meu desespero. A um convite tão inesperado, quando ainda nem sequer tínhamos comido o primeiro prato e metade do vinho ainda estava no jarro, senti mais estupefacção que prazer. Pensava que não era o amor mas o embaraço que o levava a interromper o almoço e disse-lhe:
— Estás sobre brasas para me deixar, não é?
— Como percebeste? — perguntou-me.
Esta resposta, demasiado cruel para ser verdade, encorajou-me, respondi-lhe baixando os olhos:
— Sabes… há coisas que se compreendem logo! Não, vamos acabar de comer; depois vamo-nos embora!
— Como quiseres… mas vou embebedar-me.
— Embebeda-te… Nada tenho com isso!
— Mas vou embebedar-me até me fazer mal… e então em vez de um amante para amar, tens um doente para tratar.
Tive a ingenuidade de lhe mostrar o meu receio. Estendi a mão para o jarro e disse-lhe:
— Não bebas mais.
Desatou a rir e disse:
— Caíste no laço!
— Qual laço?
— Não te aflijas, que eu não adoeço assim com essa facilidade!
— Só o fazia por ti — disse-lhe, humilhada.
— Por mim? Oh! Oh!
Continuou a arreliar-me. Mas conservava nas suas alfinetadas a gentileza que lhe era natural, se bem que isso não me contrariasse muito.
— Mas tu, também, porque não bebes? — perguntou.
— Não gosto. Além disso, a mim basta-me um copo para me embriagar.
— Que mal pode fazer-te? Ficaremos os dois alegres.
— É feio uma mulher embriagada; não quero que me vejas assim!
— Porquê? Que tem isso de feio?
— Não sei. É feio ver uma mulher cambalear, dizer disparates, fazer gestos inconvenientes… É triste. Eu sei que sou uma desgraçada e sei que tu também pensas o mesmo de mim, que sou uma desgraçada. Mas se bebesse e tu me visses embriagada, nunca mais me poderias ver.
— E se te ordenasse que bebesses?
— Queres por força aviltar-me! — disse, reflectindo. — A única coisa boa que tenho é não ser ignóbil… Queres realmente que eu perca até mesmo esta qualidade?
— Quero! — disse-me com ênfase.
— Não percebo em que te pode isso dar prazer! Mas se o desejas muito, está bem, serve-me vinho! — disse-lhe.
E estendi o copo.
Olhou o copo e, depois de me olhar também, desatou a rir outra vez:
— Estava a brincar — disse.
— Nunca deixas de brincar!
— Então tu não és ignóbil — repetiu passado um momento em que me olhara em silêncio.
— É o que dizem, pelo menos.
— Julgas que eu também o penso?
— Como hei-de eu saber o que pensas?!
— Vejamos… que julgas tu que penso de ti e sinto por ti?
— Não sei — disse eu lentamente cheia de pavor. — Certamente que não me amas como eu te amo. Talvez eu te agrade como uma mulher pode agradar a um homem quando não é de todo feia.
— Ah! Então achas que não és de todo feia?
— Disso tenho a certeza — disse com orgulho. — Sei mesmo que sou muito bonita. Mas de que me serve a beleza?
— A beleza para nada serve.
Entretanto, tínhamos acabado de comer e esvaziáramos quase dois jarros de vinho.
— Como vês — disse-me —, bebi e não estou bêbado. Mas os seus olhos brilhantes e a agitação das mãos contradiziam as suas palavras. Olhava-o talvez com um ar esperançado.
— Queres voltar para casa? — disse-me. — É Vênus toda inteira agarrada à sua presa.
— Que estás a dizer?
— Nada. São uns versos franceses. Hep! Chefe! Era sempre um pouco enfático, mas de uma maneira cômica. E foi de uma maneira cômica que interpelou o patrão e lhe meteu o dinheiro debaixo do nariz, juntando-lhe uma gorjeta excessiva e declarando:
— Este dinheiro é para si!
Em seguida bebeu o resto do vinho e veio ter comigo. Já na rua, sentia uma grande pressa de chegar a casa.
Sabia que era de má vontade que ele voltava comigo; sabia que me desprezava e detestava o sentimento que o impelia para mim sem que o pudesse impedir. Mas eu tinha a maior confiança na minha beleza e no meu amor por ele e estava impaciente por afrontar a sua hostilidade com essas armas; sentia de novo uma vontade agressiva e alegre, e que o meu amor seria mais forte do que a sua aversão, que ao calor da minha chama o seu metal duro acabaria por se fundir e ele amar-me-ia por sua vez.
Caminhando a seu lado na grande avenida deserta às primeiras horas da tarde, disse-lhe:
— Vais prometer-me que, uma vez em minha casa, não procurarás ir-te embora.
— Prometo.
— Vais prometer-me ainda outra coisa.
— Qual?
Hesitei, depois disse:
— Da outra vez tudo se teria passado bem se não te tivesses posto, a certa altura, a olhar para mim de uma maneira que me envergonhou. Tens de me prometer que não tornas a olhar-me daquela maneira.
— De que maneira?
— Não sei… de uma maneira maldosa.
— Não se comanda o olhar — disse-me. — Se quiseres, nem te olharei, fecharei os olhos. Está bem?
— Não, não está! — insisti com obstinação.
— Mas de que maneira queres que olhe para ti?
— Como eu te olho — respondi-lhe.
Sem parar, segurei-lhe o queixo e mostrei-lhe a maneira como me devia olhar.
— Assim, com doçura.