A Romana [La romana - pt]
- Автор: Моравиа Альберто
- Год: 1972
- Язык: португальский
- Год: Abril Cultural
- Переводчик: Marina Colassanti
- Жанр: Классическая проза
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— Ah! Ah! Com doçura!
Quando chegamos à minha escada suja e lúgubre, não pude impedir-me de me lembrar da casa de Gisela, branca, asseada e límpida. E disse como se falasse comigo:
— Se eu não morasse numa casa suja, se não fosse a desgraçada que sou, com certeza te agradaria mais!
Parou de repente, segurou-me pela cintura com as duas mãos e disse-me num tom sincero:
— Se pensas isso, podes estar certa de que te enganas. Pareceu-me ver nos seus olhos qualquer coisa muito parecida com afecto. Ao mesmo,tempo curvou-se sobre mim e procurou-me a boca. O seu hálito cheirava muito a vinho. Nunca pude suportar o cheiro do vinho, mas neste momento, na sua boca, parecia-me agradável e puro, quase comovente, como o seria na boca de uma criança inexperiente. Compreendi que as minhas palavras tinham, sem que o tivesse procurado, tocado o seu ponto sensível. Pareceu-me, como já disse, ter feito nascer nesse momento na sua alma a centelha da afeição. Em seguida percebi que ele agia mais por ponto de honra e que, ao beijar-me, não obedecia tanto a um gesto de amor, que não sentia, como, à sua maneira, a uma espécie de chantagem moral. Mais tarde estimulei-o da mesma maneira mais vezes, acusando-o de me desprezar pela minha pobreza e pela minha profissão. Obtive sempre o mesmo resultado favorável aos meus desejos, ao mesmo tempo que completava o meu conhecimento da sua pessoa — um conhecimento singularmente humilhante e falaz. Mas nesse dia não o conhecia ainda como depois. E esse beijo deu-me uma grande alegria, como se fosse uma vitória definitiva. Satisfeita com o gesto, contentei-me em aflorar os seus lábios, pegar-lhe na mão e dizer-lhe:
— Vamos. Vamos para cima! Corre! — e puxava-o, fazendo-o galgar alegremente até ao último andar. Ele deixava-se levar sem pronunciar palavra.
Cheguei ao meu quarto quase a correr, arremessando-o como a um boneco contra a parede do vestíbulo. Entrei violentamente, e assim que cheguei junto da cama atirei-o para lá. Só então percebi que ele não estava apenas bêbado, mas, como me prevenira, parecia sentir-se mal. Estava extremamente pálido, passava a mão pela testa como se estivesse tonto e tinha nos olhos um brilho vacilante e perturbado. Vi tudo isso apenas com um olhar e fiquei logo com medo de que desmaiasse, e que do nosso segundo encontro nada resultasse outra vez. Por um instante, ao andar de um lado para o outro para me despir, senti um vivo remorso, como que um desespero, por não o ter impedido de beber. Mas note-se que nem sequer me passou pela ideia renunciar a este amor tão desejado. Só tinha uma esperança: que não se sentisse mal a ponto de não me poder amar, ou que, se a indisposição fosse verdadeiramente forte, os seus efeitos se fizessem sentir depois, e não antes, de ter satisfeito o meu desejo. Estava realmente apaixonada por ele; mas tinha tanto medo de o perder que o meu amor não ultrapassava os limites do meu egoísmo.
Portanto, fingi não notar a sua embriaguez, e depois de despida sentei-me na cama a seu lado. Tinha ainda o sobretudo vestido como quando tinha entrado. Ajudei a despi-lo. Enquanto o fazia, ia-lhe falando para o distrair e impedir de pensar em se ir embora.
— Ainda não me disseste quantos anos tens — disse-lhe tirando-lhe o sobretudo pelas mangas, enquanto ele levantava docilmente o braço para me auxiliar nos meus esforços.
Respondeu passado um momento:
— Tenho dezanove anos.
— Tens menos dois do que eu.
— Tu tens vinte e um?
— Quase vinte e dois.
Os meus dedos procuravam desmanchar-lhe o nó da gravata. Lentamente ele afastou-me e desfez o nó. Depois deixou cair os braços e tirei-lhe a gravata.
— Está velha a tua gravata — disse-lhe. — Hei-de comprar-te uma. De que cor queres?
Ele riu. Gostava de o ver rir, porque tinha um riso amável e gentil.
— Tu queres por força sustentar-me! — disse. — Primeiro querias pagar-me o almoço e agora queres comprar-me uma gravata?
— Que disparate! — disse-lhe com ternura. — Que mal te pode isso fazer? Eu tenho gosto em oferecer-te uma gravata: isso não pode contrariar-te!
Enquanto me ouvia, tirara o casaco e o colete e estava sentado na beira da cama em mangas de camisa.
— Nota-se que tenho dezanove anos? — perguntou-me.
Agradava-lhe sempre falar dele; depressa o descobri.
— Sim e não — disse hesitando, vendo que isso o lisonjeava. — Vê-se sobretudo pelos cabelos — acrescentei acariciando-lhe a cabeça. — Um homem tem o cabelo menos forte. Na cara não.
— Que idade me darias?
— Vinte e cinco.
Calou-se e fechou os olhos como se fosse vencido pela embriaguez. De novo tive medo que se sentisse mal e apressei-me a ajudá-lo a tirar a camisa, acrescentando:
— Fala-me mais de ti. És estudante?
— Sou.
— Em que curso estás?
— Direito.
— Vives com a tua família?
— Não, a minha família mora na província, em S…
— Estás numa pensão?
— Não, tenho um quarto mobilado — respondeu-me mecanicamente de olhos fechados. — Na Rua Cola di Rienzo, 20, apartamento 8, em casa da viúva Medolaghi, Amélia Medolaghi.
Tinha o tronco nu. Não resisti à tentação de lhe passar gulosamente as mãos sobre o peito e o pescoço dizendo:
— Porque ficas assim? Não tens frio?
Levantou a cabeça e olhou-me. Depois riu-se e disse-me com uma voz um pouco áspera:
— Julgas que eu não percebo?
— O quê?
— Que me despes disfarçadamente? Estou embriagado, mas não a esse ponto.
— E então! — respondi, desconcertada. — Mesmo que assim fosse, que mal há nisso? Devias ser tu a fazê-lo, mas como não fazes, auxilio-te.
Parecia não me ouvir — Estou bêbado — continuou, abanando a cabeça —, mas sei muito bem o que faço e porque estou aqui. Não preciso de ajuda… Olha!
Bruscamente, com gestos violentos que a magreza fazia parecer serem de louco, tirou o cinto, fez voar para longe as calças e tudo o que tinha ainda vestido:
— E sei também o que esperas de mim! — acrescentou apoiando as mãos nas minhas ancas.
As suas mãos, fortes e nervosas, apertavam-me e nos seus olhos a bebedeira parecia ter cedido o lugar a uma espécie de enérgica malícia. Esta malícia tornei a encontrá-la mesmo nos momentos em que parecia abandonar-se completamente. Era um claro indício da sua lucidez de consciência, que conservava sempre, fosse o que fosse que fizesse, e que — acabei por descobrir mais tarde com mágoa — o impedia de se entregar e amar realmente.
— É isto que queres, não é? — acrescentou sem me largar, enterrando-me as unhas na carne. — E depois isto, isto?
De cada vez que dizia isto tinha um gesto de amor, beijando-me, mordendo-me e beliscando-me traiçoeiramente com as duas mãos nos sítios onde eu menos esperava. Eu ria, defendia-me, debatia-me, estava demasiadamente feliz por ver acordar o seu desejo para notar o que havia de forçado e de insincero na sua atitude. Magoava-me como se o meu corpo fosse para ele um objecto de ódio e não de amor. Julguei ver brilhar nos seus olhos, em vez de desejo, uma espécie de cólera. Depois o seu frenesi terminou de repente, como tinha começado. De uma maneira curiosa, inexplicável, talvez por estar dominado pela embriaguez, deixou-se cair de costas na cama a todo o comprimento e encontrei-o ao meu lado com a bizarra impressão de que ele não se mexera, nem me falara, que nunca me tinha tocado, nem beijado, como se tudo estivesse ainda por começar.
Fiquei muito tempo imóvel, ajoelhada na sua frente sobre a cama, os cabelos nos olhos, olhando-o e aflorando de vez em quando timidamente com a ponta dos dedos o seu belo corpo alongado, magro e puro. Tinha a pele branca debaixo da qual sobressaíam os ossos, os ombros largos e magros, as ancas estreitas e as pernas longas; não tinha pêlos, salvo alguns no peito; a posição em que estava, deitado de costas, esticava-lhe o ventre de maneira que o púbis parecia estendido como uma oferta. Em amor eu não gosto de violência; por isso me parecia que nada se tinha passado entre nós, que tudo estava ainda no princípio. Deixei, pois restabelecer-se a calma e o silêncio depois deste tumulto irônico e fictício, e quando me senti de novo no estado de alma apaixonado e sereno que me é habitual, lentamente, do mesmo modo que durante o tempo quente se entra lentamente na água deliciosa de um mar calmo, estendi-me ao seu lado, entrelacei as minhas pernas nas suas, rodeei-lhe o pescoço com os braços e apertei-me contra ele. Desta vez não se mexeu nem falou até ao fim. Eu chamava-lhe os nomes mais doces, respirava sobre o rosto, envolvia-o na rede apertada e quente das minhas carícias, e ele, como se estivesse morto, jazia deitado de costas, imóvel. Mais tarde soube que esta passividade sem participação era a maior prova de amor que ele podia dar.