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A Romana [La romana - pt]

Электронная книга - «A Romana [La romana - pt]». Краткое содержание книги:

Um livro de Alberto Moravia, escrito durante a Segunda Grande Guerra, que se centra na vida simples e aparentemente desinteressante de Adriana, uma jovem habitante de Roma. Traída pelo seu primeiro amor, a romana entrega-se à prostituição como quem se entrega a uma vocação. Numa trajetória de inúmeros amantes, três homens se destacam: um jovem revolucionário, um criminoso foragido e um alto funcionário do governo facista, a romana interliga o destino desses homens, quem têm um final dramático e inesperado. No romance de Moravia o sexo tem um valor sobretudo simbólico.
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— Mas tu não tens pena? — perguntei-lhe. — Não tens remorsos?

— Agora está feito — disse.

Olhava-o intensamente. A esta resposta. surpreendi-me, sem dar por isso, a aprovar com a cabeça. E então lembrei-me de Gino, que também era, segundo o termo de Sonzogne, um bandido, mas que não deixava de ser um homem que eu amara e que me amava. Pensava que amanhã poderia aprovar da mesma maneira a morte de Gino. Admitia que o ourives não era nem melhor nem pior do que Gino, que não havia diferença entre os dois, a não ser que eu não conhecia o ourives, e se me parecera justo que o tivessem assassinado era unicamente porque tinha ouvido dizer de uma certa maneira que ele tinha cara de coelho — e senti remorsos e horror… Não há horror por Sonzogne, que era feito assim e que era preciso compreender para o julgar, mas de mim, que não era feita como Sonzogne e portanto me deixava tomar pelo contágio do ódio e do sangue. Fui tomada por uma espécie de agitação, e de um salto sentei-me na cama: — Oh! Meus Deus! — repetia eu. — Oh! Meu Deus! Porque fizeste isso? E porque mo contaste?

— Tinhas tanto medo de mim — respondeu com simplicidade — e no entanto nada sabias; pareceu-me estranho e contei-te… Felizmente — acrescentou, divertido com o próprio raciocínio — nem todos são como tu; já estaria descoberto!

— É melhor que te vás embora e me deixes sozinha — disse-lhe. — Vai, anda.

— Que tens tu agora? — respondeu-me.

Reconheci o tom que tinha quando estava furioso. Mas pareceu-me descobrir neste tom não sei que pesar de se encontrar só, condenado também por mim, que pouco antes lhe tinha pertencido. Acrescentei rapidamente:

— Não julgues que tenho medo de ti. Já não é por medo… Mas tenho de me habituar à ideia… Preciso de pensar… quando voltares já será diferente.

— Mas em que queres pensar? — disse. — Não tens a intenção de me denunciar?

Estas palavras produziram-me a mesma impressão que me dera a confissão de Gino da maneira como traíra a criada de quarto: era gente que vivia num mundo diferente do meu. Fiz um grande esforço e respondi:

— Mas se te digo que podes voltar! Sabes o que outra mulher te diria? Não quero mais ouvir falar de ti, não te quero ver mais… era o que diria!

— Mas agora queres que me vá embora!

— Julgava que te querias ir embora… então um momento de mais ou de menos… Mas, se queres ficar, fica! Queres dormir cá? Se queres, podes passar a noite comigo e ires-te embora só amanhã de manhã… Queres?

Para falar verdade, fazia-lhe este oferecimento numa voz baça e triste, mas fazia-lho e estava contente por isso. Deitou-me um olhar onde julguei descobrir um vislumbre de gratidão (talvez me tivesse enganado), depois abanou a cabeça:

— Falei por falar — disse. — Realmente tenho de me ir embora.

Levantou-se e aproximou-se da cadeira onde tinha deixado a roupa.

— Como quiseres — disse-lhe. — Mas, se queres ficar, podes ficar. E se qualquer dia tiveres necessidade de dormir aqui — acrescentei com esforço — podes vir.

Não disse palavra; começou a vestir-se. Levantei-me por minha vez e vesti um penteador. Enquanto o enfiava senti uma impressão de loucura, como se o quarto estivesse cheio de vozes murmurando-me ao ouvido palavras intensas e contraditórias. E talvez fosse esta impressão de loucura que me levou a fazer um gesto sem saber porquê. Enquanto girava pelo quarto, fazendo movimentos lentos com um sentimento de frenesim, vi-o abaixar-se para atacar os sapatos. Então ajoelhei-me na sua frente e disse-lhe:

— Deixa estar que eu faço isso!

Pareceu ficar admirado mas não protestou. Agarrei-lhe no pé direito, coloquei-o no meu colo, fiz um nó duplo no atacador do sapato direito e a mesma coisa no do esquerdo. Nem me agradeceu, nem nada me disse; provavelmente éramos dois no quarto a não compreender porque tinha eu feito aquilo. Enfiou o casaco, tirou a carteira do bolso e fez menção de me dar dinheiro.

— Não, não! — disse com involuntário nervosismo na voz. — Não, não… não me dês coisa alguma… não é preciso…

— Porque? O meu dinheiro não é igual ao dos outros? — perguntou-me com uma voz onde se notava já ira.

Pareceu-me bizarro que não compreendesse a minha repugnância por esse dinheiro, tirado talvez do bolso ainda quente do morto. Mas talvez o compreendesse e quisesse comprometer-me por uma espécie de cumplicidade, ao mesmo tempo que punha à prova os meus verdadeiros sentimentos por ele.

— Não é isso… — objectei —, eu… eu… mas eu não pensava em dinheiro quando te chamei… Deixa estar…

Pareceu acalmar-se.

— Está bem! — disse. — Mais vais aceitar uma recordação. Tirou do bolso um objecto que colocou sobre o mármore da mesa-de-cabeceira.

Olhei o objecto sem lhe pegar e reconheci a caixa de pó de arroz de ouro, roubada por mim alguns meses antes na casa da patroa de Gino.

— Que é isto? — balbuciei.

— Foi o Gino quem ma deu… era o objecto que eu devia vender… aquele indivíduo queria-o de graça… mas eu creio que tem um certo valor: é de ouro.

Dominei-me e disse:

— Obrigada.

— De nada — respondeu.

Tinha vestido o impermeável e apertava o cinto.

— Então até qualquer dia! — disse-me da porta.

Passado um momento, ouvi ao fundo da antecâmara a porta fechar-se.

Só, aproximei-me da mesa-de-cabeceira e peguei na caixinha. Sentia-me embaraçada e tomou-me um sombrio espanto. A caixa brilhava na minha mão, e o rubi redondo e vermelho encaixado no fecho pareceu alargar-se na minha mão e cobrir o ouro. Tinha na mão uma mancha de sangue redonda e brilhante que pesava tanto como o objecto. Sacudi a cabeça; a mancha desapareceu; tornei a ver a caixa de ouro com um fecho de rubi. Então pousei-a sobre a mesa-de-cabeceira, estendi-me na cama, com o corpo enrolado no penteador, apaguei a luz e reflecti.

Pensava que se me tivessem contado a história da caixa eu teria rido como se ri de um caso extraordinário e quase inacreditável. Era uma daquelas histórias que obrigam a exclamar: “Ora vejam lá a coincidência!” e em seguida as boas mulheres do tipo da minha mãe tiram daí indicações para o número da lotaria: a morte é um número, o ouro outro; o gatuno, outro. Mas desta vez fora comigo que a história acontecera; e reparava com grande admiração na diferença que havia em estar fora ou dentro das coisas. Com efeito, acontecera-me aquilo que acontece a alguém que, tendo enterrado um grão, o encontra muito tempo depois transformado em planta vigorosa, cheia de folhas e coberta de botões prestes a abrir. Mas que semente, que planta e que botões! Ia de uma coisa para a outra sem chegar ao começo. Tinha-me entregue a Gino porque esperava que casasse comigo, mas tinha-me enganado e eu por raiva furtara a caixa. Depois revelara-lhe o roubo, ele assustara-se e, para evitar que fosse acusado, tinha-lhe devolvido o objecto para que ele o entregasse à patroa. Mas em vez de o restituir, guardara-o e, julgando que o acusavam de roubo, tinha feito com que prendessem a criada de quarto, a qual estava inocente, e na prisão batiam-lhe! Entretanto Gino dera a caixa a Sonzogne para que a vendesse e Sonzogne fora a casa do ourives para o efeito, e este tinha irritado Sonzogne e Sonzogne, enfurecido, tinha-o morto, e logo que o ourives morreu Sonzogne tornou-se um assassino! Compreendia que não podia inculpar-me, mas ao mesmo tempo pensava que a causa principal de todas estas desgraças tinha sido o meu desejo de me casar e de constituir família, mas ao mesmo tempo não conseguia eximir-me a um sentimento de remorso e de consternação. Enfim, à força de reflectir cheguei à conclusão de que no fim de contas a culpa de tudo recaía inteira sobre as minhas pernas, o meu seio, as minhas ancas, em resumo, na minha beleza, de que minha mãe tanto se orgulhava, e que no fundo nada tinha de me acusar porque todas as coisas vinham da natureza. Mas se nisso pensava, era por irritação e desespero, como se pensa numa coisa absurda para desculpar outras cem vezes mais absurdas. Sabia em consciência que ninguém era culpado, que tudo era como tinha de ser, embora tudo fosse insuportável, e que se realmente se pretendia que houvesse alguma culpa ou alguma inocência, então todo o mundo era ao mesmo tempo inocente e culpado.

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