A Romana [La romana - pt]
- Автор: Моравиа Альберто
- Год: 1972
- Язык: португальский
- Год: Abril Cultural
- Переводчик: Marina Colassanti
- Жанр: Классическая проза
Электронная книга - «A Romana [La romana - pt]». Краткое содержание книги:
— Não… desta vez é só frio… Vamos enfiar-nos na cama.
— Está bem! — disse ele.
Este “Está bem!”, onde subsistia ainda um resto de ameaça, confirmou a minha desconfiança. Então, enquanto que, debaixo dos lençóis, ele me apertava e me estreitava, passei um momento de angústia indescritível, um dos piores da minha vida. O medo inteiriçava-me os membros, que, sem eu o querer, se arrepiavam ao contacto do seu corpo, singularmente liso, escorregando e serpenteando. Ao mesmo tempo dizia a mim própria ser absurdo ter medo num momento daqueles e procurava com todas as forças da minha alma dominar o meu temor e abandonar-me a ele sem receio, como a um amante bem amado. Sentia este medo, não tanto nos meus membros, que me obedeciam, às vezes com grande repugnância, mas no fundo das minhas entranhas, que pareciam fechar-se e recusar-se ao abraço com horror. Acabou por me possuir e senti um prazer que o terror tornava negro e atroz. Não pude evitar de emitir um grito longo e lamentoso, na escuridão, como se a posse final não fosse a do amor, mas a da morte, como se esse grito fosse o da minha vida que partia, não deixando atrás dela mais do que um corpo inanimado e martirizado.
Depois ficamos um bom bocado às escuras sem falar. Mas eu estava estafada e adormeci quase em seguida. Senti logo a impressão de um enorme peso sobre o meu peito, como se Sonzogne se tivesse acocorado, dobrado sobre si próprio, nu como estava, os joelhos entre os braços e a cara sobre os joelhos. Estava sentado sobre o meu peito, as nádegas duras e nuas fazendo pressão sobre o meu pescoço, os pés sobre o meu estômago. A medida que adormecia, o seu peso aumentava, e, a dormir, mexia-me de um lado para o outro para experimentar desembaraçar-me, ou pelo menos deslocá-lo. Por fim tive a impressão de sufocar e quis gritar. Fazia-o sem voz, que estacionava no meu peito muito tempo, um tempo que me pareceu infinito; por fim consegui emiti-la e acordei num choro alto.
A lâmpada da mesa-de-cabeceira estava acesa e Sonzogne olhava-me apoiado no cotovelo.
— Dormi muito tempo? — perguntei-lhe.
— Uma meia hora — disse por entre dentes.
Deitei-lhe uma olhadela onde devia persistir o terror do meu pesadelo, porque me perguntou com um curioso acento, como para entabular conversa:
— E agora, ainda tens medo?
— Não sei.
— Se soubesses quem eu sou, ainda terias mais medo do que anteriormente.
Todos os homens depois do amor se inclinam para as conversas sobre eles próprios e para as confidências. Sonzogne parecia não fazer excepção à regra.
O tom da sua voz, ao contrário do que lhe era habitual, era leve, calmo e quase afectuoso, fútil, com uma ponta de vaidade. Mas assustava-me outra vez terrivelmente, e o meu coração começou a bater com toda a força como se fosse rebentar.
— Porquê? — perguntei. — Quem és tu?
Olhou-me não porque hesitasse, mas porque queria saborear o efeito das suas palavras sobre mim. Acabou por dizer lentamente.
— Sou o da Rua Palestro; sou esse.
Ele pensava que nem seria preciso explicar o que se passara na Rua Palestro, e desta vez a sua vaidade não se enganou. Alguns dias antes um crime horrível fora cometido numa casa dessa rua; todos os jornais haviam falado nele, e as pessoas apaixonadas por esses assuntos tinham-no comentado muito. Minha mãe, que passava uma grande parte do dia a coleccionar notícias diversas, tinha sido a primeira a falar-me no caso. Um jovem ourives fora assassinado no apartamento onde vivia. Ao que parecia, a arma de que se servira Sonzogne — porque agora já sabia quem era o assassino — tinha sido um pesado pisa-papéis de bronze. A polícia não tinha encontrado qualquer indício que a conduzisse à descoberta do assassino. Havia suspeitas de o ourives ter sido receptador; supunha-se pois — com razão, como se verá — que tinha sido morto no decorrer de uma transacção ilícita.
Tenho muitas vezes notado que assim que uma notícia nos enche de horror ou de espanto, a nossa cabeça esvazia-se e a nossa atenção fixa-se sobre um objecto qualquer, o primeiro que nos cai sob os olhos, mas de uma maneira singular, como se ela quisesse trespassar a superfície para chegar a não sei que segredo que se escondesse aí. Foi o que me aconteceu nessa noite com Sonzogne, depois de me ter feito aquela revelação. Fiquei com os olhos escancarados e o espírito esvaziou-se de repente, como um recipiente que contenha um líquido ou um pó muito fino, assim que é furado; somente, sentia o meu espírito, embora vazio, pronto a encher-se de outra matéria, e esta sensação era dolorosa porque eu teria querido preencher esse vazio e não o conseguia. Enquanto o ouvia, fixava os olhos sobre o pulso de Sonzogne, estendido a meu lado, com o cotovelo apoiado na cama. Tinha o braço branco, liso, redondo, sem pêlos, onde nada indicava os seus músculos extraordinários. O pulso também era redondo e branco; nesse pulso estava o único objecto que Sonzogne conservava na sua nudez: uma pulseira de couro, parecida com as pulseiras dos relógios, mas sem relógio. A cor desta pulseira, de um preto engordurado, parecia dar um significado não só ao braço, mas a todo o corpo branco e nu, e esse significado distraía-me sem que o pudesse explicar. Era uma nota de cor sombria; sugeria o elo de uma cadeia de forçado. Mas havia também qualquer coisa de gracioso e de cruel nessa simples pulseira negra, uma espécie de ornamento que confirmava o carácter brusco e felino da ferocidade de Sonzogne. A minha distracção durou só um instante. De repente o meu espírito encheu-se de pensamentos tumultuosos, que se agitavam como pássaros numa gaiola estreita. Lembro-me de que tive medo dele desde o primeiro momento. Pensando que tinha estado com ele na cama, compreendi que, cedendo ao seu abraço no escuro, o meu corpo horrorizado descobrira antes do meu espírito ignorante o que ele me escondia e fora por isso que gritara daquela maneira.
Acabei por lhe dizer a primeira coisa que me veio ao espírito:
— Porque fizeste isso?
— Tinha um objecto de valor para vender — respondeu-me (e os seus lábios mal se mexiam enquanto falava). — Sabia que aquele comerciante era um bandido, mas não conhecia outro… ofereceu-me um preço ridículo… Eu detestava-o porque já me tinha roubado uma vez… disse-lhe que ficava com o objecto e que ele não passava de um malandro… Então ele respondeu-me uma coisa que me fez perder a cabeça.
— Que foi? — perguntei-lhe.
Percebia agora com espanto que à medida que Sonzogne me contava essas coisas o meu medo começava a desvanecer-se; sem querer, uma impressão de participação me animava. No momento em que perguntei o que lhe tinha dito o ourives senti que esperava quase uma coisa atroz que pudesse desculpar o crime, ou pelo menos justificá-lo. Respondeu-me com secura:
— Disse-me que, se não me fosse embora, me denunciaria. Em suma, pensei : “Pois é quanto basta!” E quando ele se voltou…
Calou-se e olhou-me.
— E como era ele? — perguntei.
— Calvo, baixinho, com cara de fuinha… parecia um coelho.
Disse isto com uma entoação tranquila e antipática, que me fez ver, e mesmo odiar, esse aldrabão com cara de coelho enquanto avaliava, com ar desconfiado e falso, o objecto que lhe oferecia Sonzogne. Agora já não tinha medo algum; sentia que Sonzogne me transmitira o seu rancor contra o assassinado; e não estava até convencida de que o condenaria. Na verdade tinha a impressão de estar tão bem dentro do que passara que me parecia que eu também teria sido capaz de cometer este crime. Como compreendia esta frase: “Respondeu-me uma coisa que me fez perder a cabeça!” Ele tinha perdido a cabeça uma vez com Gino e uma segunda comigo; só por sorte não nos tinha morto também a mim e a Gino. Compreendia-o tão bem, penetrava-o tão bem, que não só já não tinha medo, mas experimentava uma espécie de simpatia horrorizada, essa simpatia que não me conseguira inspirar antes de saber o seu crime e quando ele era apenas um amante como os outros.