A Romana [La romana - pt]
- Автор: Моравиа Альберто
- Год: 1972
- Язык: португальский
- Год: Abril Cultural
- Переводчик: Marina Colassanti
- Жанр: Классическая проза
Электронная книга - «A Romana [La romana - pt]». Краткое содержание книги:
— Que tens?
— Nada — respondi. — Tens as mãos geladas.
— Não te agrado, hem? — disse-me segurando-me sempre os ombros, de pé, junto do travesseiro. — Preferes os que são iguais a ti, hem?
Enquanto falava, olhava-me de uma maneira intolerável.
— Porquê? — disse-lhe. — Tu és um homem como os outros. E tu próprio me disseste já que me queres pagar o dobro.
— Sei muito bem o que quero dizer — respondeu. — Tu e as outras como tu gostam dos ricos, das pessoas distintas… Eu sou como tu e vocês, as prostitutas, só gostam dos “grandes”.
Reconheci no seu tom funesto a mesma tendência inflexível para procurar questões que há pouco tinha feito com que insultasse Gino sob o mais fútil pretexto. Julguei nessa altura que tivesse qualquer rancor contra Gino. Agora compreendia que a sua sombria susceptibilidade o levava sempre a encolerizar-se quando esta espécie de demônio o dominava: fosse qual fosse a maneira como nos portássemos com ele, enganávamo-nos sempre.
— Porque procuras agora também motivos para me ofender? — respondi, ligeiramente vexada. — Já te disse que para mim os homens são todos iguais.
— Se isso fosse verdade, não fazias essa cara… Não te agrado, hem?
— Mas se já te disse…
— Não te agrado, hem? — continuou. — Tenho pena, mas é preciso que te agrade!
— Oh! Deixa-me em paz — gritei, bruscamente irritada.
— Quando te fui útil para te livrares do teu melro, quiseste-me ao pé de ti… mas depois terias gostado de não me tornar a ver… somente eu subi. E não te agrado, hem?
Agora eu tinha realmente medo. As suas palavras sibiladas, a voz dura, impiedosa e calma, o seu olhar fixo, os seus olhos que de azuis pareciam tornar-se vermelhos, tudo parecia levar-me a não sei que horrível fim. Então compreendi, mas já tarde, que fazê-lo parar no rumo que as coisas levavam era o mesmo que tentar deter um bloco de pedra que rolasse por uma ribanceira. Limitei-me a encolher violentamente os ombros.
— Não te agrado, hem? — continuou. — Fazes uma cara desgostosa quando te toco… Mas agora, meu amor, vou fazer-te mudar de ideias!
E levantou a mão para me esbofetear. Começava a esperar um gesto do gênero e procurava proteger-me com o braço. Mas mal acabara de o fazer quando me bateu com uma ultrajante dureza, primeiro numa face, depois, logo que eu voltava a cara, na outra. Era a primeira vez na minha vida que isto me acontecia. Apesar da violência das bofetadas, senti-me por momentos mais surpreendida que penalizada. Afastei o meu braço da cara e disse-lhe:
— Sabes o que és? És um desgraçado!
Esta frase pareceu feri-lo. Sentou-se na beira da cama e, agarrando o colchão com as duas mãos, bamboleou-se uns instantes. Depois disse sem me olhar:
— Somos os dois desgraçados!
— É preciso ter coragem para bater assim numa mulher! — disse-lhe ainda.
De repente, não pude dominar-me e os olhos encheram-se-me de lágrimas. Mas não era tanto pelas bofetadas como pelo enervamento dessa noite, cheia de acontecimentos desagradáveis e tristes… Julguei ver Gino projectado na rua, lembrei-me de que não lhe ligara qualquer importância e me tinha ido embora alegremente com Sonzogne unicamente interessada em apalpar os seus músculos extraordinários; senti remorsos, piedade por Gino e desgosto por mim própria; compreendi que fora castigada pela minha insensibilidade e pela minha patetice pela mesma mão que batera em Gino. Tinha sido cúmplice da violência e essa mesma violência voltara-se contra mim. Através das minhas lágrimas olhava Sonzogne. Ficara sentado na beira da cama, nu, sem pêlos, as costas um pouco curvas, deixando cair os seus braços extraordinários que não traíam a sua força. Senti um repentino desejo de suprimir a distância que nos separava e disse-lhe, não sem esforço:
— Mas pode ao menos saber-se porque me bateste?
— Fazias uma destas caras!
Parecia mergulhado em pensamentos; a pele do seu maxilar estremecia.
Compreendi que se o queria aproximar de mim devia primeiro que tudo dizer-lhe o que pensava dele e nada lhe esconder.
— Tu pensavas que eu não gostava de ti? Pois bem! Enganas-te!
— É possível.
— Enganas-te. Na realidade, não sei porquê, mas fazes-me medo. Era por isso que eu fazia aquela cara. A estas palavras voltou-se bruscamente para mim e perscrutou-me com um olhar desconfiado. Mas tranquilizou-se logo e perguntou-me, não sem vaidade:
— Faço-te medo?
— Sim.
— E agora ainda te faço medo?
— Não; agora podes até matar-me… é-me indiferente. Eu dizia a verdade, e até naquele momento quase desejava que ele me matasse, porque de repente perdera o desejo de viver. Mas ele irritou-se e disse-me:
— Quem fala em te matar? E porque te fazia medo?
— Não sei… fazias-me medo… são coisas que não se podem explicar.
— Gino fazia-te medo?
— Porque me havia de fazer medo?
— E então porque te faço eu medo, eu?
Agora já não mostrava vaidade, mas eu sentia que começava a ficar furioso.
— Ora! — disse-lhe para o apaziguar. — Tu fazias-me medo porque te acho capaz de fazer sei lá o quê!
Não respondeu logo e reflectiu durante uns instantes. Depois voltou-se e perguntou-me em tom ameaçador:
— Tudo isso quer dizer que devo vestir-me e ir-me embora?
Olhava-o e compreendi que estava de novo a ponto de encolerizar-se e que uma recusa da minha parte faria cair sobre mim qualquer outra violência, talvez pior ainda. Era preciso aceitar. Mas pensava naqueles olhos claros e sentia repugnância à ideia de os ver olharem-me fixamente durante o amor. Disse-lhe molemente.
— Não… fica se quiseres… mas apaga a luz. Levantou-se, pequeno e branco, extraordinariamente bem proporcionado, à parte o pescoço, que tinha um pouco curto, e foi nas pontas dos pés dar a volta ao interruptor ao pé da porta. Mas compreendi logo que não tivera uma boa ideia em ter pedido para apagar a luz, porque assim que o quarto ficou às escuras o medo, que julgava já afastado, tomou de novo posse de mim. Era como se tivesse dentro do quarto não um homem, mas um leopardo ou qualquer outra fera, capaz de se encolher num canto para me apanhar desprevenida, de saltar sobre mim e despedaçar-me. Talvez se tenha demorado no meio do quarto às escuras tenteando caminho por entre as cadeiras e os outros móveis; talvez fosse também o meu temor que me fizesse parecer a demora longa. Julguei que tinha passado um tempo infinito até ele chegar à cama, e quando pôs as suas mãos sobre mim não pude reprimir um novo sobressalto, mais forte ainda do que o primeiro. Esperava que ele não se apercebesse, mas tinha o instinto aguçado — exactamente como os animais — e ouvi logo, muito perto de mim, a sua voz perguntar-me :
— Ainda tens medo?
Por certo, no escuro, o meu anjo-da-guarda devia estar presente. O tom da sua voz fez-me adivinhar que ele tinha levantado o braço e que esperava a minha resposta para decidir se me devia bater ou não. Percebi que ele sabia que fazia medo e desejava que não o temessem e o amassem como aos outros homens. Mas para chegar a esse resultado não conhecia outro meio que o de inspirar um medo ainda mais forte. Estendi a mão, fingi acariciar-lhe o pescoço e o ombro direito, e tive a certeza do que imaginara; ele tinha o braço levantado, pronto a esbofetear-me. Disse com voz forte, esforçando-me para dar à minha voz a entoação habitual, doce e tranquila: