O outro lado de mim [em Português]
- Автор: Шелдон Сидни
- Год: 2005
- Язык: португальский
- Переводчик: Luiza Mascarenhas
- Жанр: Современная русская и зарубежная проза
Электронная книга - «O outro lado de mim [em Português]». Краткое содержание книги:
Quando Buster Keaton entrou no meu gabinete, era como se tivesse acabado de sair do ecrã. Era o mesmo homenzinho de rosto triste que encantara o mundo com o seu humor sombrio. Depois das apresentações, perguntei:
- Buster, gostaríamos que fosse o consultor técnico deste filme. O que me diz?
Ele quase quebrou a tradição ao sorrir.
- Acho que me aguento!
- Ótimo. Vamos filmar muitas das suas cenas acrobáticas. Vou-lhe arranjar uma caravana e pô-la aqui no estúdio e quero que esteja cá sempre que estivermos a filmar.
Ele olhou para mim como se estivesse a fazer um esforço para não chorar, mas fiquei sem saber se não seria imaginação minha.
- Cá estarei.
- Muito obrigado.
- Eu e Bob estamos a trabalhar no argumento. Queremos que seja o mais fiel possível. Tem algumas situações caricatas que gostasse de nos contar para usarmos no filme?
- Não.
- Talvez alguma coisa especial que lhe tenha acontecido na vida e que considere excitante?
- Não.
- Alguma coisa dos seus casamentos ou dos seus romances?
- Não.
Toda a reunião decorreu assim. Quando saiu, virei-me para Bob:
- Esqueci-me de dizer uma coisa. Se queremos o Donald O’Connor, temos de começar a filmar daqui a dois meses. Ele ficou a olhar para mim.
- Está brincando?
- Nunca falei tão a sério. Ele suspirou.
- Vamos lá ver a que velocidade conseguimos escrever um argumento.
Eu e Bob vimos os velhos filmes do Buster. As cenas de acrobacia eram fantásticas. Selecionei as que queria usar, pois sabia que Buster estaria no estúdio para me mostrar como eram feitas.
Donald O’Connor veio ver-me.
- É um papel estupendo. Buster Keaton é um dos meus ídolos. Comentou.
- Meu também.
- O ”Grande Rosto de Pedra”. Isto vai ser maravilhoso.
Havia um problema. Nós precisávamos de mais tempo para trabalhar no argumento e não o tínhamos. Já havia uma data marcada para o início das filmagens, que tínhamos de respeitar, por isso começamos a trabalhar dia e noite.
Por fim, chegou a altura de dar início à produção.
Mantivemos a maior fidelidade possível à história da vida de Buster Keaton, mas, para aumentar o drama, tomamos algumas liberdades. Mostrei a Buster o guião e, quando ele acabou de o ler, perguntei-lhe:
- Tem algum problema com o que aí está?
- Não.
E foi tudo o que ele disse.
Os cenários foram construídos e a produção começou.
As filmagens corriam bem. O elenco era maravilhoso. Além de Donald O’Connor, tínhamos Peter Lorre, Rhonda Fleming, Ann Blyth, Jackie Coogan e Richard Anderson. A química era óptima.
Havia uma cena em que entrava um velho realizador. Ainda não tínhamos actor para ele. O assistente de realização veio ter comigo.
- Gostaria que fosse o velhote a desempenhar o papel? Fiquei intrigado.
- Qual velhote?
- O senhor DeMille.
Cecile B. DeMille era sem sombra de dúvida um dos realizadores mais importantes de Hollywood. Entre outros, os seus filmes mais recentes incluíam Samson and Dalilah, The Greatest Show on Earth e The Ten Commandements.
Era uma lenda e as histórias a seu respeito corriam pela cidade. Era conhecido por ser implacável e exigente. Aterrorizava os atores. Corria a história de que uma vez, quando filmava uma cena de um dos seus épicos, em pé no cimo de uma plataforma e a olhar para baixo para as centenas de figurantes, começara a explicar o que pretendia quando viu duas jovens figurantes na conversa. Parou de falar.
- Ei! Vocês as duas aí! - Chamou alto - Cheguem-se aqui à frente.
As duas mulheres olharam uma para a outra, horrorizadas.
- Quem? Nós?
- Sim! Vocês as duas. Venham cá. Nervosas, chegaram-se à frente.
- Muito bem. - disse ele em voz forte - Como é óbvio que acham que aquilo que estavam dizendo é muito mais importante do que o que eu estava, acho que deviam dizê-lo alto, para todos possam ouvir.
As mulheres ficaram embaraçadas e aterrorizadas.
- Senhor DeMille, nós não dizíamos nada...
- Estavam, sim. E eu quero que todos ouçam o que era. Uma delas falou e disse em tom de desafio:
- Pois muito bem. O que eu dizia era: ”Quando é que aquele filho da mãe vai mandar parar para almoço?”
Fez-se um silêncio de choque por todo o estúdio. DeMille olhou para ela durante longos segundos e em seguida disse alto:
- Parar para almoço!
- Está louco. - Respondi ao meu assistente - O DeMille não vai fazer este papel. São quatro linhas de texto!
- Quer que fale com ele?
- Claro.
Eu sabia que não havia qualquer hipótese. Mais tarde, o assistente do director veio ter comigo.
- Vamos filmar a cena amanhã. Ele vem. Fiquei sem palavras.
- Ele vai fazer a cena?
- Sim.
- Eu vou dirigir o Cecil B. DeMille?
- Exatamente.
No dia seguinte, estava filmando uma cena principal com Donald e Ann Blyth. Quando terminei a cena, ia passar à filmagem de um ângulo mais perto. O meu assistente de realização aproximou-se.
- O senhor B. DeMille está a caminho do estúdio. Vamos para o outro lado do palco, onde vai ser filmada a cena dele.
- Agora não posso fazer. - Respondi - Tenho de fazer um close-up primeiro.
Ele olhou para mim por uns segundos.
- O senhor DeMille está a caminho do estúdio. Sugiro que vamos para ali, onde ele vai fazer a cena.
Percebi a mensagem.
- Vamos já. E dei ordem para parar.
Uns minutos depois, Cecil B. DeMille entrou com o seu séquito. Chegou junto de mim e estendeu a mão.
- Sou Cecil B. DeMille.
Era mais alto do que eu imaginara, mais largo do que eu imaginara e tinha muito mais carisma do que eu imaginara.
- Eu sou Sidney Sheldon.
- Se me disser o que tenho de fazer...
Eu ia mostrar a Cecil B. DeMille o que ele tinha de fazer?
- Sim, com certeza. É sobre...
- Eu sei. Li o meu texto.
- Excelente.
Montei a cena e disse:
- Câmara... ação...
A cena terminou, mas achei que a podia melhorar. Como é que se diz a Cecil B. DeMille que não foi suficientemente bom? Ele virou-se para mim:
- Quer que eu faça a cena outra vez? Acenei, grato.
- Seria ótimo.
- Porque não dispo o casaco?
- Boa idéia.
- E vou ser um pouco mais enérgico.
- Boa idéia.
Filmamos outra vez a cena e ficou perfeita. Só havia uma coisa de que eu não tinha bem a certeza. Fora eu que dirigira Cecil B. DeMille ou fora Cecil B. DeMille que me dirigira a mim?
As cenas acrobáticas que Buster Keaton criou para os seus filmes mudos eram incríveis. Uma em especial parecia ser absolutamente impossível. A cena abria com Buster perseguido pela polícia a correr ao longo de uma vedação de madeira. De pé junto da vedação, e de costas para ela, estava uma mulher forte, que tinha vestida uma saia bastante rodada. Buster parou na frente dela, viu que os polícias se aproximavam e mergulhou por entre as pernas da mulher para o outro lado da vedação. A mulher deslocou-se de seguida para o lado, mostrando que a vedação era sólida.