A Romana [La romana - pt]
- Автор: Моравиа Альберто
- Год: 1972
- Язык: португальский
- Год: Abril Cultural
- Переводчик: Marina Colassanti
- Жанр: Классическая проза
Электронная книга - «A Romana [La romana - pt]». Краткое содержание книги:
— Adriana! Adriana!
Fingi não ouvir e apressei o passo. Ele agarrou-me por um braço:
— Adriana… estivemos sempre de acordo… não nos podemos separar assim!
Com uma sacudidela, libertei o braço e continuei o meu caminho. Do outro lado, sob as muralhas, a pequena silhueta clara de Sonzogne tinha saído da obscuridade para entrar no círculo luminoso do candeeiro.
— Mas eu amo-te, Adriana! — repetia Gino correndo ao meu lado.
Inspirava-me uma mistura de piedade e de ódio, e essa mistura era-me tão desagradável que não a podia traduzir. Esforcei-me por pensar noutra coisa. De repente, não sei como, uma ideia passou pelo meu espírito como um relâmpago. Lembrei-me de Astárito, da maneira como ele sempre me oferecera a sua ajuda, e pensei que talvez ele tivesse um meio de conseguir libertar da prisão aquela pobre mulher. Esta ideia produziu em mim um efeito benfazejo; a minha alma libertou-se do peso que a oprimia e tive mesmo a impressão de já não odiar Gino e de sentir por ele apenas compaixão. Parei e disse-lhe tranquilamente:
— Porque não desapareces, Gino?
— Mas eu amo-te.
— Eu também; já te amei, mas agora acabou; vai, desanda, é melhor para ti e para mim.
Estávamos num sítio escuro da avenida e não havia candeeiros nem lojas. Agarrou-me pela cintura e tentou beijar-me. Teria podido muito bem livrar-me sozinha, porque sou forte e porque ninguém pode beijar uma mulher contra a sua vontade. Em vez disso, não sei porque diabólica inspiração, lembrei-me de chamar Sonzogne, que parara do outro lado da avenida, debaixo das fortificações, e nos olhava, imóvel, com as mãos nos bolsos do impermeável. Penso que se o chamei foi porque julguei ter encontrado o meio de impedir a má acção de Gino, deixando a coquetterie e a curiosidade aflorar de novo ao meu espírito. Gritei duas vezes:
— Sonzogne! Sonzogne!
Imediatamente ele atravessou a avenida e Gino, desconcertado, largou-me.
— Diga-lhe — proferi com calma enquanto Sonzogne se aproximava — que me deixe tranquila, porque já nada quero com ele… Não me quer ouvir, mas talvez a si ouça, visto que são amigos.
— Estás a ouvir o que diz esta menina? — disse Sonzogne.
— Mas eu… — começou Gino.
Pensava que iriam continuar a discutir por uns momentos e que por fim Gino, resignado, acabaria por se retirar. Mas de repente vi Sonzogne fazer-me um gesto que não percebi, Gino olhá-lo por um instante, aparvalhado, depois, sem uma palavra, cair e rolar do passeio para a valeta.
Levantei a cabeça e olhei melhor: Sonzogne estava na minha frente, as pernas afastadas, olhando o punho ainda fechado. Gino, no chão, as costas viradas para nós, voltava a si e com o cotovelo na valeta levantava lentamente a cabeça. Mas não parecia querer pôr-se de pé; dava a impressão de olhar fixamente um papel velho cuja brancura se distinguia na lama da valeta. Depois Sonzogne disse:
— Vamos.
Com a cabeça um pouco atordoada encaminhei-me com ele para a minha casa.
Andava sem dizer palavra e apertando-me o braço. Era mais baixo do que eu, e a sua mão rodeava-me o braço como uma prisão metálica. Passado um momento, disse-lhe:
— Não devia ter dado o soco a Gino… ele ia-se embora na mesma sem violência.
— Assim já não a aborrecerá mais — respondeu-me.
— Mas como foi? — perguntei. — Eu nada vi… só dei por Gino cair no chão.
— É uma questão de hábito — respondeu.
Falava como se mastigasse as palavras antes de as pronunciar, ou, melhor, como se experimentasse a sua consistência por entre os dentes, que conservava cerrados e que eu imaginava encaixados uns nos outros como os das feras. Agora experimentava um grande desejo de lhe apalpar os braços e de sentir de novo sob a minha mão os seus músculos duros e fortes. Inspirava-me mais curiosidade do que atracção. E, sobretudo, fazia-me medo. Mas o medo, tanto quanto eu o posso designar com clareza, pode ser um sentimento agradável e por vezes excitante.
— Que tem nos braços? — perguntei. — Ainda não posso acreditar no que vi.
— Mas já lhe disse para apalpar — disse-me com uma entoação tão vaidosa que parecia sinistra.
— Não muito bem… estava o Gino presente… Deixe-me apalpar agora.
Parou e dobrou o braço, olhando-me de lado, grave e ingenuamente ao mesmo tempo, mas de uma ingenuidade que nada tinha de infantil. Estendi a mão e desci do seu ombro ao longo dos braços para apalpar os músculos. Era para mim uma estranha sensação senti-los tão vivos e duros. Articulei com voz apagada:
— És realmente forte.
— Sou forte, sim — confirmou com uma sombria convicção.
E recomeçamos a andar.
Agora estava arrependida de o ter chamado. Não me agradava; para mais, esta gravidade, esta maneira de falar, faziam-me medo. Foi assim que, em silêncio, chegamos em frente da minha porta. Tirei as chaves da mala.
Aproximou-se de mim e disse-me:
— Eu subo.
Desejei dizer-lhe que não. Mas a maneira como ele me olhava, com fixidez e insistência incríveis, subjugou-me e fez-me perder a coragem.
— Se quiseres — disse-lhe.
Só depois de ter dito isto reparei que o tratara por tu.
— Não tenhas medo — disse-me interpretando erradamente o meu ar assustado. — Tenho dinheiro… Dar-te-ei o dobro do que te costumam dar os outros.
— Isso nada tem que ver… Não é pelo dinheiro. — Mas ele fez uma cara cômica como se qualquer assustadora suposição lhe atravessasse o espírito… — É só porque me sinto um pouco cansada — acrescentei.
Seguiu-me até ao vestíbulo. Quando chegámos ao quarto, despiu-se com gestos metódicos de homem ordenado. Tinha um lenço em volta do pescoço; dobrou-o com cuidado e meteu-o no bolso do impermeável. Colocou o fato nas costas da cadeira e pendurou as calças de maneira a não desmanchar os vincos. Juntou os sapatos um ao lado do outro debaixo da cadeira e as meias dentro dos sapatos. Reparei que estava vestido de novo da cabeça aos pés; os tecidos que usava não eram finos, mas resistentes e de boa qualidade. Fazia estas coisas em silêncio, nem depressa nem devagar, com uma regularidade sistemática e ponderada, sem se ocupar de mim, que, entretanto, me tinha despido e deitado nua sobre a cama. Se ele me desejava, não o mostrava, a menos que aquele constante agitar dos músculos do maxilar denotasse perturbação; mas isso não devia ser, porque já o tinha antes, quando nem sequer parecia pensar em mim. Já disse que a ordem e o asseio me agradavam e me pareciam denotar qualidades de alma correspondentes. Mas nessa noite a ordem e o asseio de Sonzogne suscitavam em mim sentimentos bem diferentes, misturados de medo e de horror. “Desta maneira — pensava eu — é que os cirurgiões se preparam nos hospitais quando se dispõem a fazer qualquer operação sangrenta. Ou, pior ainda, os magarefes, mesmo sob os olhos dos carneiros que vão esfolar.” Estendida sobre a cama, sentia-me sem defesa, impotente, como um corpo inanimado que vai ser submetido a qualquer experiência. E o seu silêncio e a sua indiferença deixavam-me na dúvida sobre o que ele iria fazer quando tivesse acabado de se despir. Quando ficou nu e se aproximou da cabeceira da cama e estranhamente me prendeu os ombros com as duas mãos, como se me quisesse conservar imóvel, não pude evitar um frêmito de medo. Ele reparou e perguntou-me por entre dentes: