A Romana [La romana - pt]
- Автор: Моравиа Альберто
- Год: 1972
- Язык: португальский
- Год: Abril Cultural
- Переводчик: Marina Colassanti
- Жанр: Классическая проза
Электронная книга - «A Romana [La romana - pt]». Краткое содержание книги:
— É feito assim… mas não é mau… E depois, a mim interessa-me estar de boas relações com ele… já me foi útil.
— De que maneira?
Apercebi-me de que Gino estava excitado e ardia de desejo por me revelar não sei o quê. Assumiu de repente um aspecto risonho, a cara como que inchada de impaciência :
— Lembras-te — perguntou-me — da caixa da minha patroa?
— Lembro… e então?
Os olhos de Gino brilhavam de alegria. Baixou a voz e disse-me:
— Pois bem! Depois pensei melhor e não a devolvi.
— Não a devolveste?
— Não. Reflecti que para a minha patroa, que era rica, uma caixa a mais ou a menos não tinha importância. Já agora o golpe estava dado — acrescentou com uma reserva característica — e no fundo não tinha sido eu o gatuno.
— Era eu a ladra — disse-lhe tranquilamente.
Fingiu não ouvir e continuou:
— Mas para a vender, era um problema… Era um objecto de fácil reconhecimento… Não tinha confiança… Guardei-a, pois, durante muito tempo no bolso… depois encontrei Sonzogne e contei-lhe a história.
— Falaste-lhe de mim? — perguntei.
— Não… de ti não… disse que tinha sido uma amiga que ma tinha dado, sem citar ninguém. E ele… imagina que em três dias, não sei como, vendeu-a e trouxe-me o dinheiro, ficando com a parte dele, como se tinha combinado, bem entendido.
Tremia de alegria. Olhou um momento à sua volta, depois tirou do bolso um rolo de notas.
Não sei porquê, naquele momento senti por ele uma violenta antipatia. Não julgo que o desaprovasse; não tinha sequer esse direito. Mas o seu tom exultante aborrecia-me. Além disso tinha a impressão de que ele não me tinha dito tudo; e o que escondera era decerto o pior. Disse-lhe secamente :
— Fizeste bem!
— Toma! — continuou desenrolando as notas. — Isto é para ti. Contei contigo.
— Não, não! — disse-lhe. — Nada quero, absolutamente nada.
— Mas porquê?
— Nada quero.
— Queres por força vexar-me! — disse-me.
Uma sombra de tristeza e de desconfiança passou na sua cara e julguei tê-lo verdadeiramente magoado. Fiz um esforço e disse pousando-lhe a mão sobre a sua:
— Se não mo tivesses oferecido, eu teria ficado, não digo ofendida, mas admirada. Agora assim está bem. Não quero esse dinheiro, porque para mim é um caso arrumado. É só isso… mas estou contente porque tu o tenhas.
Olhava-me sem compreender, com uma expressão desconfiada, como se quisesse descobrir o motivo secreto que se escondia nas minhas palavras. Frequentemente, depois, pensando no caso, percebi que ele não me podia ter compreendido, porque vivia num mundo diferente formado por ideias e por sentimentos diferentes dos meus.
Não sei se este mundo era pior ou melhor do que o meu; só sei que certas palavras não tinham para ele o sentido que eu lhes ligava e que uma grande parte das suas acções, que me pareciam repreensíveis, ele as considerava como lícitas e mesmo legais. Parecia, em particular, ligar a maior importância à inteligência, que para ele se reduzia à astúcia. Dividia os homens em astuciosos e parvos, esforçando-se sempre, e a todo o preço, por pertencer à primeira categoria. Ora, eu não sou astuciosa, talvez mesmo não seja inteligente, e nunca compreendi como um acto indigno, só pelo facto de ser praticado com esperteza, pode chegar a ser, já não digo admissível, mas simplesmente desculpável.
Bruscamente a sua desconfiança pareceu dissipar-se e gritou:
— Compreendo! Não queres o dinheiro porque tens medo… tens medo que descubram o roubo… A esse respeito nada há a recear… Está tudo em ordem!
Não tinha medo, mas não me importei que ele o pensasse, porque a segunda parte da frase pareceu-me obscura.
— Está tudo em ordem? — perguntei-lhe. — Que queres dizer?
— Sim, está tudo em ordem — respondeu-me. — Lembras-te de eu te ter dito que lá em casa desconfiavam de uma criada de quarto?
— Sim.
— Bem! Não gostava dessa criada de quarto porque ela dizia mal de mim nas minhas costas… Alguns dias depois do roubo percebi que as coisas tomavam um mau rumo para mim. O comissário já tinha ido lá a casa duas vezes e eu senti que desconfiavam de mim. Nota bem que ainda não tinham começado as indagações. Então tive uma ideia: desviar as suspeitas para outro roubo e fazer com que as culpas caíssem sobre a criada.
Eu não dizia palavra. Olhou-me um momento com os olhos brilhantes e dilatados para ver se eu admirava a sua astúcia e continuou:
— A minha patroa tinha alguns dólares numa caixinha; tirei os dólares e fui pô-los no quarto da criada, dentro de uma mala velha. Desta vez, como era natural, fizeram pesquisas, descobriram os dólares e prenderam-na. Agora ela jura que está inocente, bem entendido, mas quem a vai acreditar depois de terem encontrado os dólares no seu quarto?
— Onde está essa mulher?
— Está na prisão e não quer confessar! Mas sabes o que disse o comissário à minha patroa? “Esteja sossegada, minha senhora, ela acabará por confessar! A bem ou a mal!” Percebes, hem? A pancada!
Olhei-o gelada de espanto por vê-lo tão orgulhoso e tão excitado.
— Como se chama essa mulher? — perguntei como por acaso.
— Luísa Feligny… É uma mulher que já não é nova. Muito orgulhosa. Não se compreende porque é criada de quarto; não há alguém mais honesta do que ela.
E ria divertido com a coincidência.
Fiz um grande esforço como se me custasse respirar e perguntei-lhe:
— Já reparaste que és um cobarde?
— Como? Porquê? — perguntou-me, surpreendido. Agora, que o tratara por cobarde, sentia-me mais livre e mais desprendida. Sentia as narinas palpitarem de raiva. Continuei logo:
— E querias que ficasse com esse dinheiro? Mas eu sentia que era dinheiro que me queimaria os dedos!
— Qual história! — disse, esforçando-se por não se desconcertar. — Ela não confessa e deixam-na.
— Mas disseste-me que está na prisão e lhe batem.
— Disse isso por dizer.
— Pouco importa… deixaste prender uma inocente e tens ainda o descaramento de mo vir contar. És um vil cobarde!
Bruscamente encolerizou-se, empalideceu e apertou-me a mão:
— Vais deixar de me chamar cobarde!
— Porquê? Penso que és um cobarde e digo-te.
Ele perdeu o sangue-frio e teve um estranho gesto de violência. Torceu-me a mão como se ma quisesse arranjar, depois, de repente, baixou a cabeça e mordeu-ma com força. Com uma sacudidela, tirei a mão e levantei-me:
— Mas tu estás completamente idiota! — disse-lhe. — O que te aconteceu? Agora mordes? É inútil. Cobarde és e cobarde serás sempre!
Não respondeu, mas agarrou a cabeça com as mãos como se quisesse arrancar os cabelos.
Chamei o criado e paguei as contas todas: a minha, a dele e a do Sonzogne. Depois disse a Gino:
— Vou-me embora, mas devo dizer-te que entre nós está tudo acabado… Não me apareças mais, não me procures! Não venhas, eu não te conheço!
Não respondeu nem levantou a cabeça e eu saí. A leitaria era à entrada da rua, a pouca distância da minha casa. Comecei a andar devagar, do lado oposto às fortificações. Era noite, o céu estava nublado, caía uma chuva miudinha como uma poeira de água no ar imóvel e tépido. Como de costume, as fortificações estavam às escuras, à parte alguns candeeiros, muito espaçados. Mas assim que saí da leitaria vi um homem desencostar-se de um desses candeeiros e seguir ao longo das fortificações na mesma direcção que eu, na intenção provável de me tolher o passo. Pelo seu impermeável apertado na cintura e pela sua cabeça loura e quase rapada reconheci Sonzogne. Debaixo das muralhas parecia pequeno: de vez em quando desaparecia na sombra, depois reaparecia à luz de um candeeiro. Pela primeira vez, talvez, todos os homens me repugnaram, todos os homens pendurados às minhas saias como cães correndo atrás de uma cadela. Vibrava ainda de cólera, e, quando pensava naquela mulher que Gino com o seu procedimento metera na cadeia, não podia deixar de sentir remorsos porque, no fim de contas, a caixa fora eu quem a roubara! Mas, mais do que remorso, era um sentimento de irritação e de revolta. Insurgindo-me contra a injustiça, e odiando Gino, detestava repeli-lo e saber que fora cometida uma injustiça. Realmente, não sou feita para estas coisas. Experimentava um mal-estar violento; tinha a impressão de não ser mais eu mesma. Caminhava apressada, desejosa de chegar a casa antes que Sonzogne me abordasse, como parecia ter intenção de fazer. Mas ouvi o meu nome pronunciado por Gino, que me chamava, esbaforido: