A Romana [La romana - pt]
- Автор: Моравиа Альберто
- Год: 1972
- Язык: португальский
- Год: Abril Cultural
- Переводчик: Marina Colassanti
- Жанр: Классическая проза
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3
Renunciei completamente a Jaime e não pensei mais nele. Sentia que o amava, que se ele tivesse voltado eu teria ficado feliz e amá-lo-ia mais do que nunca, mas sentia também que não me deixaria mais humilhar por ele. Se ele tivesse voltado, teria ficado na sua frente, fechada na minha vida como numa fortaleza que seria verdadeiramente inexpugnável enquanto a não abandonasse. Dir-lhe-ia: “Sou uma rapariga da rua e nada mais. Se me queres, é preciso que me aceites tal como sou.” Tinha compreendido que a minha força não era desejar ser aquilo que não sou, mas aceitar aquilo que era. A minha força era a minha fortaleza, o meu trabalho, a minha mãe, a minha casa, as minhas roupas modestas, a minha origem humilde, as minhas infelicidades e, mais intimamente, o sentimento que me fazia aceitar todas estas coisas profundamente enterradas na minha alma como uma pedra preciosa na terra. Contudo, estava certa de que não o tornaria a ver; e esta certeza fazia com que o amasse de uma maneira nova para mim, impotente e melancólica, mas não privada de doçura, como se amam os que morreram e nunca mais voltarão. No decurso desses dias rompi com Gino. Como já o disse, não gosto dos rompimentos bruscos; quero que as coisas vivam e morram naturalmente. As minhas relações com Gino são um bom exemplo desta vontade. Elas acabaram porque a vida que as animava se apagou e não por qualquer falta da minha parte e nem sequer, num certo sentido, por culpa de Gino. Acabaram de maneira a não me deixarem nem desgosto nem remorso.
Continuara a vê-lo de tempos a tempos, duas ou três vezes por mês. Agradava-me, como já disse, se bem que já tivesse perdido toda a estima que tivera por ele. Num desses dias marcou-me, pelo telefone, encontro numa pastelaria onde eu lhe disse que iria.
Era uma pastelaria do meu bairro. Gino esperava-me na salinha do fundo, numa espécie de gabinete sem janelas, com as paredes completamente revestidas de azulejos. Quando entrei, reparei que não estava só. Alguém estava sentado com ele, de costas viradas para mim. Só via que trazia um impermeável verde e que tinha cabelos louros, cortados muito curtos. Aproximei-me e Gino disse:
— Deixa-me apresentar-te o meu amigo Sonzogne.
Então ele levantou-se; olhei-o e estendi-lhe a mão. Mas quando ele ma apertou, tive a impressão de ter sido agarrada por tenazes e dei um pequeno grito de dor. Ele largou-me logo a mão; sentei-me sorrindo e disse-lhe:
— Sabe que me magoou? Você aperta sempre assim a mão?
Não me respondeu nem sequer sorriu. Tinha a cara branca como o papel, a testa saliente, olhos pequeninos azuis-claros, o nariz adunco e a boca cerrada como um corte. Os seus cabelos louros, lisos e deslavados, estavam cortados curtos sobre as têmporas achatadas, mas a base da cara era larga, com maxilares largos e desgraciosos. Parecia estar sempre a cerrar os dentes, como se triturasse qualquer coisa, e constantemente, debaixo da pele das faces, via-se fremir e deslizar uma espécie de nervo. Gino, que parecia ter por ele uma amizade afectuosa e admirativa, disse-me rindo:
— Mas isto nada é… Se tu soubesses como é forte! Tem o soco proibido!
Tive a impressão de que Sonzogne o olhava com hostilidade. Acabou por dizer com voz surda:
— Não é verdade que tenha o soco proibido… Mas podia ter!
Perguntei:
— Que é isso do soco proibido?
Sonzogne respondeu-me secamente:
— Quando se pode matar um homem com um soco, não se tem o direito de empregar o punho. É como fazer uso do revólver.
— Mas sente como ele é forte! — insistiu Gino, excitado e desejoso, parecia, de se reconciliar com Sonzogne. — Vamos — pedia-lhe —, deixa-a apalpar os teus braços!
Hesitei, mas dir-se-ia que Gino o desejava e que o seu amigo também esperava esse gesto. Estendi a mão molemente para lhe apalpar o braço. Ele dobrou o antebraço para retesar os músculos, mas seriamente, quase que com um ar sombrio. Então, com grande surpresa minha, porque ao vê-lo dava o aspecto de um homem franzino, os meus dedos sentiram, através das mangas, como um rolo de cabo de aço. Retirei a mão com uma exclamação, não sei se de admiração, se de repugnância. Sonzogne olhou-me com ar satisfeito, um leve sorriso nos lábios. Gino declarou:
— É um velho amigo… Não é verdade, primo, que nos conhecemos há muito tempo? Somos como dois irmãos!
E deu uma palmada nas costas de Sonzogne, acrescentando:
— O meu velho primo!
Mas o outro levantou os ombros para afastar a mão de Gino e respondeu:
— Nem amigos, nem irmãos… Trabalhamos na mesma garagem, é o que é!
Gino não se desconcertou:
— Eh! Sei que de ninguém queres ser amigo! Sempre só… sempre por tua conta… nem homens nem mulheres!
Sonzogne olhou-o. Tinha um olhar frio, de uma imobilidade e de uma insistência incríveis, e Gino desviou dele os seus olhos.
— Quem te contou essas histórias? — disse-lhe Sonzogne. — Ando com quem me agrada, homens e mulheres!
— Falei por falar — desculpou-se Gino, que parecia perder toda a segurança. — Pelo que me diz respeito, é certo que nunca te vi com ninguém.
— Tu nada sabes da minha vida.
— Ora! Eu que te via todos os dias de manhã à noite!
— Vias-me todos os dias, e então?
— Bem! — insistiu Gino desconcertado. — Como te via sempre sozinho, pensei que não te desses com ninguém. Quando um homem tem uma mulher ou um amigo, acaba sempre por se saber!
O outro disse-lhe brutalmente:
— Não te faças cretino!
— Agora chamas-me cretino! — disse Gino corado, afectando julgar a frase de humor inofensivo.
Mas sentia-se que tinha medo. Sonzogne repetiu:
— Não te faças cretino, senão parto-te a cara!
Bruscamente, compreendi que não só ele era capaz de o fazer, mas que era mesmo essa a sua intenção. Pousei-lhe a mão no braço e disse-lhe:
— Se vocês se querem bater, façam-no quando eu não estiver presente… detesto violências.
— Apresento-te uma rapariga minha amiga — disse Gino, penalizado — e tu assusta-la desta maneira… Ela vai pensar que somos dois inimigos.
Sonzogne voltou-se para mim e pela primeira vez sorriu. Quando sorria, piscava os olhos, franzia a testa de uma maneira irregular e mostrava não só os dentes, que eram pequenos e frios, mas também as gengivas.
— A menina não está assustada, pois não?
Respondi-lhe secamente :
— Não estou nada assustada, mas, como acabei de dizer, não gosto de violências.
Houve um longo silêncio. Sonzogne ficou imóvel com as mãos nos bolsos do impermeável; fazia tremer os nervos dos maxilares e olhava para o vago. Gino fumava, com a cabeça baixa, e o fumo que saía da sua boca subia-lhe ao longo da cara e das orelhas, ainda escarlates. Por fim, Sonzogne disse:
— Vou-me embora.
Gino quase deu um pulo e estendeu-lhe a mão com ar atencioso, dizendo :
— Então, amigos como dantes, hem, primo?
— Amigos como dantes! — respondeu o outro com os dentes cerrados.
Apertou-me a mão, desta vez sem me magoar, e foi-se embora. Era magro e baixo: não se compreendia donde vinha a sua força.
Logo que saiu, disse, divertida, a Gino:
— Vocês podem ser amigos e até mesmo irmãos… mas ele disse-te cada coisa!
Gino retomara a sua segurança. Abanou a cabeça e explicou-me: