O Zahir
- Автор: Коэльо Пауло
- Год: 2006
- Язык: португальский
- Жанр: Прочая древняя литература
Электронная книга - «O Zahir». Краткое содержание книги:
mesma: “que bobagem, somos felizes, podemos passar o resto da vida assim.”
Afinal, tinha lido as mesmas histórias, visto os mesmos filmes, acompanhado os mesmos seriados de televisão, e embora nenhum deles dissesse que o amor era muito mais que um final feliz, por que não ser mais tolerante consigo mesma? Se repetisse todas as manhas que estava contente com sua vida, com toda certeza terminaria não apenas por acreditar, mas por fazer com que todo mundo a nossa volta também acreditasse.
Mas pensava diferente. Agia diferente. Tentou mostrar-me, e eu não
consegui ver - precisei perdê-la para entender que o sabor das coisas recuperadas é o mel mais doce que podemos experimentar. Agora eu estava ali, caminhando pela rua de uma cidade pequena, adormecida, fria, de novo fazendo um caminho por causa dela. O primeiro e mais importante fio da teia que me prendia - “todas as histórias de amor são iguais” - arrebentara quando fui jogado para o alto por uma motocicleta.
No hospital, o amor conversou comigo: “Eu sou o tudo e o nada. Sou como
o vento, e não consigo entrar onde as janelas e portas estão fechadas.”
Respondi para o amor: “Mas eu estou aberto para você!”
E ele me disse: “O vento é feito de ar. Existe ar na sua casa, mas tudo está fechado. Os móveis vão se encher de poeira, a umidade terminará destruindo os quadros e manchando as paredes. Você continuará respirando, você conhecerá uma parte de mim - mas eu não sou uma parte, eu sou o Todo, e isso você não conhecerá nunca.”
Notei os móveis cheios de poeira, os quadros apodrecendo por causa da
umidade, não tinha outra alternativa a não ser abrir as janelas e as portas. Quando fiz isso, o vento varreu tudo. Eu queria guardar minhas memórias, proteger o que julgava ter conseguido com tanto esforço, mas todas as coisas haviam
desaparecido, eu estava vazio como a estepe.
Mais uma vez entendia por que Esther decidiu vir para cá: vazio como a
estepe.
E porque estava vazio, o vento que entrava trouxe coisas novas, ruídos que não havia escutado, gente com quem jamais conversei. Voltei a ter o mesmo entusiasmo de antes, porque me libertara de minha história pessoal, destruíra o
“acomodador”, descobrira-me um homem capaz de abençoar os outros no mesmo estilo com que os nômades e os feiticeiros da estepe abençoavam seus
semelhantes. Descobri que era muito melhor e muito mais capaz do que eu
mesmo pensava, a idade só consegue diminuir o ritmo daqueles que jamais
tiveram coragem de andar com seus próprios passos.
Um dia, por causa de uma mulher, eu fizera uma longa peregrinação para
encontrar-me com meu sonho. Muitos anos depois, a mesma mulher me obrigara a andar de novo, desta vez para encontrar-me com o homem que se havia perdido no caminho.
Agora estou pensando em tudo - menos em coisas importantes: canto
mentalmente uma música, pergunto a mim mesmo por que não existem carros
estacionados ali, noto que meu sapato está machucando, e que o relógio de pulso ainda marca a hora européia.
Tudo isso porque a mulher, a minha mulher, a minha guia e o amor de
minha vida, está agora a apenas alguns passos de distância; qualquer assunto ajuda a fugir da realidade que tanto procurei, mas que tenho medo de enfrentar.
Sento em um dos degraus da casa, fumo um cigarro. Penso em voltar para a
França; já cheguei aonde desejava, por que ir mais adiante?
Levanto, as pernas estão tremendo. Ao invés de pegar o caminho de volta,
limpo o melhor possível a areia da roupa e do rosto, coloco a mão no trinco da porta e entro.
mbora eu saiba que talvez tenha perdido para sempre a
mulher que amo, preciso esforçar-me para viver todas as
E graças que Deus me deu hoje. A graça não pode ser
economizada. Não existe um banco onde possa depositá-las, para
utilizá-las quando voltar a estar em paz comigo mesmo. Se eu não
usufruir destas bênçãos, vou perdê-las irremediavelmente.
Deus sabe que somos artistas da vida. Um dia nos dá um martelo
para esculturas, outro dia pincéis e tinta para pintar um quadro, ou
papel e caneta para escrever. Mas jamais conseguirei usar martelos
em telas, ou pincel em esculturas. Portanto, mesmo sendo difícil,
preciso aceitar as pequenas bênçãos de hoje, que me parecem
maldições porque estou sofrendo e o dia está lindo, o sol está
brilhando, as crianças cantam na rua. Só assim conseguirei sair de
minha dor e reconstruir minha vida.
O lugar estava inundado de luz. Ela levantou os olhos quando entrei, sorriu, e voltou a ler Tempo de rasgar, tempo de costurar para as mulheres e crianças sentadas no chão, com tecidos coloridos à sua volta. Cada vez que Esther dava uma pausa, elas repetiam o trecho, sem tirar os olhos do trabalho.
Senti um nó na garganta, controlei-me para não chorar, e a partir dali não senti mais nada. Fiquei apenas olhando aquela cena, escutando minhas palavras em seus lábios, cercado de cores, de luz, de gente totalmente concentrada no que estava fazendo.
E no final das contas, como diz um sábio persa, o amor é uma
doença da qual ninguém quer livrar-se. Quem foi atacado por ela não
procura restabelecer-se, e quem sofre não deseja ser curado.
Esther fechou o livro. As pessoas levantaram os olhos e me viram.
- Vou passear com o amigo que acaba de chegar - disse para o grupo. - A
aula de hoje está terminada.
Todos riram e me cumprimentaram. Ela veio até mim, me beijou o rosto,
me pegou pelo braço, e saímos.
- Olá - eu disse.
- Eu estava te esperando - ela me respondeu. Abracei-a, coloquei a cabeça no seu ombro e comecei a chorar. Ela acariciava meus cabelos, e pela sua
maneira de tocar-me, eu ia compreendendo o que não queria compreender,
aceitando o que não queria aceitar.
- Esperei de muitas maneiras - disse ela, ao ver que as lágrimas iam
diminuindo. - Como a mulher desesperada, que sabe que seu homem jamais
compreendeu seus passos, nunca virá até aqui, e portanto é necessário pegar um avião e voltar, para novamente partir na próxima crise, e voltar, e partir, e voltar...
O vento tinha diminuído de intensidade, as árvores estavam escutando o que ela me dizia.
- Esperei como Penélope esperava Ulisses, Romeu esperava Julieta, Beatriz esperava Dante para resgatá-la. O vazio da estepe era cheio de lembranças suas, dos momentos que passamos juntos, dos países que visitamos, das nossas
alegrias, das nossas brigas. Então, olhei para trás, para a trilha que meus passos tinham deixado, e não vi você.
“Sofri muito. Entendi que tinha feito um caminho sem volta e, quando
agimos assim, só nos resta seguir adiante. Fui até o nômade que conhecera um dia, pedi que me ensinasse a esquecer minha história pessoal, que me abrisse para o amor que está presente em todos os lugares. Comecei a aprender a tradição Tengri com ele. Certo dia, olhei para o lado e vi este amor refletido em um par de olhos: um pintor chamado Dos.”
Eu não disse nada.
- Eu estava muito machucada, não podia acreditar que fosse possível voltar a amar de novo. Ele não disse muita coisa, apenas me ensinou a falar russo, e me contava que nas estepes sempre usam a palavra azul para descrever o céu, mesmo que ele esteja cinzento - porque sabem que acima das nuvens ele continua azul.
Ele pegou minha mão e me ajudou a atravessar estas nuvens. Ensinou-me a me amar, antes de amá-lo. Mostrou-me que meu coração estava a meu serviço e a serviço de Deus, e não a serviço dos outros.