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Электронная книга - «O Zahir». Краткое содержание книги:

O Zahir
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- Alguma vez você esteve em um restaurante armênio em Paris?

- Estive em muitos restaurantes armênios, mas jamais em Paris.

- Conhece alguém chamado Mikhail?

- É um nome muito comum nesta região. Se conheci, não me lembro, e

infelizmente não posso ajudá-lo.

- Não se trata disso. Estou apenas surpreso com certas coincidências. Parece que muitas pessoas, em muitos lugares do mundo, estão tomando consciência da mesma coisa e agindo de maneira muito semelhante.

- A primeira sensação, quando iniciamos este tipo de viagem, é achar que

não vamos chegar nunca. A segunda, é sentir-se inseguro, abandonado, e pensar dia e noite em desistir. Mas se você resiste uma semana, vai até o final.- Tenho peregrinado pelas ruas de uma mesma cidade, e só ontem cheguei a um lugar diferente. Posso abençoá-lo?

Ele me olhou de maneira estranha.

- Não estou viajando por motivos religiosos. Você é padre?

- Não sou padre, mas senti que devia abençoá-lo. Como você sabe, certas

coisas não têm muita lógica.

O holandês chamado Jan, que eu jamais tornaria a ver nesta vida, abaixou a cabeça e fechou os olhos. Eu coloquei minhas mãos em seus ombros, e usando a minha língua natal - que ele jamais poderia entender - pedi que chegasse ao seu destino com segurança, que deixasse na Rota da Seda a tristeza e a sensação de que a vida não tem sentido, e que voltasse para sua família com a alma limpa e os olhos brilhando.

Ele me agradeceu, pegou sua mochila, virou-se em direção à China e

recomeçou a caminhar. Voltei para o hotel pensando que jamais, em toda a

minha vida, tinha abençoado alguém. Mas seguira um impulso, e o impulso

estava certo, minha oração seria atendida.

No dia seguinte, Mikhail apareceu com um amigo chamado Dos, que iria

nos acompanhar. Dos tinha um carro, conhecia minha mulher, conhecia as

estepes, e também queria estar por perto quando eu chegasse até a aldeia onde Esther se encontrava.

Pensei em reclamar: antes era Mikhail, agora seu amigo, e quando

finalmente chegasse ao final, haveria um grupo imenso me seguindo, aplaudindo ou chorando - dependendo do que me aguardava. Mas estava cansado demais

para dizer qualquer coisa: no dia seguinte cobraria a promessa que me tinha sido feita - não deixar que ninguém fosse testemunha daquele momento.

Entramos no carro, seguimos algum tempo pela Rota da Seda - perguntaram

se eu sabia o que era, comentei que tinha encontrado um peregrino aquela noite, e eles disseram que este tipo de viagem estava se tornando cada vez mais comum, em breve começaria a fazer muito bem para a indústria turística do país. Duas horas depois deixamos a estrada principal para seguir por uma estrada

secundária, até parar no bunker onde estamos agora, comendo peixe, escutando o vento suave que sopra da estepe.

- Esther foi muito importante para mim - explica Dos, mostrando-me a foto de um dos seus quadros onde podia ver um dos pedaços do tecido manchado de sangue. - Eu sonhava em sair daqui, como Oleg...

- Melhor chamar-me de Mikhail, ou ele vai se confundir.

- Sonhava em sair daqui, como muita gente de minha idade. Certo dia, Oleg

- ou melhor, Mikhail - telefonou. Disse que sua benfeitora decidira passar algum tempo na estepe, e queria que eu a ajudasse. Aceitei, achando que ali estava minha chance, e que conseguiria os mesmos favores: visto, passagem e emprego na França. Pediu-me para ir para uma aldeia muito isolada, que ela conhecera em uma de suas visitas.

“Não perguntei a razão, apenas obedeci. No caminho, insistiu para que

passássemos pela casa de um nômade que visitara anos antes: para minha

surpresa, queria encontrar-se com meu avô! Foi recebida com a hospitalidade daqueles que vivem neste espaço infinito. Ele disse que ela pensava estar triste, mas na verdade sua alma estava alegre, livre, a energia do amor voltara a circular. Garantiu que isso afetaria o mundo inteiro, inclusive o seu marido.

Ensinou-lhe muita coisa sobre a cultura da estepe, e pediu-me que lhe ensinasse o resto. Finalmente, decidiu que ela podia permanecer com o mesmo nome, ao

contrário do que manda a tradição.

“E enquanto ela aprendia com meu avô, eu aprendia com ela, e entendi que

não precisava viajar para longe, como Mikhaiclass="underline" minha missão é estar neste espaço vazio - a estepe - compreender suas cores, transformá-las em quadros.”

- Não entendo bem esta história de ensinar coisas para minha mulher. Seu

avô havia dito que devemos esquecer tudo.

- Amanhã eu lhe mostro - disse Dos.

E no dia seguinte ele me mostrou, sem precisar me dizer nada. Eu vi a

estepe sem fim, que parecia um deserto, mas estava cheia de vida escondida na vegetação rasteira. Vi o horizonte plano, o gigantesco espaço vazio, o ruído dos cascos dos cavalos, o vento calmo, e nada, absolutamente nada, à nossa volta.

Como se o mundo tivesse escolhido aquele lugar para mostrar sua imensidão, simplicidade e complexidade ao mesmo tempo. Como se pudéssemos - e

devêssemos - ser como a estepe, vazios, infinitos e cheios de vida ao mesmo tempo.

Olhei o céu azul, tirei os óculos escuros que estava usando, deixei-me

inundar por aquela luz, por aquela sensação de que estava em lugar nenhum e em todos os lugares ao mesmo tempo. Cavalgamos em silêncio, parando apenas para dar de beber aos cavalos em riachos que só quem conhecia o local sabia como localizar. De vez em quando surgiam outros cavaleiros a distância, pastores com seus rebanhos, emoldurados pela planície e pelo céu.

Aonde estava indo? Não tinha a menor idéia, e não me interessava saber; a mulher que estava buscando encontrava-se naquele espaço infinito, eu podia tocar sua alma, escutar a melodia que cantava enquanto fazia os tapetes. Agora entendia por que tinha escolhido este lugar: nada, absolutamente nada para distrair a atenção, o vazio que tanto procurou, o vento que iria soprando pouco a pouco sua dor para longe. Será que ela imaginava que um dia eu estaria aqui, a cavalo, indo ao seu encontro?A sensação do Paraíso, então, desce dos céus. E eu tenho a consciência de que estou vivendo um momento inesquecível na minha vida - esta consciência que muitas vezes atingimos depois que o momento

mágico passou. Estou ali por inteiro, sem passado, sem futuro, inteiramente concentrado naquela manhã, na música das patas dos cavalos, na doçura com que o vento acaricia meu corpo, na graça inesperada de contemplar o céu, a terra e os homens. Entro em uma espécie de adoração, de êxtase, de gratidão por estar vivo.

Rezo em voz baixa, escutando a voz da natureza, e entendendo que o mundo

invisível sempre se manifesta no mundo visível.

Faço algumas perguntas ao céu, as mesmas perguntas que fazia à minha

mãe quando era criança:

Por que amamos certas pessoas e detestamos outras?

Aonde vamos depois da morte?

Por que nascemos, se morremos no final?

O que significa Deus?

A estepe me responde com seu barulho constante de vento. E isso basta:

saber que as perguntas fundamentais da vida jamais serão respondidas, e mesmo assim podemos seguir adiante.

Quando apareceram algumas montanhas no horizonte, Dos pediu que

parássemos. Notei que havia um riacho passando ao lado.

- Vamos acampar aqui.

Retiramos as mochilas dos cavalos, montamos a tenda. Mikhail começou a

cavar um buraco no chão.

- Assim faziam os nômades; cavar o buraco, encher seu fundo com pedras,

colocar mais pedras em suas bordas, e teremos um lugar para acender a fogueira sem que o vento nos atrapalhe.Ao sul, entre as montanhas e nós, apareceu uma nuvem de poeira, que logo entendi ser causada pelo galope de cavalos. Chamei a atenção para o que estava vendo: meus dois companheiros se levantaram

bruscamente, e notei que ficaram tensos. Mas logo disseram entre si algumas palavras em russo, relaxaram, Dos voltou a montar a tenda, enquanto Mikhail acendia a fogueira.

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