O Zahir
- Автор: Коэльо Пауло
- Год: 2006
- Язык: португальский
- Жанр: Прочая древняя литература
Электронная книга - «O Zahir». Краткое содержание книги:
- Pode me explicar o que está acontecendo?
- Embora pareça que estamos cercados de espaço vazio, você reparou que
passamos por vários pastores, rios, tartarugas, raposas, cavaleiros? E mesmo que você tenha a sensação de ver tudo ao seu redor - de onde vêm estas pessoas?
Onde estão suas casas? Onde guardam seus rebanhos?
“Esta idéia do vazio é uma ilusão: estamos constantemente observando e
sendo observados. Para um estrangeiro que não consegue ler os sinais da estepe, tudo está sob controle, e tudo que consegue distinguir são os cavalos e cavaleiros.
“Para nós, que fomos educados aqui, sabemos ver as yurtas, casas circulares que se misturam com a paisagem. Sabemos ler o que acontece, observando como se movimentam e que direção os cavaleiros tomam; antigamente, a sobrevivência da tribo dependia desta capacidade - pois havia os inimigos, os invasores, os contrabandistas.
“E agora, a má notícia: descobriram que nos encaminhamos para a aldeia
que fica perto daquelas montanhas, e enviam gente para matar o feiticeiro que vê aparições de meninas, e o homem que vem perturbar a paz da mulher
estrangeira.”
Deu uma gargalhada.
- Espere: daqui a pouco você entenderá.
Os cavaleiros se aproximavam. Em pouco tempo, já podia distinguir o que
estava acontecendo.
- Não me parece normal. E uma mulher sendo perseguida por um homem.-
Não é normal. Mas faz parte de nossas vicias.
A mulher passou por nós empunhando um longo chicote, deu um grito e um
sorriso para Dos - algo como uma saudação de boas-vindas - e começou a
galopar em círculos em torno do lugar onde estávamos preparando o
acampamento. O homem, suado mas sorridente, também nos cumprimentou
rapidamente, enquanto tentava acompanhar a mulher.
- Nina devia ser mais gentil - disse Mikhail. - Não há necessidade.
- Justamente por isso: porque não há necessidade, ela não precisa ser gentil
- respondeu Dos. - Basta ser bela e ter um bom cavalo.
- Mas ela faz isso com todo mundo.
- Eu a desmontei - disse Dos, orgulhoso.
- Se vocês estão falando inglês, é porque querem que eu compreenda.
A mulher ria, cavalgava cada vez mais rápido, e seus risos enchiam a estepe de alegria.
- É apenas uma forma de sedução. Chama-se Kyz Kuu, ou “derrubar a
menina”. Todos nós, em algum momento de nossa infância ou juventude, já
participamos disso.
O homem que a perseguia estava cada vez mais próximo, mas todos nós
podíamos ver que seu cavalo já não estava mais agüentando.
- Mais tarde, conversarei um pouco sobre o Tengri, a cultura da estepe -
continuou Dos. - Mas como você está vendo esta cena, deixe-me explicar algo muito importante: aqui, nesta terra, quem comanda tudo é a mulher. Sempre a deixam passar. Ela recebe metade do dote, mesmo que tenha sido sua a decisão do divórcio. Cada vez que um homem vê uma delas usando turbante branco,
significa que é mãe, temos que colocar nossa mão no coração e abaixar a cabeça em sinal de respeito.- E o que tem isso a ver com “derrubar a menina”?
- Na aldeia que está na base das montanhas, um grupo de homens a cavalo
se reuniu em volta desta moça, que se chama Nina, a mais desejada da região.
Começavam o tal jogo, Kyz Kuu, criado em tempos ancestrais, quando as
mulheres da estepe, chamadas amazonas, eram também guerreiras.
“Naquela época ninguém pedia permissão à família para casar-se: os
pretendentes e a moça se reuniam em um lugar determinado, todos a cavalo. Ela dava algumas voltas em torno dos homens, rindo, provocando, ferindo-os com o chicote. Até que o mais bravo de todos resolvia persegui-la. Se conseguisse escapar por determinado período de tempo, este rapaz devia pedir à terra que o cobrisse para sempre - seria considerado um mau cavaleiro, a suprema vergonha de um guerreiro.
“Se chegasse perto, enfrentasse o chicote, aproximasse e atirasse a moça no chão, era um homem de verdade, podia beijá-la e casar-se com ela. Claro que, tanto no passado como no presente, as moças sabiam de quem escapar, e por quem deixar-se capturar.”
Pelo visto, Nina estava querendo apenas divertir-se. Voltara a ganhar
distância do rapaz, e seguia de volta em direção à aldeia.
- Veio apenas para exibir-se. Sabe que estamos chegando, e agora vai levar a notícia.
- Tenho duas perguntas. A primeira pode parecer uma bobagem: ainda
escolhem seus noivos assim?
Dos disse que hoje em dia isso era apenas uma brincadeira. Como no
Ocidente as pessoas se vestem de determinado jeito e vão a bares e lugares da moda, na estepe o jogo de sedução era o Kyz Kuu. Nina já tinha humilhado um grande número de rapazes, e já tinha se deixado desmontar por alguns - como acontece nas melhores discotecas do mundo.- A segunda pergunta irá parecer mais idiota ainda: é na aldeia ao lado das montanhas que está minha mulher?
Dos fez um sinal afirmativo com a cabeça.
- E se estamos a apenas duas horas, por que não dormimos lá? A noite ainda vai demorar muito para descer.
- Estamos a duas horas, e existem dois motivos. O primeiro: mesmo que
Nina não tivesse vindo até aqui, alguém já nos teria visto, e se encarregaria de dizer a Esther que estamos chegando. Assim, ela pode decidir se quer nos ver, ou se deseja partir por alguns dias para uma aldeia vizinha - neste caso, nós não a seguiremos.
Meu coração apertou.
- Depois de tudo que fiz para chegar até aqui?
- Não repita isso, ou você não terá entendido nada. O que lhe faz acreditar que o seu esforço deve ser recompensado com a submissão, o agradecimento, o reconhecimento da pessoa que ama? Você chegou até aqui porque este era o seu caminho, e não para comprar o amor de sua mulher.
Por mais injusto que pudesse parecer, ele tinha razão. Perguntei qual era o segundo motivo.
- Você ainda não escolheu seu nome.
- Isso não é importante - insistiu de novo Mikhail. - Ele não entende nem faz parte de nossa cultura.
- Isso é importante para mim - disse Dos. - Meu avô disse que eu devia
proteger e ajudar a mulher estrangeira, da mesma maneira que ela me protegia e me ajudava. Eu devo a Esther a paz de meus olhos, e quero que seus olhos
fiquem em paz.
“Ele terá que escolher um nome. Ele terá que esquecer para sempre a sua
história de dor e sofrimento, e aceitar que é uma nova pessoa, que acaba de renascer, e renascerá todos os dias daqui por diante. Se não for assim, caso voltem a viver juntos, irá cobrar de volta tudo que um dia sofreu por causa dela.”- Já tinha escolhido um nome ontem à noite - respondi.
- Pois então aguarde o crepúsculo para dizer-me.
Assim que o sol se aproximou do horizonte, fomos para um lugar da estepe
que era praticamente um deserto, com gigantescas montanhas de areia. Comecei a ouvir um barulho diferente, uma espécie de ressonância, de vibração intensa.
Mikhail disse que ali era um dos poucos lugares do mundo em que as dunas
cantavam:
- Quando estava em Paris, e contei isso, só acreditaram porque um
americano disse que já tinha visto o mesmo no norte da África; existem apenas 30 lugares como esse no mundo inteiro. Hoje em dia os técnicos explicam tudo: por causa da formação única do lugar, o vento penetra nos grãos de areia e cria este tipo de ruído. Entretanto, para os antigos, é um dos lugares mágicos da estepe, é uma honra que Dos tenha resolvido fazer aqui sua troca de nome.
Começamos a subir uma das dunas e, à medida que progredíamos, o
barulho ia ficando mais intenso, e o vento mais forte. Quando chegamos lá no alto, podíamos ver as montanhas mais nitidamente ao Sul, e a gigantesca planície em torno de nós.
- Vire-se para o poente e tire a roupa - disse Dos.