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Электронная книга - «O Zahir». Краткое содержание книги:

O Zahir
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- grita a loura que ninguém sabe direito o que faz. - Por que não falamos de sexo?

Muito mais interessante, e menos complicado!

Pelo menos é natural em seu comentário. Uma das minhas vizinhas de mesa

dá um riso irônico, mas eu aplaudo.

- Sexo é realmente mais interessante, mas não creio que seja algo diferente, você não acha? Além do mais, falar sobre isso não é mais proibido.

- Além de ser de um extremo mau gosto - diz uma de minhas vizinhas.

- Poderia então saber o que é proibido? - O organizador está começando a

sentir-se desconfortável.

- Dinheiro, por exemplo. Todos nós aqui temos, ou fingimos ter dinheiro.

Acreditamos que fomos convidados porque somos ricos, famosos, influentes.

Mas já nos ocorreu usar este tipo de jantar para saber realmente o quanto ganha cada um? Já que somos tão seguros de nós mesmos, tão importantes, que tal olhar nosso mundo como ele é, e não como imaginamos que seja?

- Aonde o senhor quer chegar? - pergunta a executiva de carros.

- E uma longa história: podia começar falando de Hans e Fritz sentados em um bar em Tóquio, e passar por um nômade mongol que diz que precisamos

esquecer o que achamos ser, para que possamos realmente ser o que somos.

- Não entendi nada.

- Tampouco me expliquei, mas vamos ao que interessa: quero saber quanto

cada um ganha. O que significa, em termos de dinheiro, estar sentado na mesa mais importante da sala.

Há um momento de silêncio - meu jogo não vai seguir adiante. As pessoas

me olham assustadas: a situação financeira é um tabu maior que sexo, maior do que perguntar sobre traições, corrupção, intrigas parlamentares.

Mas o príncipe do país árabe, talvez aborrecido por tantas recepções e

banquetes com conversas vazias, talvez porque aquele dia tivesse recebido uma notícia de seu médico dizendo que ia morrer, ou seja lá por que razão, resolve levar a conversa adiante:

- Ganho em torno de 20 mil euros por mês, conforme o parlamento de meu

país aprovou. Isso não corresponde a quanto gasto, porque tenho uma verba irrestrita que chamam “representação”. Ou seja, estou aqui com o carro e

motorista da embaixada, a roupa que estou usando pertence ao governo, amanhã viajo para outro país europeu em um jato privado, com piloto, combustível e taxas de aeroporto sendo descontados da verba de representação.

E conclui:

- A realidade visível não é uma ciência exata.

Se o príncipe falou de maneira tão honesta, e sendo ele a pessoa

hierarquicamente mais importante da mesa, ninguém pode deixar Sua Alteza

constrangida. É preciso que participem do jogo, da pergunta, do constrangimento.

- Não sei exatamente quanto ganho - diz o organizador, um dos clássicos

representantes do Banco de Favores, que as pessoas chamam de “lobista”. - Algo em torno de 10 mil euros, mas tenho também a verba de representação das

organizações que presido. Posso descontar tudo: jantares, almoços, hotéis, passagens aéreas, às vezes até mesmo roupas, embora não tenha um jato

particular.

O vinho acabou, ele faz um sinal, nossos copos tornam a encher-se. Agora

era a vez da diretora da firma de carros, que tinha detestado a idéia, mas que parecia começar a se divertir.

- Penso que também ganho em torno disso, com a mesma verba ilimitada de

representação.Um por um, as pessoas foram falando o quanto ganhavam. O

banqueiro era o mais rico de todos: 10 milhões de euros por ano, além de ter as ações de seu banco constantemente valorizadas.

Quando chegou o momento da tal moça loura que não tinha sido

apresentada, ela recuou.

- Isso faz parte do meu jardim secreto. Não interessa a ninguém.

- Claro que não interessa a ninguém, mas estamos em um jogo - diz o

organizador do evento.

A moça recusou-se a participar. Ao recusar, colocou-se em um patamar

superior a todos: afinal, era a única que tinha segredos no grupo. Ao colocar-se em um patamar superior, passou a ser olhada com desprezo pelos demais. Para não sentir-se humilhada por causa do seu miserável salário, ela terminara humilhando todo mundo, fingindo-se misteriosa, sem dar-se conta que a maioria das pessoas ali vivia à beira do abismo, penduradas nas tais verbas de

representação, que podiam desaparecer da noite para o dia.

Como era de se esperar, a pergunta terminou em mim.

- Depende. Se lanço um novo livro, pode ser algo em torno de cinco

milhões de dólares naquele ano. Se não lanço nada, fica em torno de dois milhões de direitos remanescentes dos títulos publicados.

- Você perguntou isso porque queria dizer o quanto ganhava - disse a moça do “jardim secreto”. - Ninguém está impressionado.

Ela havia percebido seu passo em falso, e agora tentava corrigir a situação, partindo para o ataque.

- Ao contrário - interrompeu o príncipe. - Imaginava que um artista de sua projeção fosse muito mais rico.

Ponto para mim. A moça loura não tornaria a abrir a boca pelo resto da

noite.A conversa sobre dinheiro quebrou uma série de tabus, já que o salário era o pior de todos. O garçom começou a aparecer com mais freqüência, as garrafas de vinho passaram a ser esvaziadas com uma rapidez incrível, o

apresentador/organizador subiu ao palco excessivamente alegre, anunciou o vencedor, deu-lhe o prêmio e voltou logo para a conversa, que não havia cessado, apesar da boa educação mandar que calemos a boca enquanto alguém está

falando. Falamos sobre o que fazíamos com nosso dinheiro (na maior parte das vezes, comprar “tempo livre”, viajando ou praticando algum esporte).

Pensei em puxar a conversa sobre como gostariam que fossem seus funerais

- a morte era um tabu tão grande quanto o dinheiro. Mas o clima estava tão alegre, as pessoas tão comunicativas, que resolvi ficar calado.

- Estão falando de dinheiro, mas não sabem o que é dinheiro - disse o

banqueiro. - Por que as pessoas acreditam que um papel pintado, um cartão de plástico ou uma moeda fabricada em metal de quinta categoria tem algum valor?

Pior ainda: você sabe que seu dinheiro, seus milhões de dólares, são apenas impulsos eletrônicos, não sabe?

Claro que todos sabiam.

- Pois, no início, a riqueza era o que vemos nestas senhoras - continuou ele.

- Ornamentos feitos de coisas que eram raras, fáceis de transportar, possíveis de serem contados e divididos. Pérolas, grãos de ouro, pedras preciosas.

Carregávamos todos nossa fortuna em lugar visível.

“Eram por sua vez trocados por gado, ou grãos, já que ninguém sai

carregando gado ou sacos de trigo pelas ruas. O engraçado é que ainda

continuamos nos comportando como uma tribo primitiva - carregamos

ornamentos para mostrar o quão rico somos, embora muitas vezes tenhamos mais ornamentos que dinheiro.”- É o código da tribo - disse eu. - Os jovens do meu tempo usavam cabelos longos, os jovens de hoje usam piercing: ajuda a

identificar quem pensa como eles, embora não sirva para pagar nada.

- Podem os impulsos eletrônicos que temos pagar alguma hora extra de

vida? Não. Pode pagar o retorno dos entes queridos que já partiram? Não. Pode pagar amor?

- Amor pode - disse, em tom de brincadeira, a diretora da companhia de

carros.

Seus olhos denotavam uma tristeza grande. Lembrei-me de Esther e da

minha resposta ao jornalista, na entrevista que dera de manhã. Apesar de nossos ornamentos e nossos cartões de crédito, ricos, poderosos, inteligentes, sabíamos que no fundo tudo isso era feito em busca de amor, de carinho, de estar com alguém que nos amasse.

- Nem sempre - disse o diretor da fábrica de perfumes, olhando para mim.

- Tem razão, nem sempre - e como você está me olhando, entendo o que

quer dizer, que minha mulher me deixou embora eu seja um homem rico. Mas

quase sempre. Por sinal, alguém nesta mesa sabe quantos gatos e quantos postes existem na parte de trás de uma nota de dez dólares?

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