O Zahir
- Автор: Коэльо Пауло
- Год: 2006
- Язык: португальский
- Жанр: Прочая древняя литература
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acompanhando direito o que acontece de importante agora.
Lembro-me da “tribo” da noite anterior e acrescento: os estúpidos deviam
ser todos colocados em um navio em alto-mar, tendo festas todas as noites, e sendo indefinidamente apresentados aos outros por vários meses, até que
conseguissem lembrar quem é quem.
Fiz meu catálogo de pessoas que freqüentam eventos como esse. Dez por
cento são os “Sócios”, gente com poder de decisão, que saiu de casa por causa do Banco de Favores, que estão atentos a qualquer coisa que possa beneficiar seus trabalhos, onde cobrar, onde investir. Logo percebem se o evento é proveitoso ou não, sempre são os primeiros a deixar a festa, jamais perdem tempo.
Dois por cento são os “Talentos”, que têm realmente um futuro promissor,
conseguiram cruzar alguns rios, já perceberam que existe o Banco de Favores e são clientes em potencial; podem prestar serviços importantes, mas ainda não estão em condição de decidir ou tomar decisões. São agradáveis com todos, porque não sabem exatamente com quem estão falando, e são muito mais abertos que os Sócios, pois qualquer caminho, para eles, pode levar a algum lugar.
Três por cento são os “Tupamaros”, em homenagem a um antigo grupo de
guerrilheiros uruguaios: conseguiram se infiltrar no meio daquela gente, estão loucos por um contacto, não sabem se devem ficar ali ou ir para outra festa que está acontecendo ao mesmo tempo, são ansiosos, querem logo mostrar que têm talento, mas não foram convidados, não galgaram as primeiras montanhas, e, assim que são identificados, deixam de receber atenção.
Finalmente, os outros 85% são os “Bandejas” - batizei com este nome
porque, como não existe festa sem este utensílio, não existe evento sem eles. Os Bandejas não sabem exatamente o que está acontecendo, mas sabem que é
importante estar ali, estão na lista dos promotores porque o sucesso de algo depende também da quantidade de pessoas que aparece. São ex-alguma coisa
importante - ex-banqueiros, ex-diretores, ex-maridos de alguma mulher famosa, ex-mulheres de algum homem que hoje está em uma situação de poder. São
condes em um lugar onde não existe mais monarquia, princesas e marquesas que vivem de alugar seus castelos. Vão de uma festa para a próxima, de um jantar para outro - fico me perguntando, será que não enjoam nunca?
Quando comentei recentemente esse assunto com Marie, ela me disse que
há pessoas viciadas em trabalho e pessoas viciadas em diversão. Ambas estão infelizes, achando que perdem alguma coisa, mas não conseguem parar com o vício.
Uma mulher loura, jovem e bonita, se aproxima quando estou conversando
com um dos organizadores de um congresso de cinema e literatura, e comenta que gostou muito de Tempo de rasgar, tempo de costurar. Diz que vem de um país báltico, que trabalha com filmes. Imediatamente é identificada pelo grupo como Tupamaro, porque apontou em uma direção (eu) mas está interessada no que acontece ao lado (os organizadores do congresso). Embora tenha cometido este erro quase imperdoável, ainda existe a chance de que seja um Talento inexperiente - a organizadora do congresso pergunta o que quer dizer com
“trabalhar em filmes”. A moça explica que escreve crítica para um jornal, tem um livro publicado (sobre cinema? Não, sobre sua vida, sua curta e
desinteressante vida, imagino).
E, pecado dos pecados: é rápida demais, pergunta se pode ser convidada
para o evento deste ano. O organizador diz que a minha editora em seu país, que é uma mulher influente e trabalhadora (e muito bonita, penso comigo mesmo), já foi convidada. Voltam a conversar comigo, a Tupamaro permanece alguns
minutos sem saber o que dizer, e logo se afasta.
A maior parte dos convidados de hoje - Tupamaros, Talentos e Bandejas -
pertencem ao meio artístico, já que se trata de um prêmio literário: apenas os Sócios variam entre patrocinadores e pessoas ligadas a fundações que apóiam museus, concertos de música clássica e artistas promissores. Depois de várias conversas sobre quem exerceu mais pressão para ganhar o prêmio daquela noite, o apresentador sobe ao palco, pede que todos sentem em seus lugares marcados nas mesas (todos nos sentamos), faz algumas piadas (é parte do ritual, e todos rimos), e diz que os vencedores serão anunciados entre a entrada e o primeiro prato.
Vou para a mesa principal; isso me permite ficar longe de Bandejas, mas
também me impede de conviver com entusiasmados e interessantes Talentos.
Estou entre a diretora de uma companhia de carros, que patrocina a festa, de uma herdeira que resolveu investir em arte - para minha surpresa, nenhuma das duas usando decotes provocantes. A mesa ainda conta com um diretor de uma empresa de perfumes, um príncipe árabe (que devia estar passando pela cidade, e foi fisgado por uma das promotoras, para dar prestígio ao evento), um banqueiro israelense que coleciona manuscritos do século XIV, o organizador da noite, o cônsul da França em Mônaco, e uma moça loura que não sei bem o que está
fazendo ali, mas deduzo que é uma potencial amante do organizador.
A toda hora tenho que colocar meus óculos e, disfarçada-mente, ler o nome dos meus vizinhos (devia estar no tal navio que imaginei, e ser convidado para esta mesma festa uma dezena de vezes, até decorar os nomes dos convidados).
Marie, como manda o protocolo, foi colocada em outra mesa; alguém, em algum momento da história, inventou que em banquetes formais os casais devem sentar separados, deixando no ar a dúvida se a pessoa que está ao nosso lado é casada, solteira, ou casada mas disponível. Ou então achou que casais, quando sentam juntos, ficam conversando entre si - mas se fosse assim, para que sair, tomar um táxi e ir a um banquete?
Como havia previsto em minha lista de conversas em festas, o assunto
começa a girar em torno de amenidades culturais - que maravilha tal exposição, que inteligente a crítica de fulano. Eu quero concentrar-me na entrada, caviar com salmão e ovo, mas a toda hora sou interrompido pelas famosas perguntas sobre a carreira de meu novo livro, de onde vem minha inspiração ou se estou trabalhando em um novo projeto. Todos demonstram uma grande cultura, todos citam - fingindo que é por acaso, claro -alguma pessoa famosa que conhecem e da qual são amigos íntimos. Todos sabem discorrer com perfeição sobre o estado da política atual ou dos problemas que a cultura enfrenta.
- Que tal se falássemos de alguma coisa diferente?
A frase sai sem querer. Todos na mesa ficam quietos: afinal de contas, é de péssima educação interromper os outros, e é pior ainda querer concentrar a atenção em si mesmo. Mas parece que o passeio de ontem como mendigo pelas ruas de Paris me causou algum dano irreversível, e não posso mais tolerar este tipo de conversa.
- Podemos falar sobre o acomodador: um momento de nossas vidas que
desistimos de seguir adiante e nos conformamos com o que temos.
Ninguém se interessa muito. Resolvo mudar de assunto.
- Podemos falar da importância de esquecer a história que nos contaram, e tentar viver algo novo. Fazer uma coisa diferente por dia - como conversar com a pessoa ao nosso lado no restaurante, visitar um hospital, colocar o pé em uma poça d’água, escutar o que o outro tem para dizer, deixar a energia do amor circular, em vez de tentar colocá-la em um pote e guardá-la em um canto.
- Isso significa adultério? - pergunta.
- Não. Isso significa ser um instrumento do amor, e não o seu dono. Isso nos garante que estamos com alguém porque assim desejamos, e não porque as
convenções nos obrigam.
Com toda delicadeza, mas com uma certa ironia, o cônsul da França em
Mônaco me explica que as pessoas daquela mesa exerciam esse direito e essa liberdade. Todos concordam, embora ninguém acredite que seja verdade.- Sexo!