O Zahir
- Автор: Коэльо Пауло
- Год: 2006
- Язык: португальский
- Жанр: Прочая древняя литература
Электронная книга - «O Zahir». Краткое содержание книги:
Eu fiz o que ele mandou, sem perguntar a razão. Comecei a sentir frio, mas eles não pareciam preocupados com o meu bem-estar. Mikhail ajoelhou-se e
parecia estar rezando. Dos olhou para o céu, para a terra, para mim, colocando as mãos em meu ombro - do mesmo jeito que eu fizera, sem saber, com o holandês.
- Em nome da Senhora, eu o consagro. Eu o consagro à terra, que é a
Senhora. Em nome do cavalo, eu o consagro. Eu o consagro ao mundo, e peço que ele o ajude a caminhar. Em nome da estepe, que é infinita, eu o consagro. Eu o consagro à Sabedoria infinita, e peço que seu horizonte seja mais amplo do que aquilo que consegue ver. Você escolheu seu nome, e o pronunciará agora pela primeira vez.
- Em nome da estepe infinita, eu escolho um nome - respondi, sem
perguntar se estava agindo como o ritual mandava, mas sendo guiado pelo
barulho do vento nas dunas.
“Há muitos séculos, um poeta descreveu a peregrinação de um homem,
Ulisses, para voltar até uma ilha chamada ítaca, onde sua bem-amada o espera.
Enfrenta muitos perigos, de tempestades a tentações de conforto. Em
determinado momento, quando está em uma caverna, encontra um monstro com
apenas um olho na testa.
“O monstro pergunta seu nome: ‘Ninguém’, diz Ulisses. Lutam, ele
consegue atravessar o único olho do monstro com sua espada, e fecha a caverna com uma rocha. Seus companheiros escutam gritos e vêm socorrê-lo. Notando que existe uma rocha na entrada, perguntam quem está com ele. ‘Ninguém!
Ninguém!’, responde o monstro. Os companheiros partem, já que não existe
nenhuma ameaça à comunidade, e Ulisses pode continuar sua caminhada em
direção à mulher que o espera.”
- Seu nome é Ulisses?
- Meu nome é Ninguém.
Meu corpo está tremendo, como se várias agulhas estivessem penetrando
em minha pele.
- Concentre-se no frio, até que pare de tremer. Deixe que ele ocupe todo o seu pensamento, até não sobrar espaço para mais nada, até ele se transformar em seu companheiro e seu amigo. Não tente controlá-lo. Não pense no sol, ou será muito pior - porque você saberá que existe outra coisa, como o calor, e desta maneira o frio vai sentir que não é desejado ou querido.
Meus músculos se contraíam e se distendiam para produzir energia, e desta maneira consegui manter meu organismo vivo.
Mas fiz o que Dos mandava, porque confiava nele, na sua calma, na sua
ternura, na sua autoridade. Deixei que as agulhas penetrassem na minha pele, que meus músculos se debatessem, que meus dentes se chocassem, enquanto repetia mentalmente: “não lutem; o frio é nosso amigo.” Os músculos não obedeceram, e assim ficamos quase 15 minutos, até que perderam a força, pararam de sacudir meu corpo, e entrei em uma espécie de torpor; fiz menção de sentar-me, mas Mikhail me agarrou e manteve-me de pé, enquanto Dos falava comigo. Suas
palavras pareciam vir de muito longe, de algum lugar onde a estepe encontra o céu:
- Seja bem-vindo, nômade que cruza a estepe. Seja bem-vindo ao lugar
onde sempre dizemos que o céu é azul, mesmo que ele esteja cinzento, porque sabemos a cor que existe além das nuvens. Seja bem-vindo à região do Tengri.
Seja bem-vindo a mim, que estou aqui para recebê-lo e honrá-lo por sua busca. -
Mikhail sentou-se no chão, pediu que eu bebesse algo que logo esquentou meu sangue. Dos ajudou-me a vestir-me, descemos as dunas que conversavam entre si, montamos e voltamos ao acampamento improvisado. Antes mesmo que
começassem a cozinhar, caí num sono profundo.
que é isso? Ainda não amanheceu?
- Já amanheceu faz tempo: é apenas uma tempestade de areia, não
- O se preocupe. Coloque os óculos escuros, proteja seus olhos.
- Onde está Dos?
- Voltou para Almaty. Mas fiquei comovido com a cerimônia de ontem: na
verdade, ele não precisava fazer aquilo, para você deve ter sido uma perda de tempo e a possibilidade de pegar uma pneumonia. Espero que entenda que foi sua maneira de demonstrar o quanto é bem-vindo. Pegue o óleo.
- Dormi mais do que devia.
- São apenas duas horas a cavalo. Chegaremos lá antes que o sol esteja no topo do céu.
- Preciso tomar banho. Preciso trocar de roupa.
- Impossíveclass="underline" você está no meio da estepe. Coloque o óleo na panela, mas
antes ofereça-o à Senhora - ele é o produto mais valioso, depois do sal.
- O que é Tengri?
- A palavra significa “o culto do céu”, uma espécie de religião sem religião.
Por aqui passaram os budistas, os hinduístas, os católicos, os muçulmanos, as seitas, as crenças, as superstições. Os nômades se convertiam para evitar a repressão - mas continuavam e continuam professando apenas a idéia de que a Divindade está em todo lugar, todo o tempo. Não se pode retirá-la da natureza e colocá-la em livros ou entre quatro paredes. Desde que pisei nesta terra, me sinto melhor, como se estivesse realmente precisando deste alimento. Obrigado por deixar que viesse com você.
- Obrigado por ter me apresentado a Dos. Ontem, enquanto me consagrava,
eu senti que é uma pessoa especial.
- Aprendeu com seu avô, que aprendeu com seu pai, que aprendeu com seu
pai e assim por diante. O estilo de vida dos nômades, e a ausência de uma língua escrita até o final do século XIX desenvolveram a tradição do akyn, a pessoa que devia lembrar-se de tudo, e passar adiante as histórias. Dos é um akyn.
“Entretanto, quando eu digo ‘aprender’, espero que você não entenda como
‘acumular conhecimento’. As histórias tampouco têm a ver com datas, nomes ou fatos reais. São lendas de heróis e heroínas, animais e batalhas, símbolos da essência do homem, não apenas de seus feitos. Não é a história de vencedores ou vencidos, mas de pessoas que caminham pelo mundo, contemplam a estepe e
deixam-se tocar pela energia do amor. Coloque o óleo mais devagar, ou vai começar a espirrar por todo lado.
- Senti-me abençoado.
- Gostaria de sentir-me da mesma maneira. Ontem fui visitar minha mãe em
Almaty, ela perguntou se eu estava bem, se estava ganhando dinheiro. Menti, disse que estava ótimo, apresentava um espetáculo teatral de grande sucesso em Paris. Hoje estou voltando ao meu povo, parece que parti ontem, e que durante todo o tempo em que estive fora, nada fiz de importante. Converso com os
mendigos, ando com as tribos, faço os encontros no restaurante, e quais os resultados? Nenhum. Não sou como Dos, que aprendeu com seu avô. Tenho
apenas a presença para me guiar, e às vezes penso que tudo não passa de
alucinações: talvez o que tenha mesmo sejam ataques epiléticos, e nada mais.- Há um minuto você estava me agradecendo por ter vindo comigo, e agora parece que isso o deixa muito infeliz. Decida o que está sentindo.
- Estou sentindo as duas coisas, não preciso decidir, posso navegar entre meus opostos, minhas contradições.
- Quero lhe dizer algo, Mikhail. Naveguei também entre muitos opostos,
desde que o conheci. Comecei por odiá-lo, passei a aceitá-lo e, à medida que seguia seus passos, esta aceitação se transformou em respeito. Você ainda é jovem, e o que está sentindo é absolutamente normaclass="underline" impotência. Não sei
quantas pessoas o seu trabalho afetou até agora, mas uma coisa eu posso lhe assegurar: você mudou minha vida.
- Seu interesse era apenas encontrar sua mulher.
- Continua sendo. Mas isso me fez atravessar mais do que as estepes do
Casaquistão: caminhei por meu passado, vi onde errei, vi onde parei, vi o momento em que perdi Esther - o momento que os índios mexicanos chamam de
“acomodador”. Vivi coisas que jamais imaginei experimentar na minha idade.
Tudo isso porque você estava ao meu lado e me guiava, mesmo sem ter
consciência disso. Sabe o que mais? Acredito que ouça vozes. Acredito que teve visões quando era criança. Sempre acreditei em muitas coisas, e agora acredito mais ainda.