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A Romana [La romana - pt]

Электронная книга - «A Romana [La romana - pt]». Краткое содержание книги:

Um livro de Alberto Moravia, escrito durante a Segunda Grande Guerra, que se centra na vida simples e aparentemente desinteressante de Adriana, uma jovem habitante de Roma. Traída pelo seu primeiro amor, a romana entrega-se à prostituição como quem se entrega a uma vocação. Numa trajetória de inúmeros amantes, três homens se destacam: um jovem revolucionário, um criminoso foragido e um alto funcionário do governo facista, a romana interliga o destino desses homens, quem têm um final dramático e inesperado. No romance de Moravia o sexo tem um valor sobretudo simbólico.
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Minha mãe ficara toda trêmula e assustada, com o seu lenço novo que lhe fazia um bico por cima do nariz. Quando a olhei, não pude deixar de sorrir com amizade.

— Reza um bocadinho — murmurei-lhe. — Verás que te faz bem.

Ela estremeceu, hesitou, depois ajoelhou-se e pôs as mãos como que de má vontade. Sabia que ela não queria acreditar na religião, que lhe parecia um falsa consolação destinada a acalmá-la e a fazer-lhe esquecer as durezas da vida. Nem ao menos a vi mover maquinalmente os lábios, e a sua cara cheia de desconfiança e de mau humor fez-me sorrir de novo. Teria desejado sossegá-la, dizer-lhe que mudara de ideias, que não devia ter receio, que não seria obrigada a coser à máquina outra vez. Havia qualquer coisa de infantil na sua má disposição: era como uma criança a quem se recusa um bolo que se tinha prometido, e esta aparência parecia-me o aspecto fundamental da sua conduta para comigo. Se assim não fosse, eu teria de pensar que ela desejaria que eu continuasse com o meu ofício para usufruir daí o seu conforto; e eu sabia, no fundo, que não era verdade.

Quando acabou de rezar, persignou-se com ar seco e despeitado para marcar bem que o fazia só para me ser agradável. Saímos. À porta tirou o lenço, dobrou-o cuidadosamente e meteu-o na mala. Voltamos à Rua Nacional e encaminhei-me para uma pastelaria.

— Vamos tomar um vermute! — disse-lhe.

— Não, não, não vale a pena! — respondeu com uma voz em que a apreensão e o prazer se misturavam.

Fazia sempre a mesma coisa; por um velho hábito, receava sempre que eu fizesse gastos excessivos.

— Ora! — disse-lhe. — Por um vermute!

Calou-se e seguiu-me.

Era uma velha pastelaria com um balcão com embutidos de caju luzidio e muitas vitrinas cheias de lindas caixas com bombons. Sentámo-nos num canto e pedi dois vermutes. O criado intimidou minha mãe, que baixou os olhos, imóvel e envergonhada, enquanto eu dava as competentes ordens. Quando trouxeram os vermutes, ela bebeu um pequeno gole, tornou a pôr o copinho em cima da mesa, olhou-me e pronunciou com gravidade:

— É bom.

— É vermute — disse eu.

O criado trouxe uma grande caixa de vidro e metal com bolos. Abri-a e disse-lhe:

— Come um bolinho!

— Não, não, por favor…

— Pelo menos um…

— Tirava-me o apetite.

— Um bolo só!…

Escolhi um folhado com creme e ofereci-lho dizendo:

— Come este, que é leve.

Ela mordicou-o com precaução, olhando para o sítio que tinha mordido.

— É realmente muito bom! — disse por fim.

— Come outro — disse-lhe.

Desta vez não se fez rogada e comeu o segundo bolo. Acabado o vermute, ficámos silenciosas, contentando-nos em olhar o vaivém de clientes na pastelaria. Compreendia que minha mãe se sentia contente por estar sentada neste canto com um vermute e dois bolos no estômago, que as idas e vindas desta gente lhe despertavam a curiosidade e a divertiam e que nada tinha para me dizer. Era provavelmente a primeira vez que ela ia a um lugar destes.

Uma rapariga entrou. Trazia pela mão uma garotinha com uma gola de pele branca, um vestido curto, meias e luvas brancas. A mãe escolheu um bolo e deu-o à garota. Eu disse a minha mãe:

— Quando eu era pequena, nunca me trazias às pastelarias!

— Como podia eu? — respondeu.

— Agora — disse tranquilamente —, quem te leva às pastelarias sou eu.

Calou-se, depois disse-me com ar penalizado:

— Estás a censurar-me por ter vindo… mas eu não queria!

Pousei a minha mão sobre a sua e disse-lhe:

— Não te censuro… Pelo contrário, estou bem contente por te ter trazido… A avó nunca te levava às pastelarias?

Ela abanou a cabeça:

— Até aos dezoito anos nunca saí do meu bairro.

— Então já vês — disse-lhe. — Numa família é preciso que haja alguém que faça certas coisas, um dia ou outro. Tu nunca o fizeste, tua mãe também não, nem provavelmente a mãe da tua mãe… então faço-as eu… Não pode continuar tudo eternamente da mesma maneira.

Nada disse e passamos ainda um quarto de hora a observar as pessoas. Depois abri a mala, tirei a cigarreira e acendi um cigarro. É frequente as mulheres como eu fumarem nos lugares públicos para chamarem a atenção dos homens. Mas eu naquela altura não pensava em procurar amantes; tinha até decidido deixar de o fazer. Apetecia-me fumar, mais nada. Introduzi o cigarro nos lábios e deitei uma baforada pelo nariz, conservando o cigarro entre os dedos e olhando em volta. Mas devia haver nos meus gestos, sem que eu desse por isso, qualquer coisa de provocante, porque vi logo alguém que se encontrava junto do balcão e segurava uma chávena de café que se preparava para beber suspender o movimento e olhar-me fixamente. Era um homem de quarenta anos, baixo, de cabelo encaracolado, olhos salientes e maxilares duros. Tinha o pescoço tão curto que quase não existia. Como um touro que vê o vermelho e pára a olhar de cabeça baixa, assim ele me olhava com a chávena na mão. Estava vestido elegantemente, com um sobretudo que valorizava os seus largos ombros. Sabia que com aquele aspecto bastava que eu o olhasse para que as veias do pescoço lhe inchassem e a cara ficasse vermelha. Mas não tinha a certeza de que ele me agradasse. Depois senti como que uma seiva secreta saindo de uma casca rugosa, sob a forma de mil germezinhos ternos; o desejo de o excitar espicaçava-me o corpo todo e obrigava-me a deixar a minha atitude reservada. Justamente uma hora antes eu tinha decidido deixar esta vida. Pensava que realmente nada havia a fazer… era mais forte do que eu! Mas pensava-o alegremente. Depois de sair da igreja, tinha-me reconciliado com a minha sorte, fosse ela qual fosse, e sentia que esta aceitação valia mais para mim que qualquer nobre recusa. E assim, passados uns momentos de reflexão, levantei os olhos para o homem. Ainda me olhava, apalermado, com a chávena na sua mão peluda e os olhos bovinos fixos em mim. Então, tomei, por assim dizer, o meu impulso, e com toda a malícia de que era capaz disparei-lhe um longo olhar cálido e sorridente. Recebeu-o em cheio e, como já tinha previsto, congestionou-se. Bebeu o café, pôs a chávena no balcão e, muito direito no seu sobretudo apertado, foi-se embora, para pagar na caixa. A porta olhou para trás e fez-me claramente e com ar imperioso um sinal de inteligência. Saiu e eu disse a minha mãe :

— Deixo-te… fica tu! De qualquer maneira não te poderia acompanhar.

Ela estremeceu:

— Porquê? Aonde vais?

— Esperam-me lá fora — disse-lhe, levantando-me. Toma o dinheiro: paga e volta para casa… Aliás chegarei primeiro… mas não vou só.

Olhou-me com ar assustado e julguei ver uma sombra de remorso no seu olhar. Mas ficou calada. Disse-lhe adeus e saí. O homem esperava-me na rua. Apenas saíra já ele se inclinava para mim e me agarrava violentamente o braço dizendo:

— Para onde vamos?

— Para minha casa.

Foi assim que depois de algumas horas de angústia renunciei à luta contra o que parecia ser o meu destino, e o abracei até com mais amor, como se estreita um inimigo que não se pode vencer. E senti-me liberta. Alguns vão pensar que é fácil aceitar uma sorte ignóbil mas rendosa em vez de a recusar. Eu tenho perguntado muita vez a mim própria porque a tristeza e a raiva enchem as almas daqueles que vivem segundo certos preceitos e certos ideais, enquanto que aqueles que aceitam a sua vida, que é acima de tudo nulidade, obscuridade e fraqueza, são tão freqüente mente despreocupados e alegres. Neste caso, de resto, cada qual obedece não a preceitos, mas ao seu temperamento, que toma o aspecto de destino. O meu, como já o disse, era ser a todo o custo alegre, doce e tranquila e eu aceitei-o.

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