A Romana [La romana - pt]
- Автор: Моравиа Альберто
- Год: 1972
- Язык: португальский
- Год: Abril Cultural
- Переводчик: Marina Colassanti
- Жанр: Классическая проза
Электронная книга - «A Romana [La romana - pt]». Краткое содержание книги:
— Eu dantes não estava satisfeita e agora também não irei estar. Somente não tenho coragem para continuar esta vida.
Depois destas palavras nada mais dissemos. Minha mãe estava com uma cara abatida; a sua magreza de outrora, a sua pele esticada, pareciam desenhar-se já de novo debaixo do seu ar de prosperidade. Examinava as montras com o mesmo ar minucioso, as mesmas longas contemplações, mas sem alegria, sem curiosidade, maquinalmente, como se pensasse noutra coisa. Talvez nada visse do que olhava, ou, melhor, não visse os objectos expostos, mas uma máquina de costura, com um pedal infatigável e uma agulha que subia e descia como louca, pedaços de tecido meio confeccionados sobre a mesa da costura, bocados de papel preto nos quais embrulhava o trabalho acabado para entregar na cidade aos clientes. Pela minha parte, estes fantasmas não se interpunham entre os meus olhos e a montra. Via tudo muito bem e pensava de uma maneira clara. Inspeccionava os objectos um por um, vendo a etiqueta com o preço, e dizia a mim própria que podia muito bem não querer continuar o meu ofício (como de facto não queria), mas que na realidade não podia ter outro. Alguns objectos que via nas montras poderia vir a tê-los se economizasse um pouco; no dia em que voltasse aos meus anteriores trabalhos seria preciso renunciar a estas coisas para sempre; recomeçaria para mim e para minha mãe a nossa vida de outrora, restrita, sem conforto, cheia de renúncias e de recalcamentos, de sacrifícios inúteis e de economias sem resultado. Actualmente podia aspirar a uma jóia se encontrasse alguém que ma pudesse oferecer. Mas se voltasse à minha vida miserável, as jóias tornar-se-iam para mim tão inacessíveis como as estrelas do céu. Assaltou-me um violento desagrado por essa vida passada, que me pareceu estupidamente desesperante, e senti como eram absurdos os motivos que me tinham levado a pensar em mudar de vida. Porque um estudante por quem eu tinha ficado embeiçada não me tinha querido! Porque se me tinha metido na cabeça que ele me desprezava? Em suma, só porque eu não tinha querido ser o que era. Compreendi que era unicamente orgulho, e não podia por simples orgulho voltar, e sobretudo obrigar minha mãe a voltar, à nossa miserável situação de antigamente. Vi de súbito a vida de Jaime, que se aproximara da minha e nela se fundira, divergir numa direcção diferente e a minha continuar pela estrada que eu tinha escolhido. Se encontrasse alguém que gostasse de mim e me desposasse, então sim, nem que fosse pobre! Mas por capricho extravagante não valia a pena! A esta ideia, uma grande calma, feita de alívio e doçura, invadiu-me a alma. Era uma sensação que frequentemente experimentava de cada vez que não só aceitava o destino que a vida me impusera, mas também quando ia ao meu encontro. Era o que era: devia ser isto e não outra coisa. Podia ser uma boa esposa, por muito estranho que pareça, ou uma mulher que se dá por dinheiro, mas nunca uma desgraçada que se condenou a uma vida de miséria apenas para satisfação do seu orgulho. Por fim sorri, reconciliada comigo própria.
Estávamos em frente de uma loja de novidades para senhora. Minha mãe disse-me:
— Olha que lindo lenço. De um lenço assim é que eu precisava.
Tranquila e serena, levantei os olhos para ver o lenço que minha mãe indicava. Era realmente bonito, preto e branco, com ramos e pássaros. Da porta da loja podia ver-se sobre o balcão uma caixa com divisões cheia de lenços iguais e desdobrados. Perguntei-lhe:
— Gostas do lenço?
— Sim. Porquê?
— Vais tê-lo, mas, para começar, dá-me a tua mala e toma lá a minha.
Ela nada percebia e olhava-me de boca aberta. Sem falar trocamos as malas, abri o fecho, segurando-o com dois dedos, e, devagar, com o passo de quem quer comprar, entrei na loja. Minha mãe seguiu-me. Continuava a não compreender, mas não ousava perguntar.
— Queríamos ver lenços — disse eu à empregada aproximando-me da caixa das divisões.
— Estes são de seda, estes de caxemira, estes de lã… estes são de algodão… — dizia a empregada estendendo-os à minha frente.
Aproximei-me o mais possível do balcão, com a mala ao nível da barriga, e comecei a examinar, só com uma das mãos, os lenços, abrindo-os e voltando-os para a luz para ver melhor o desenho. Havia pelo menos uma dúzia deles, todos parecidos. Consegui que um ficasse caído de maneira que uma grande ponta pendesse para o lado de fora do balcão. Depois disse à empregada:
— Gostaria de ver alguns de tons mais vivos.
— Temos um artigo melhor, mas mais caro! — disse ela.
— Mostre-me.
A empregada voltou-se para puxar uma caixa de riscas. Era tempo; afastei-me um pouco do balcão e abri a mala; puxar a ponta do lenço e tornar a encostar-me ao balcão foi obra de um instante.
Entretanto, a empregada trouxera a caixa. Pousou-a sobre o balcão e mostrou-me outros lenços maiores e mais bonitos. Eu examinava-os fazendo observações sobre as cores e os desenhos e mostrando-os a minha mãe, que tinha visto tudo e me respondia com acenos de cabeça, mais morta do que viva.
— Quanto custam? — perguntei.
A empregada disse o preço e eu respondi num tom desgostoso:
— Tinha razão; são muito caros… pelo menos para mim. Obrigada.
Saímos da loja e dirigimo-nos rapidamente para uma igreja próxima, porque eu receava que a empregada desse pelo roubo e nos perseguisse por entre a multidão. Minha mãe, que me dava o braço, olhava em volta com ar assustado, como um bêbado que pergunta a si mesmo se não serão os objectos que estão bêbados porque os vê vacilar e baralharem-se. Não pude deixar de sorrir da sua atrapalhação. Não sabia porque tinha roubado o lenço: a coisa, de resto, não tinha importância, porque eu já tinha roubado a caixa de pó de arroz de Gino e porque nas coisas deste gênero o primeiro passo é que custa. Mas experimentava o mesmo prazer sensual e começava a compreender porque havia tanta gente que roubava. Perto da igreja disse a minha mãe:
— Queres entrar por um instante?
— Como quiseres! — respondeu-me em voz baixa.
Entrámos: era uma igrejinha branca, redonda, à qual uma colunata disposta em volta do pavimento dava a impressão de uma sala de baile. Levantei os olhos e vi que a cúpula estava cheia de frescos representando anjos de asas abertas. Tive a convicção de que estes belos anjos me protegeriam e que a empregada só se aperceberia do roubo à noite. O silêncio, o cheiro do incenso, a sombra, o recolhimento da igreja, davam-me segurança, depois do tumulto e da luz violenta da rua. Entrara depressa, arrastando um pouco minha mãe, mas acalmei-me logo e o medo desapareceu. Minha mãe fez menção de abrir a minha mala que ainda conservava e eu troquei-a pela sua, dizendo-lhe:
— Põe o lenço!
Ela abriu a mala e pôs na cabeça o lenço roubado. Molhamos os dedos em água benta e fomo-nos sentar na primeira fila de bancos em frente do altar-mor. Ajoelhei-me, enquanto minha mãe ficava sentada com as mãos sobre os joelhos, a cara escondida pelo lenço demasiadamente grande. Percebi que ela estava perturbada e não pude deixar de comparar a sua perturbação com a minha calma. Estava com uma disposição de espírito doce e conciliadora; não sentia remorsos e estava muito mais próxima da religião do que quando não praticava acções condenáveis e trabalhava cerrando os dentes para ganhar a vida. Lembrei-me do frêmito de desalento que momentos antes sentira ao olhar as ruas cheias de gente e senti-me reconfortada à ideia de que havia um Deus que via claro no meu íntimo: verificava que em mim nenhum mal havia, que pelo único facto de viver estava inocente, como todos os homens de resto. Sabia que este Deus não estava lá para me condenar ou julgar, mas para justificar a minha existência, que só podia ser boa, visto que só dependia dele. Rezando maquinalmente e pronunciando as palavras da oração, olhava o altar sobre o qual, atrás da chamazinha trêmula dos círios, entrevia um quarto com uma imagem que me parecia ser a da Virgem e sentia que entre mim e a Virgem a questão não era saber se eu devia viver desta ou daquela maneira, mas, mais radicalmente, se me devia considerar encorajada a viver ou não. E bruscamente tive a impressão de que este encorajamento partia da silhueta escura que estava atrás dos círios do altar sob a forma de um brusco calor que me envolveu o corpo todo.