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O Zahir
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notícias que eu escutava desde criança: o país tal ameaça o outro, alguém traiu alguém, a economia vai mal, um grande escândalo passional acaba de acontecer, Israel e Palestina não chegaram a um acordo nestes 50 anos, outra bomba

explodiu, um furacão deixou milhares de pessoas desabrigadas.

Lembrei-me que, naquela manhã, na falta de atentados terroristas, as

grandes cadeias de notícias davam como manchete principal uma rebelião no Haiti. O que me interessava o Haiti? Que diferença isso ia fazer na minha vida, na vida de minha mulher, no preço do pão em Paris ou na tribo de Mikhail?

Como podia passar cinco minutos da minha preciosa vida escutando sobre os rebeldes e o presidente, vendo as mesmas cenas de manifestação de rua sendo repetidas uma infinidade de vezes, e tudo aquilo sendo noticiado como se fosse um grande evento na humanidade: uma rebelião no Haiti! Eu tinha acreditado!

Eu tinha assistido até o final! Realmente, os estúpidos merecem uma carteira de identidade própria, porque são eles que sustentam a estupidez coletiva.

Abri a janela, deixei entrar o ar gelado da noite, tirei a roupa, disse que podia controlar-me e resistir ao frio. Fiquei ali sem pensar nada, sentindo apenas que meus pés pisavam no chão, meus olhos estavam fixos na Torre Eiffel, meus ouvidos escutavam cães, sirenes, conversas que não conseguia entender direito.

Eu não era eu, eu não era nada - e isso me parecia maravilhoso.

ocê está estranha.

- Como é que estou estranha?

- V - Você parece triste.

- Mas eu não estou triste. Estou contente.

- Está vendo? O tom da sua voz é falso, você está triste comigo, mas não

ousa dizer nada.

- Por que estaria triste?

- Porque cheguei tarde e bêbado ontem. Você nem sequer me perguntou

aonde fui.

- Não me interessa.

- Por que não interessa? Eu não comentei que ia sair com Mikhail?

- E você não saiu?

-Saí.

- Pois então, o que quer que eu pergunte?

- Você não acha que, quando o seu namorado volta tarde, e você diz que o

ama, devia pelo menos tentar saber o que aconteceu?

- O que aconteceu?

- Nada. Saí com ele e um grupo de amigos.

- Então pronto.

- Você acredita nisso?

- Claro que acredito.

- Acho que você não me ama mais. Não está com ciúmes. Está indiferente.

É normal que chegue às duas da manhã?

- Você não diz que é um homem livre?

- Claro que sou.

- Então, é normal que chegue às duas da manhã. E que faça o que bem

entender. Se eu fosse sua mãe, estaria preocupada, mas você é adulto, não é? Os homens precisam parar de se comportar como se as mulheres tivessem de tratá-

los como filhos.

- Não falo deste tipo de preocupação. Falo de ciúmes.

- Você ficaria mais contente se eu fizesse uma cena agora, no café da

manhã?

- Não faça isso, os vizinhos vão escutar.

- Pouco me importa os vizinhos: não faço porque não tenho a menor

vontade de fazer. Custou, mas terminei aceitando o que me disse em Zagreb, e estou tentando me acostumar com a idéia. Entretanto, se isso lhe deixa contente, eu posso fingir que estou com ciúmes, aborrecida, enlouquecida.

- Você está estranha, como eu disse. Começo a achar que não tenho mais

nenhuma importância em sua vida.

- E eu começo a achar que esqueceu que tem um jornalista esperando na

sala, e pode estar escutando nossa conversa.

im, o jornalista. Colocar o piloto automático, porque já sei as perguntas que fará. Sei como começa a entrevista (“falemos de seu novo livro, qual

S é a mensagem principal”), sei o que vou responder (“se eu quisesse passar uma mensagem, escreveria uma frase, não um livro”).

Sei que perguntará o que penso da crítica, que geralmente é muito dura com meu trabalho. Sei que terminará nossa conversa com a frase: “e já está

escrevendo um novo livro? Quais são seus próximos projetos?” Ao que

responderei: “isso é segredo”.

A entrevista começa como esperado:

- Falemos do seu novo livro. Qual a mensagem principal?

- Se eu quisesse passar uma mensagem, escreveria uma frase apenas.

- E por que escreve?

- Porque esta é a maneira que encontrei para dividir com os outros minhas emoções.

A frase fazia também parte do piloto automático, mas eu paro e me corrijo:

- Entretanto, esta história pode ser contada de maneira diferente.

- Uma história que podia ser contada de maneira diferente? Quer dizer que não está satisfeito com Tempo de rasgar, tempo de costurar?

- Estou muito satisfeito com o livro, mas insatisfeito com a resposta que acabo de dar. Por que escrevo? A resposta verdadeira é a seguinte: escrevo porque quero ser amado.

O jornalista me olhou com um ar de suspeita: que tipo de declaração

pessoal era aquela?

- Escrevo porque, quando era adolescente, não sabia jogar bem futebol, não tinha carro, não tinha uma boa mesada, não tinha músculos.

Eu fazia um esforço imenso para continuar. A conversa com Marie tinha me

lembrado de um passado que já não fazia mais sentido, era preciso falar sobre minha verdadeira história pessoal, livrar-me dela. Continuei:

- Tampouco usava roupas da moda. As meninas da minha turma só se

interessavam por isso, e não conseguia que prestassem atenção em mim. A noite, quando meus amigos estavam com suas namoradas, eu passei a usar meu tempo livre para criar um mundo onde pudesse ser feliz: meus companheiros eram os escritores e seus livros. Um belo dia escrevi um poema para uma das moças da rua onde morava. Um amigo descobriu-o em meu quarto, roubou-o e, quando

estávamos todos reunidos, mostrou para a turma inteira. Todos riram, todos acharam aquilo ridículo - eu estava apaixonado!

“A moça a quem dedicara o poema não riu. Na tarde seguinte, quando

fomos ao teatro, ela deu um jeito de sentar-se ao meu lado e segurou minha mão.

Saímos dali de mãos dadas; eu, que me achava feio, fraco, sem roupas da moda, estava com a menina mais cobiçada da turma.”

Dei uma pausa. Era como se estivesse voltando ao passado, ao momento em

que a mão dela tocava minha mão, e mudava minha vida.

- Tudo por causa de um poema - continuei. - Um poema me fez entender

que, escrevendo, demonstrando o meu mundo invisível, eu podia competir em igualdade de condições com o mundo visível de meus amigos: a força física, as roupas da moda, os carros, a superioridade no esporte.

O jornalista estava um pouco surpreso, e eu mais ainda. Mas ele se controla, e segue adiante:

- Por que acha que a crítica é tão dura com seu trabalho? O piloto

automático, neste momento, responderia: “basta ler a biografia de qualquer clássico no passado - e não me entenda mal, não estou me comparando - para descobrir que a crítica sempre foi implacável com eles. A razão é simples: os críticos são extremamente inseguros, não sabem direito o que está acontecendo, são democráticos quando falam de política, mas são fascistas quando falam de cultura. Acham que o povo sabe escolher seus governantes, mas não sabe

escolher filmes, livros, música.”

- Você já ouviu falar da Lei de Jante?

Pronto. Eu tinha de novo saído do meu piloto automático, mesmo sabendo

que dificilmente o jornalista iria publicar minha resposta.

- Não, nunca ouvi - responde ele.

- Embora ela já exista desde o início da civilização, foi enunciada

oficialmente apenas em 1933 por um escritor dinamarquês. Na pequena cidade de Jante, os donos do poder criam dez mandamentos ensinando como as pessoas

devem se comportar, e pelo visto isso vale não apenas em Jante, mas em qualquer lugar do mundo. Se tivesse que resumir todo o texto em apenas uma frase, eu diria: “a mediocridade e o anonimato são a melhor escolha. Se agir assim, você jamais terá grandes problemas em sua vida. Mas se tentar ser diferente...”

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