O Zahir
- Автор: Коэльо Пауло
- Год: 2006
- Язык: португальский
- Жанр: Прочая древняя литература
Электронная книга - «O Zahir». Краткое содержание книги:
E o guerreiro que estava em mim, agindo com intuição e técnica, decidiu
que era preciso ficar; continuar a experiência daquela noite, mesmo que já fosse tarde, estivesse bêbado, cansado, com medo que Marie estivesse acordada,
preocupada ou furiosa. Fui sentar-me junto de Mikhail, de modo que pudesse agir rápido no caso de uma convulsão.
E notei que ele parecia dirigir o ataque epilético! Aos poucos foi se
acalmando, seus olhos começaram a ter a mesma intensidade do jovem vestido de branco, no palco do restaurante armênio.
- Começaremos com a oração de sempre - disse.
E aquelas pessoas, até então agressivas, bêbadas, marginais, fecharam os
olhos e se deram as mãos em um grande círculo. Até os dois pastores alemães pareciam acalmar-se em um canto da sala.
- Oh, Senhora, quando presto atenção nos carros, nas vitrines, nas pessoas que não olham para ninguém, nos edifícios e nos monumentos, percebo neles Tua ausência. Faz com que sejamos capazes de trazer-Te de volta.
Em uma só voz, o grupo continuou:
- Oh, Senhora, reconhecemos Tua presença nas provas que estamos
passando. Ajudai-nos a não desistir. Que nos lembremos de Ti com tranqüilidade e determinação, mesmo nos momentos em que é difícil aceitar que Te amamos.
Eu reparei que todos tinham o mesmo símbolo em algum lugar de suas
roupas. Às vezes era um broche, ou um aplique de metal, ou algo bordado, ou até mesmo um desenho com caneta feito no tecido.
- Gostaria de dedicar esta noite ao homem que está do meu lado direito.
Sentou-se ao meu lado porque deseja me proteger.
Como é que ele sabia?
- E uma pessoa de bem: entendeu que o amor transforma, e deixa-se
transformar por ele. Ainda carrega muito de sua história pessoal na alma, mas tenta livrar-se sempre que possível, e por isso ficou conosco. E marido da mulher que todos conhecemos, que me deixou uma relíquia como uma prova de sua
amizade, e como um talismã.
Mikhail tirou o pedaço de tecido manchado de sangue e colocou diante de
si.
- Esta é parte da camisa do soldado desconhecido. Antes de morrer, ele
pediu à mulher: “corte minha roupa e divida com aqueles que acreditam na
morte, e que por causa disso são capazes de viver como se hoje fosse seu último dia na Terra. Diga a estas pessoas que acabo de ver a face de Deus; não se assustem, mas não relaxem. Procurem a única verdade, que é o amor. Vivam de acordo com suas leis.”
Todos olhavam com reverência para o pedaço do tecido.
- Nascemos no tempo da revolta. Nos dedicamos a ela com entusiasmo,
arriscamos nossas vidas e nossa juventude, e de repente temos medo: a alegria inicial cede lugar aos verdadeiros desafios: o cansaço, a monotonia, as dúvidas sobre a própria capacidade. Reparamos que alguns amigos já desistiram. Somos obrigados a enfrentar a solidão, as surpresas com as curvas desconhecidas, e depois de alguns tombos sem ninguém por perto para nos ajudar, terminamos por nos perguntar se vale a pena tanto esforço.
Mikhail deu uma pausa.
- Vale a pena continuar. E continuaremos, mesmo sabendo que nossa alma,
embora seja eterna, está neste momento presa na teia do tempo, com suas
oportunidades e limitações. Tentaremos, enquanto for possível, nos libertar desta teia. Quando não for mais possível, e voltarmos à história que nos contaram, ainda nos lembraremos de nossas batalhas, e estaremos prontos para retomar o combate se as condições voltarem a ser favoráveis. Amém.
- Amém - repetiram todos.
- Preciso conversar com a Senhora - disse o rapaz louro com cabelos
cortados como um índio americano.
- Hoje não. Estou cansado.
Houve um murmúrio geral de decepção: ao contrário do restaurante
armênio, as pessoas ali sabiam da história de Mikhail, e da “presença” que julgava ter ao seu lado. Ele levantou-se e foi até a cozinha pegar um copo d’água.
Eu o acompanhei.
Perguntei como tinham conseguido aquele apartamento; ele me explicou
que a lei francesa permite a qualquer cidadão usar legalmente um imóvel que não esteja sendo utilizado por seu proprietário. Ou seja, era uma “ocupação”.
A idéia de que Marie estava me esperando, começava a me incomodar. Ele
me segurou pelo braço.
- Você hoje disse que ia para a estepe. Vou repetir só mais urna vez: por favor, leve-me junto. Preciso voltar ao meu país, nem que seja por pouco tempo, mas não tenho dinheiro. Estou com saudade do meu povo, da minha mãe, dos
meus amigos. Poderia dizer “a voz me diz que irá precisar de mim”, mas isso não é verdade - você pode encontrar Esther sem qualquer problema e sem qualquer ajuda. Entretanto, preciso alimentar-me com a energia de minha terra.
- Posso dar-lhe dinheiro para uma passagem de ida e volta.
- Sei que pode. Mas gostaria de estar lá com você, caminhar até a aldeia
onde ela se encontra, sentir o vento no rosto, ajudá-lo a percorrer o caminho que o leva ao encontro da mulher que ama. Ela foi - e continua sendo - muito
importante para mim. Ao ver suas mudanças e sua determinação, aprendi muito, e quero continuar aprendendo. Lembra-se que falei das “histórias não
terminadas”? Eu gostaria de estar ao seu lado até o momento em que a casa onde está aparecer diante de nós. Assim, terei vivido até o final este período da sua - e da minha - vida. Quando a casa aparecer, eu o deixarei só.
Não sabia o que dizer. Tentei mudar de assunto e perguntei quem eram as
pessoas na sala.
- Gente que tem medo de acabar como vocês, uma geração que sonhou em
mudar o mundo, mas terminou se rendendo à “realidade”. Fingimos ser fortes porque somos fracos. Ainda somos poucos, muito poucos, mas espero que seja passageiro; as pessoas não podem ficar se enganando para sempre.
“E qual a sua resposta para a minha pergunta?”
- Mikhail, você sabe que estou sinceramente procurando me livrar de minha história pessoal. Se fosse algum tempo atrás, acharia muito mais confortável e muito mais conveniente viajar com você, que conhece a região, os costumes e os possíveis perigos. Mas agora penso que devo desenrolar sozinho o fio de
Ariadne, sair do labirinto onde me meti. Minha vida mudou, parece que
rejuvenesci 10 anos, 20 anos - e isso basta para querer partir em busca de uma aventura.
- Quando irá?
- Assim que conseguir o visto. Em dois ou três dias.
- A Senhora o acompanha. A voz diz que é o momento certo. Se mudar de
idéia, me avise.
Passei pelo grupo de pessoas deitadas no chão, prontas para dormir. No
caminho de casa, pensava que a vida era algo muito mais alegre do que eu
acreditara ser quando se atinge minha idade; é sempre possível voltar a ser jovem e louco. Estava tão concentrado no momento presente, que me surpreendi quando vi que as pessoas não se afastavam para deixar-me passar, não abaixavam os olhos com medo. Ninguém sequer notou minha presença, mas eu gostava da
idéia, a cidade era de novo a mesma que, quando criticaram Henry IV por trair sua religião protestante e casar-se com uma católica, ele respondeu: “Paris vale uma missa.”
Valia muito mais que isso. Eu podia rever os massacres religiosos, os ritos de sangue, os reis, as rainhas, museus, castelos, pintores que sofriam, escritores que se embriagavam, filósofos que se suicidavam, militares que tramavam a conquista do mundo, traidores que com um gesto derrubavam uma dinastia,
histórias que em dado momento tinham sido esquecidas, e agora eram
relembradas - e recontadas.
Pela primeira vez em muito tempo, entrei em casa e não fui até o
computador para verificar se alguém tinha me escrito, se havia alguma coisa inadiável para responder: nada era absolutamente inadiável. Não fui até o quarto ver se Marie estava dormindo, porque sabia que estava apenas fingindo dormir.
Não liguei a TV para ver os jornais da noite, porque eram as mesmas