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Электронная книга - «O Zahir». Краткое содержание книги:

O Zahir
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- Não estou me sentindo bem - disse Mikhail para um deles. - Vamos

embora.

Não sabia o que queria dizer “embora”: cada um para sua casa? Cada um

para sua cidade, ou para debaixo de sua ponte? Ninguém me perguntou se eu também iria “embora”, de modo que continuei a acompanhá-los. O comentário de “não estou me sentindo bem” me incomodava - não conversaríamos mais

aquela noite sobre a viagem para a Ásia Central. Devia despedir-me? Ou devia ir até o fim, para ver o que significava “vamos embora”? Descobri que estava me divertindo, e que gostaria de tentar seduzir a menina com roupas de vampiro.

Avante, portanto.

E debandar a qualquer sinal de perigo.

Enquanto seguíamos para um lugar que eu não conhecia, pensava sobre

tudo que estava vivendo. Uma tribo. Uma volta simbólica ao tempo em que os homens viajavam, se protegiam em grupos e dependiam de muito pouco para

sobreviver. Uma tribo no meio de outra tribo hostil, chamada sociedade,

atravessando seus campos, assustando porque eram constantemente desafiados.

Um grupo de pessoas que havia se reunido em uma sociedade ideal - sobre a qual eu nada sabia além dos piercings e das roupas que vestiam. Quais eram seus valores? O que pensavam da vida? Como ganhavam dinheiro? Tinham sonhos,

ou bastava caminhar pelo mundo? Tudo aquilo era muito mais interessante que o jantar a que devia ir no dia seguinte, onde já sabia absolutamente tudo que iria acontecer. Estava convencido de que devia ser o efeito da vodca, mas eu me sentia livre, minha história pessoal estava cada vez mais distante, sobrava apenas o momento presente, o instinto, o Zahir havia desaparecido...

O Zahir?

Ele havia desaparecido, mas agora eu me dava conta que um Zahir era mais

do que um homem obcecado por um objeto, uma das mil colunas da mesquita de Córdoba, como dizia o conto de Borges, ou uma mulher na Ásia Central, como fora minha terrível experiência por dois anos. O Zahir era a fixação em tudo que havia sido passado de geração a geração, não deixava nenhuma pergunta sem resposta, ocupava todo o espaço, não nos permitia jamais considerar a

possibilidade de que as coisas mudavam. O Zahir todo-poderoso parecia nascer junto de cada ser humano, e ganhar sua força total durante a infância, impondo suas regras, que a partir de então serão sempre respeitadas:

Gente diferente é perigosa, pertencem à outra tribo, querem bossas terras e nossas mulheres.

Precisamos casar, ter filhos, reproduzir a espécie.

O amor é pequeno, dá apenas para uma pessoa e olhe lá - qualquer tentativa de dizer que o coração é maior que isso é considerada maldita.

Quando nos casamos, estamos autorizados a tomar posse do corpo e da

alma do outro.

E preciso trabalhar em algo que detestamos, porque somos parte de uma

sociedade organizada, e se todos fizerem o que gostam, o mundo não anda para a frente.

Temos que comprar jóias - nos identifica com nossa tribo, assim como

piercings identificam uma tribo diferente.

Devemos ser engraçados, e tratar com ironia as pessoas que expressam seus sentimentos - é um perigo para a tribo deixar que um de seus membros demonstre o que está sentindo.

É preciso evitar ao máximo dizer “não”, porque gostam mais da gente

quando dizemos “sim” - e isso nos permite sobreviver em um terreno hostil.

O que os outros pensam é mais importante do que o que sentimos.

Jamais faça escândalos, pode chamar a atenção de uma tribo inimiga.

Se você se comportar diferente será expulso da tribo, porque pode contagiar os outros, e desintegrar o que foi tão difícil de organizar.

Devemos ter sempre em mente como ficar dentro das novas cavernas e, se

não soubermos direito, chamamos um decorador -que fará o melhor para mostrar aos outros que temos bom gosto.

Precisamos comer três vezes por dia, mesmo sem fome; devemos jejuar

quando saímos dos padrões de beleza, mesmo se estivermos esfomeados.

Devemos nos vestir como manda o figurino, fazer amor com ou sem

vontade, matar em nome de fronteiras, desejar que o tempo passe rápido e a aposentadoria chegue logo, eleger políticos, reclamar do custo de vida, mudar de penteado, maldizer os que são diferentes, ir a um culto religioso aos domingos, aos sábados, ou sextas, dependendo da religião; e ali pedir perdão por nossos pecados, encher-nos de orgulho porque conhecemos a verdade, e desprezar a outra tribo, que adora um deus falso.

Os filhos precisam seguir nossos passos, afinal somos mais velhos e

conhecemos o mundo.

Ter sempre um diploma de faculdade, mesmo que jamais vá conseguir um

emprego naquilo que nos obrigaram a escolher como carreira.

Estudar coisas que jamais usaremos, mas que alguém disse que era

importante conhecer: álgebra, trigonometria, o código de Hamurabi.

Jamais entristecer nossos pais, mesmo que isso signifique renunciar a tudo que nos deixa contentes.

Escutar música baixa, falar baixo, chorar escondido, porque eu sou o todo-poderoso Zahir, aquele que ditou as regras do jogo, a distância dos trilhos, a idéia do sucesso, a maneira de amar, a importância das recompensas.

Paramos diante de um prédio relativamente chique, em uma região cara.

Um deles digitou o código na porta de entrada, e todos subimos para o terceiro andar. Imaginei que ia encontrar aquela família compreensiva, que tolera os amigos do filho -desde que os tenha próximo, e possam controlar tudo. Mas quando Lucrecia abriu a porta, tudo estava escuro: à medida que meus olhos se acostumavam com a luz da rua que filtrava pelas janelas, notei uma grande sala vazia - a única decoração era uma lareira que não devia ser utilizada há muitos anos.

Um rapaz de quase dois metros, cabelos louros, capa longa de gabardine,

usando um corte de cabelo como os índios sioux americanos, foi até a cozinha e voltou com velas acesas. Todos sentaram-se em círculo no chão, e pela primeira vez naquela noite eu tive medo: parecia que estava em um filme de terror, um ritual satânico está pronto para ser iniciado - a vítima será o estrangeiro desavisado que resolveu acompanhá-los.

Mikhail estava pálido, seus olhos se mexiam desordenadamente, sem

conseguir se fixar em lugar nenhum - e isso aumentou ainda mais meu

desconforto. Estava prestes a ter um ataque epilético: será que aquelas pessoas ali sabiam como lidar em uma situação como essa? Não seria melhor que eu fosse embora, para não terminar envolvido em alguma tragédia?

Talvez essa fosse a atitude mais sábia, coerente com uma vida onde eu era um escritor famoso, que escreve sobre espiritualidade e portanto precisa dar o exemplo. Sim, se eu fosse razoável, diria à Lucrecia que no caso de um ataque deveria colocar algo na boca de seu namorado para evitar que enrolasse a língua e morresse sufocado. Evidente que ela devia saber disso, mas no mundo dos

seguidores do Zahir social não deixamos nada ao acaso, precisamos estar em paz com nossa consciência.

Antes do meu acidente, eu teria agido assim. Mas agora minha história

pessoal tinha perdido sua importância. Deixava de ser história, e voltava de novo a ser lenda, a busca, a aventura, a viagem para dentro e para fora de mim mesmo.

Estava de novo em um tempo onde as coisas à minha volta se transformavam, e assim desejava que fosse até o final de meus dias (lembrei-me dos meus dizeres para o epitáfio: “morreu enquanto estava vivo”). Carregava comigo as

experiências de meu passado, que me permitiam reagir com velocidade e

precisão, mas não ficava me lembrando o tempo todo das lições que havia

aprendido. Imagine um guerreiro, no meio de um combate, parar para decidir qual o melhor golpe? Morreria em um piscar de olhos.

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Главный герой
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