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Электронная книга - «A Herdeira [em Português]». Краткое содержание книги:

A Herdeira [em Português]
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Como se tudo isso não bastasse, ainda era arrogante. Havia unanimidade de sentimentos na polícia em relação a Max Hornung. Todos o odiavam. A mulher do inspetor-chefe perguntara um dia por que ele não demitia Hornung, e ele quase batera nela.

A razão pela qual Max Hornung continuava a fazer parte da polícia de Zurique era que ele, por si só, havia contribuído mais para a receita nacional da Suíça do que todas as fábricas de relógios e chocolates do país juntas. Max Hornung era contador, um verdadeiro gênio matemático, dotado de um conhecimento enciclopédico de assuntos fiscais, de um instinto infalível para as traças humanas e de uma paciência que fazia Jó chorar de inveja.

Max tinha sido funcionário do Betrug Abtelunh, o departamento encarregado de fiscalizar as fraudes financeiras, as irregularidades na venda de ações e as transações bancárias, e a entrada e saída de dinheiro do território suíço. Foi Max Hornung quem bloqueou o contrabando de dinheiro ilegal para a Suíça, desmascarando engenhosos golpes financeiros no valor de muitos bilhões de dólares, o que levara para a prisão uma dezena dos mais respeitáveis líderes do mundo dos negócios.

Pouco importava como o dinheiro fosse dissimulado, misturado, remisturado, mandado para as Seychelles, para aliás ser manejado e transferido por meio de uma série complexa de empresas fantasmas. No fim de tudo, Max Hornung apurava a verdade. Em suma, tornara-se o terror da comunidade financeira suíça. Acima de todas as coisas, os suíços consideravam sagrada a sua privacidade. Com Max Hornung à solta, não podia haver vida particular. O salário de Max como um cão de guarda financeiro era bem modesto.

Tinham tentado suborná-lo com um milhão de francos suíços numa conta numerada, um chalé em Cortina d'Ampezo, um iate e, em meia dúzia de oportunidades, belas mulheres, todas adolescentes. Em todos os casos, o suborno fora rejeitado, sendo as autoridades devidamente notificadas.

Max Hornung não dava importância ao dinheiro. Poderia tornar-se milionário se aplicasse a sua sagacidade financeira no mercado de ações, mas essa idéia nunca lhe ocorrera. Max Hornung só estava interessado numa coisa: surpreender aqueles que se desviavam do caminho da probidade financeira.

Havia outra ambição no fundo do coração de Max Hornung, e essa ambição foi uma bênção para a comunidade financeira. Por motivos que só ele poderia aprofundar, Max Hornung desejava ardentemente ser um detetive policial. Via-se como uma espécie de Sherlock Holmes ou de Maigret, seguindo infatigavelmente um labirinto de indícios até desentocar o criminoso do seu covil.

Quando um dos principais financeiros da Suíça teve por acaso conhecimento dessa ambição de Max Hornung, reuniu-se imediatamente com alguns amigos de prestígio e, quarenta e oito horas depois, Max recebeu a oferta de um lugar de detetive na polícia de Zurique.

Aceitou pressurosamente, sem quase acreditar na sua sorte. Toda a comunidade financeira da Suíça deu um suspiro de alívio e retomou as suas atividades ocultas. O inspetor-chefe Schmied não fora consultado sobre o caso. Recebera um telefonema do mais influente líder político da Suíça, fora instruído, e o assunto terminara ali.

Ou melhor, ali é que tudo havia começado. Para o inspetor-chefe, fora o começo de uma agonia que não mostrava o menor sinal de chegar ao fim. Tentara honestamente dissimular o seu ressentimento pela imposição de um detetive, por mais competente que fosse. Presumiu que devia haver fortes motivos políticos para um procedimento tão inusitado. Mas resolveu cooperar, na esperança de poder manobrar facilmente a situação.

A sua confiança foi abalada no momento em que Max Hornung se apresentou. A aparência do novo detetive era por si só suficientemente ridícula. Mas o que assombrou o inspetor Schmied foi a atitude de superioridade que se desprendia daquele farrapo de gente, era como se ele dissesse: "Bem, Max Hornung chegou! Descansem e não se preocupem mais com coisa alguma".

As idéias de fácil cooperação do inspetor desapareceram. Decidiu tomar uma atitude que deixasse Max Hornung encostado, transferindo-o de uma seção para outra e designando-o para serviços sem a menor importância. Hornung trabalhou na polícia técnica, na divisão de identificação, na seção de desaparecidos. Mas ele sempre acabava voltando.

Havia na polícia uma regra segundo a qual todo detetive tinha de dar plantão noturno no mínimo uma vez, de três em três meses. Invariavelmente, em todos os plantões de Max Hornung, acontecia alguma ocorrência importante, e, enquanto os outros detetives do inspetor Schmied se esfalfavam investigando pistas, Max resolvia o caso. Era de exasperar. Não sabia absolutamente nada de processo policial, criminologia, medicina legal, balística ou psicologia criminal, coisas em que os outros detetives eram competentemente treinados, mas apesar disso, vivia resolvendo casos que desafiavam os outros.

O inspetor-chefe Schmied tinha de chegar à conclusão de que Max Hornung era o homem mais sortudo do mundo. Na realidade, a sorte nada tinha que ver com o caso. O detetive Max Hornung esclarecia os casos policiais da mesma maneira que o contador Max Hornung desmascarava centenas de planos engenhosos para fraudar os bancos e o governo.

Max Hornung tinha uma mente de tacanha, por sinal. Precisava apenas de um fio solto, um pequeno fragmento que não se ajustasse ao resto da trama. Começava então a desenrolá-lo até que o plano que o criminoso considerava brilhante começasse as estourar nas costuras.

O fato de Max Hornung possuir uma memória fotográfica enlouquecia os seus colegas. Max podia se lembrar instantaneamente de qualquer coisa que tivesse visto, lido ou ouvido.

Outra circunstância que depunha contra ele, se mais alguma coisa fosse necessária, referia-se à sua conta de despesas, que era uma fonte de perplexidade e confusão para todo o corpo de detetives. Na primeira vez em que ele apresentara uma conta de despesas, o Oberleutnant chamou-o ao seu gabinete e dissera cordialmente:

- Notei alguns erros de cálculo nas suas contas, Max.

Isso equivalia acusar um campeão de xadrez a ter sacrificado a sua dama por descuido.

- Erros nas minhas contas?

- Sim, Max. Por exemplo, transporte através da cidade, oitenta centavos. Volta, oitenta centavos. O mínimo que gastaria com um táxi seria trinta e quatro francos de ida e outro de volta.

- Exatamente. Foi por isso que tomei o ônibus.

- Ônibus? - perguntou o Oberleutnant, espantado.

Nenhum dos detetives andava de ônibus quando estava investigando algum caso.

Nunca se ouvira falar nisso. A única observação que lhe ocorreu fazer foi a seguinte:

- Muito bem, Hornung, Não incentivamos desperdícios ou extravagâncias na polícia. Mas temos uma margem para despesas bem razoável. Outra coisa. Você trabalhou durante três dias neste caso. Esqueceu-se de incluir as despesas com suas refeições.

- Está enganado, Herr Oberleutnant. De manhã, tomo apenas café. Preparo o almoço em casa e sempre o levo numa marmita. O jantar dos três dias está relacionado aqui.

E estava. Três jantares por dezesseis francos. Devia ter comido em alguma cantina do Exército de Salvação. O Oberleutnant disse friamente:

- Detetive Hornung, este departamento existia havia mais de cem anos quando o Sr. veio trabalhar aqui, e continuar a existir pelo menos mais cem anos depois que sair.

Há aqui certas tradições que devem ser observadas. Pense, pelo menos, nos seus colegas e faça uma revisão dessa prestação de contas.

- Certo, senhor. Sinto muito que não tenha sido correto.

- Não tem importância. Afinal de contas, é novo aqui.

Meia hora depois, Max Hornung voltava com a prestação de contas revista.

Diminuíra as despesas feitas em cerca de três por cento. Naquele dia de novembro, o inspetor-chefe Schmied tinha nas mãos o relatório do detetive Max Hornung, o qual se achava de pé diante dele.

Hornung estava com um terno azul-marinho, sapatos castanhos e meias brancas.

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