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Электронная книга - «O Zahir». Краткое содержание книги:

O Zahir
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estepe, se eu não conhecia absolutamente ninguém? Podia conseguir um visto na embaixada do Casaquistão, um carro em uma agência de aluguel, e um guia no consulado da França em Almaty - será que era necessário mais do que isso?

Fiquei parado, observando o grupo, sem saber direito o que fazer. Não era hora de ficar discutindo sobre a viagem, tinha trabalho e namorada me esperando em casa: por que não despedir-me agora?

Porque estava me sentindo livre. Fazendo coisas que não fazia há muitos

anos, abrindo espaço na minha alma para novas experiências, afastando o

acomodador da minha vida, experimentando coisas que talvez não me interessassem muito, mas que pelo menos eram diferentes.

A bebida acabou, e foi substituída por rum. Detesto rum, mas era o que

tinha, melhor me adaptar às circunstâncias. Os dois músicos tocavam o prato e o atabaque, e, quando alguém ousava passar por perto, uma das moças estendia a mão, pedindo alguma moeda. A pessoa normalmente caminhava mais rápido,

mas sempre escutava “obrigada, tenha uma boa noite”. Uma das pessoas, ao ver que não tinha sido agredida, mas agradecida, voltou e deu algum dinheiro.

Depois de assistir àquela cena por mais de dez minutos, sem que ninguém

do grupo me dirigisse a palavra, fui até um bar, comprei duas garrafas de vodca, voltei e joguei o rum na sarjeta. Anastásia parece que ficou contente com o meu gesto - e tentei puxar conversa.

- Podem me explicar por que usam um piercing?

- Por que vocês usam jóias? Usam sapatos altos? Usam vestidos decotados, mesmo no inverno?

- Isso não é uma resposta.- Usamos piercing porque somos os novos bárbaros invadindo Roma; como ninguém usa uniforme, algo precisa identificar quem pertence às tribos da invasão.

Soava como se estivessem vivendo um momento histórico importante; mas

para os que voltavam para casa naquele momento, eram apenas um grupo de

desocupados sem lugar para dormir, enchendo as ruas de Paris, incomodando os turistas que faziam tão bem para a economia local, deixando pais e suas mães à beira da loucura por os terem trazido ao mundo e não poder controlá-los.

Eu já fora assim um dia, quando o movimento hippie tentou mostrar sua

força - os megaconcertos de rock, os cabelos grandes, as roupas coloridas, o símbolo viking, os dedos em V designando “paz e amor”. Terminaram - como

disse Mikhail - virando apenas mais um produto de consumo, desapareceram da face da Terra, destruíram seus ícones.

Um homem vinha caminhando sozinho pela rua: o rapaz vestido de couro e

alfinetes se aproximou com a mão estendida. Pediu dinheiro. Mas ao invés de apressar o passo e murmurar alguma coisa como “não tenho trocado”, ele parou, encarou todo mundo e disse em voz alta:

- Eu acordo todos os dias com uma dívida de aproximadamente 100 mil

euros, por causa de minha casa, da situação econômica da Europa, dos gastos de minha mulher! Ou seja, estou em pior situação que você, e muito mais tenso!

Você não pode me dar pelo menos uma moeda, e diminuir minha dívida?

Lucrecia - a que Mikhail dizia ser sua namorada - tirou uma nota de 50

euros e deu para o homem.

- Compre um pouco de caviar. Você precisa ter alguma alegria em sua

miserável vida.

Como se tudo aquilo fosse a coisa mais normal do mundo, o homem

agradeceu e foi embora. Cinqüenta euros! A menina italiana tinha em seu bolso uma nota de 50 euros! E estavam pedindo dinheiro, mendigando na rua!

- Chega de ficar por aqui - disse o rapaz de roupa de couro.

- Aonde vamos? - perguntou Mikhail.

- Em busca dos outros. Norte ou sul?

Anastásia decidiu oeste; afinal de contas, segundo acabara de escutar, ela estava desenvolvendo seu dom.

Passamos em frente à Torre de Saint-Jacques, onde muitos séculos atrás se reuniam os peregrinos para Santiago de Compostela. Passamos pela catedral de Notre Dame, onde encontraram mais alguns “novos bárbaros”. A vodca acabou, e eu fui comprar mais duas garrafas - mesmo sem ter certeza de que todos ali eram maiores de idade. Ninguém me agradeceu, acharam a coisa mais normal do

mundo.

Notei que já estava um pouco bêbado, olhando uma das meninas recém-

chegadas com interesse. Falavam alto, chutavam algumas latas de lixo - na verdade, estranhos objetos de metal com um saco plástico pendurado - e não diziam nada, absolutamente nada de interessante.

Atravessamos o Sena e de repente paramos diante de uma fita destas usadas para marcar uma área onde está sendo feita uma construção. A fita impedia a passagem pela calçada: todos precisavam descer para o meio do trânsito, e voltar para a calçada cinco metros mais adiante.

- Ainda está aí - disse um dos recém-chegados.

- O que ainda está aí? - perguntei.

- Quem é este sujeito?

- Um amigo nosso - respondeu Lucrecia. - Aliás, você deve ter lido um de

seus livros.O recém-chegado me reconheceu, sem demonstrar surpresa ou

reverência; pelo contrário, perguntou se eu podia lhe dar algum dinheiro - o que recusei na hora.

- Se quer saber por que a fita está aí, me dê uma moeda Tudo nessa vida

tem um preço, você sabe melhor que ninguém E informação é um dos produtos mais caros do mundo.

Ninguém do grupo veio em meu socorro; tive que pagar um euro pela

resposta.

- O que ainda está aí é esta fita. Nós a amarramos. Se você olhar, não existe nenhum conserto, não existe nada, apenas uma estúpida coisa de plástico branco e vermelho, interrompendo a passagem em uma estúpida calçada. Mas ninguém pergunta o que ela está fazendo ali: descem do meio-fio, caminham pela rua arriscando-se a serem atropelados e tornam a subir mais adiante. Por sinal, li que você sofreu um acidente - é verdade?

-Justamente por descer do meio-fio.

- Não se preocupe: quando as pessoas fazem isso, elas prestam o dobro de

atenção: foi isso que nos inspirou o uso da fita -fazer com que saibam o que está acontecendo ao redor.

- Não é nada disso. Era a menina que eu achava atraente. -Não passa de

uma brincadeira, para que possamos rir de gente que obedece sem saber a que está obedecendo. Não tem razão, não tem importância, e ninguém será

atropelado.

Mais gente se juntou ao grupo, agora eram 11 pessoas e dois pastores

alemães. Já não pediam dinheiro, porque ninguém ousava aproximar-se do bando de selvagens, que parecia se divertir com o medo que causavam. A bebida

terminou, todos olharam para mim, como se tivesse obrigação de embriagá-los, e me pediram que comprasse outra garrafa. Entendi que era o meu “passaporte”

para a peregrinação e comecei a procurar uma loja.

A menina que eu achara interessante - e que tinha idade para ser minha filha

- parece que notou meu olhar, e puxou conversa. Sabia que era apenas uma

maneira de provocar-me, mas aceitei. Não me contou nada de sua vida pessoaclass="underline" indagou se eu sabia quantos gatos e quantos postes estavam na parte de trás de uma nota de dez dólares.

-Gatos e postes?

- Você não sabe. Você não dá valor ao dinheiro. Pois saiba que existem

quatro gatos e 11 postes de luz gravados ali.

Quatro gatos e 11 postes? Prometi a mim mesmo que iria verificar na

próxima vez que visse uma nota.

- Drogas circulam por aqui?

- Algumas, principalmente o álcool. Mas muito pouco, não faz parte do

nosso estilo. Drogas é mais para a sua geração, não é verdade? Minha mãe, por exemplo, se droga cozinhando para a família, arrumando compulsivamente a

casa, sofrendo por mim. Quando algo anda mal com os negócios de meu pai, ela sofre. Você acredita? Ela sofre! Sofre por mim, por meus pais, por meus irmãos, por tudo. Como eu precisava gastar muita energia fingindo que estava contente o tempo todo, achei melhor sair de casa.

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