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Электронная книга - «O Zahir». Краткое содержание книги:

O Zahir
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Bem, era uma história pessoal.

- Como a sua mulher - disse um jovem louro, com piercing na pálpebra. -

Ela também saiu de casa: foi porque precisava fingir que estava contente?

Também ali? Será que ela dera a algum deles um pedaço do tal tecido

manchado de sangue?

- Ela também sofria - riu Lucrecia. - Mas pelo que sabemos, já não sofre

mais: isso é que é coragem!

- O que minha mulher fazia aqui?

- Acompanhava o mongol, com suas idéias estranhas a respeito do amor,

que só agora começamos a compreender direito. E fazia perguntas. Contava sua história. Um belo dia, parou de fazer Perguntas e de contar sua história: disse que estava cansada de reclamar. Sugerimos que largasse tudo e viesse conosco

tínhamos uma viagem planejada para o norte da África. Ela agradeceu, explicou que tinha outros planos, e que iria na direção contrária.

- Você não leu seu novo livro? - perguntou Anastásia.

- Me disseram que é romântico demais, não me interessa. Quando é que

vamos comprar esta droga de bebida?

As pessoas nos deixavam passar, como se fôssemos samurais entrando em

uma aldeia, bandidos chegando a uma cidade do oeste, bárbaros entrando em Roma. Embora nenhum deles fizesse qualquer gesto ameaçador, a agressividade estava nas roupas, no piercing, nas conversas em voz alta, na diferença.

Chegamos finalmente a uma loja de bebidas: para meu desconsolo e aflição, todos entraram e começaram a mexer nas prateleiras.

Quem eu conhecia ali? Apenas Mikhaiclass="underline" mesmo assim não sabia se sua

história era verdadeira. E se roubassem? Se algum deles tivesse uma arma? Eu estava com aquele grupo - seria o responsável por ser o mais velho?

O homem da caixa olhava sem parar o espelho colocado no teto do pequeno

mercado. O grupo, sabendo que ele estava preocupado, se espalhava, faziam gestos uns para os outros, a tensão crescia. Para não ter que passar por isso novamente, peguei logo três garrafas de vodca, e me dirigi rápido para a caixa.

Uma mulher, enquanto pagava um maço de cigarros, comentou que no seu

tempo Paris tinha boêmios, tinha artistas, mas não tinha bandos de desabrigados ameaçando todo mundo. E sugeriu ao caixa que chamasse a polícia.

- Tenho certeza que algo de ruim está para acontecer nos próximos minutos

- disse ela em voz baixa.

O caixa estava assustadíssimo com a invasão do seu pequeno mundo, fruto

de anos de trabalho, de muitos empréstimos, onde possivelmente seu filho

trabalhava de manhã, sua mulher de tarde, e ele de noite. Fez um sinal para a mulher, e entendi que ele já havia chamado a polícia.

Detesto ter que me meter em coisas para as quais não fui chamado. Mas

também detesto ser covarde - cada vez que isso acontece, perco o respeito por mim mesmo durante uma semana.

- Não se preocupe... Era tarde.

Dois policiais entravam, o dono fez um sinal, mas aquelas pessoas vestidas como extraterrestres não deram muita atenção - era parte do desafio encarar os representantes da ordem estabelecida. Já deviam ter passado por aquilo muitas vezes. Sabiam que não tinham cometido nenhum crime (exceto atentados à

moda, mas até isso podia mudar na próxima estação de alta-costura). Deviam estar com medo, mas não demonstravam, e continuavam conversando aos berros.

- Outro dia vi um comediante dizendo: todas as pessoas estúpidas deviam

ter isso escrito em sua carteira de identidade - disse Anastásia para quem quisesse ouvir. - Assim, saberíamos com quem estamos falando.

- Realmente, pessoas estúpidas são um perigo para a sociedade - respondeu a menina de rosto angelical e roupa de vampiro, que pouco tempo antes estava conversando comigo sobre postes e gatos na nota de dez dólares. - Deveriam ser testados uma vez por ano, e ter uma licença para continuar a caminhar pelas ruas, como os motoristas precisam de licença para dirigir.

Os policiais, que não deviam ser muito mais velhos que “a tribo”, não

diziam nada.

- Sabe o que eu gostaria de fazer? - era a voz de Mikhail, mas eu não podia vê-lo, porque estava oculto por uma estante. - trocar os rótulos de todas estas mercadorias. As pessoas estariam perdidas para sempre: não saberiam quando comer quente, frio, cozido ou frito. Se não lêem as instruções, não sabem como preparar a comida. Não têm mais instinto.

Todos que até então tinham dito alguma coisa se expressavam em francês

perfeito, parisiense. Mas Mikhail tinha sotaque.

- Quero ver seu passaporte - disse o guarda.

- Ele está comigo.

As palavras saíram naturalmente, embora eu soubesse o que isso podia

significar - escândalo de novo. O guarda me olhou.

- Eu não falei com o senhor. Mas, já que interferiu, e já que está com este grupo, espero que tenha algum documento para provar quem é. E um bom

argumento para explicar por que está cercado de gente com a metade de sua idade, comprando vodca.

Eu podia recusar-me a mostrar os documentos - a lei não me obrigava a

carregá-los comigo. Mas pensava em Mikhaiclass="underline" um dos guardas estava agora ao seu lado. Será que tinha mesmo permissão para estar na França? O que eu sabia dele além das histórias de visões e epilepsia? Se a tensão do momento provocasse um ataque?

Enfiei a mão no bolso e tirei minha carteira de motorista.

- O senhor é...

-Sou.

- Achei que era: li um de seus livros. Mas isso não o faz ficar acima da lei.

O fato de ser meu leitor me desmontou por completo. Ali estava aquele

rapaz, de cabeça raspada, vestindo também um uniforme - embora totalmente distinto das roupas que as “tribos” usavam para identificar-se umas com as outras. Talvez um dia ele tivesse sonhado com a liberdade de ser diferente, de agir diferente, desafiar a autoridade de maneira sutil, sem o desacato formal que termina em cadeia. Mas devia ter um pai que lhe deixou uma alternativa, uma família para ajudar a sustentar, ou apenas medo de ir além do seu mundo

conhecido. Respondi com delicadeza:

- Não estou acima da lei. Na verdade, ninguém quebrou nenhuma lei. A não

ser que o senhor da caixa ou a senhora que está comprando cigarros queiram dar alguma queixa explícita.

Quando me virei, a mulher que falava de artistas e boêmios do seu tempo, a profeta de uma tragédia que estava para acontecer, a dona da verdade e dos bons costumes, tinha desaparecido. Certamente iria comentar com os vizinhos na manhã seguinte que graças a ela um assalto fora interrompido no meio.

- Não tenho queixa - disse o homem da caixa, pego na armadilha de um

mundo onde as pessoas falavam alto, mas aparentemente não faziam nenhum

mal.

- A vodca é para o senhor?

Eu acenei que sim com a cabeça. Eles sabiam que todos ali estavam

bêbados, mas tampouco desejavam criar um caso onde não existia qualquer

ameaça.

- Um mundo sem pessoas estúpidas seria um caos! - Era a voz do que usava

roupa de couro com correntes. - Em vez de desempregados como temos hoje,

haveria emprego sobrando, e ninguém para trabalhar!

-Basta!

Minha voz saiu autoritária, decisiva.

- Nenhum de vocês fala mais!

E, para minha surpresa, o silêncio se fez. Meu coração fervia Por dentro, mas continuei a conversar com os policiais, como se fosse a pessoa mais calma do mundo.

- Se fossem perigosos, não estariam provocando.

O policial se voltou para o caixa:

- Se precisar, estamos por perto.

E antes de sair, comentou com o outro, de modo que sua voz ressoasse na

loja inteira.

- Eu adoro gente estúpida: sem elas, nesta hora a gente podia estar sendo obrigado a enfrentar assaltantes.

- Tem razão - respondeu o outro policial. - Gente estúpida nos distrai e não é arriscado.

Com a continência de praxe, se despediram de mim.

A única coisa que me ocorreu ao sair do bar, foi imediatamente quebrar as garrafas de vodca - mas uma delas foi salva da destruição, e passou de boca em boca rapidamente. Pela maneira como beberam, vi que estavam assustados - tão assustados quanto eu. A diferença é que, ao se sentirem ameaçados, tinham partido para o ataque.

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