O Zahir
- Автор: Коэльо Пауло
- Год: 2006
- Язык: португальский
- Жанр: Прочая древняя литература
Электронная книга - «O Zahir». Краткое содержание книги:
Bem, era uma história pessoal.
- Como a sua mulher - disse um jovem louro, com piercing na pálpebra. -
Ela também saiu de casa: foi porque precisava fingir que estava contente?
Também ali? Será que ela dera a algum deles um pedaço do tal tecido
manchado de sangue?
- Ela também sofria - riu Lucrecia. - Mas pelo que sabemos, já não sofre
mais: isso é que é coragem!
- O que minha mulher fazia aqui?
- Acompanhava o mongol, com suas idéias estranhas a respeito do amor,
que só agora começamos a compreender direito. E fazia perguntas. Contava sua história. Um belo dia, parou de fazer Perguntas e de contar sua história: disse que estava cansada de reclamar. Sugerimos que largasse tudo e viesse conosco
tínhamos uma viagem planejada para o norte da África. Ela agradeceu, explicou que tinha outros planos, e que iria na direção contrária.
- Você não leu seu novo livro? - perguntou Anastásia.
- Me disseram que é romântico demais, não me interessa. Quando é que
vamos comprar esta droga de bebida?
As pessoas nos deixavam passar, como se fôssemos samurais entrando em
uma aldeia, bandidos chegando a uma cidade do oeste, bárbaros entrando em Roma. Embora nenhum deles fizesse qualquer gesto ameaçador, a agressividade estava nas roupas, no piercing, nas conversas em voz alta, na diferença.
Chegamos finalmente a uma loja de bebidas: para meu desconsolo e aflição, todos entraram e começaram a mexer nas prateleiras.
Quem eu conhecia ali? Apenas Mikhaiclass="underline" mesmo assim não sabia se sua
história era verdadeira. E se roubassem? Se algum deles tivesse uma arma? Eu estava com aquele grupo - seria o responsável por ser o mais velho?
O homem da caixa olhava sem parar o espelho colocado no teto do pequeno
mercado. O grupo, sabendo que ele estava preocupado, se espalhava, faziam gestos uns para os outros, a tensão crescia. Para não ter que passar por isso novamente, peguei logo três garrafas de vodca, e me dirigi rápido para a caixa.
Uma mulher, enquanto pagava um maço de cigarros, comentou que no seu
tempo Paris tinha boêmios, tinha artistas, mas não tinha bandos de desabrigados ameaçando todo mundo. E sugeriu ao caixa que chamasse a polícia.
- Tenho certeza que algo de ruim está para acontecer nos próximos minutos
- disse ela em voz baixa.
O caixa estava assustadíssimo com a invasão do seu pequeno mundo, fruto
de anos de trabalho, de muitos empréstimos, onde possivelmente seu filho
trabalhava de manhã, sua mulher de tarde, e ele de noite. Fez um sinal para a mulher, e entendi que ele já havia chamado a polícia.
Detesto ter que me meter em coisas para as quais não fui chamado. Mas
também detesto ser covarde - cada vez que isso acontece, perco o respeito por mim mesmo durante uma semana.
- Não se preocupe... Era tarde.
Dois policiais entravam, o dono fez um sinal, mas aquelas pessoas vestidas como extraterrestres não deram muita atenção - era parte do desafio encarar os representantes da ordem estabelecida. Já deviam ter passado por aquilo muitas vezes. Sabiam que não tinham cometido nenhum crime (exceto atentados à
moda, mas até isso podia mudar na próxima estação de alta-costura). Deviam estar com medo, mas não demonstravam, e continuavam conversando aos berros.
- Outro dia vi um comediante dizendo: todas as pessoas estúpidas deviam
ter isso escrito em sua carteira de identidade - disse Anastásia para quem quisesse ouvir. - Assim, saberíamos com quem estamos falando.
- Realmente, pessoas estúpidas são um perigo para a sociedade - respondeu a menina de rosto angelical e roupa de vampiro, que pouco tempo antes estava conversando comigo sobre postes e gatos na nota de dez dólares. - Deveriam ser testados uma vez por ano, e ter uma licença para continuar a caminhar pelas ruas, como os motoristas precisam de licença para dirigir.
Os policiais, que não deviam ser muito mais velhos que “a tribo”, não
diziam nada.
- Sabe o que eu gostaria de fazer? - era a voz de Mikhail, mas eu não podia vê-lo, porque estava oculto por uma estante. - trocar os rótulos de todas estas mercadorias. As pessoas estariam perdidas para sempre: não saberiam quando comer quente, frio, cozido ou frito. Se não lêem as instruções, não sabem como preparar a comida. Não têm mais instinto.
Todos que até então tinham dito alguma coisa se expressavam em francês
perfeito, parisiense. Mas Mikhail tinha sotaque.
- Quero ver seu passaporte - disse o guarda.
- Ele está comigo.
As palavras saíram naturalmente, embora eu soubesse o que isso podia
significar - escândalo de novo. O guarda me olhou.
- Eu não falei com o senhor. Mas, já que interferiu, e já que está com este grupo, espero que tenha algum documento para provar quem é. E um bom
argumento para explicar por que está cercado de gente com a metade de sua idade, comprando vodca.
Eu podia recusar-me a mostrar os documentos - a lei não me obrigava a
carregá-los comigo. Mas pensava em Mikhaiclass="underline" um dos guardas estava agora ao seu lado. Será que tinha mesmo permissão para estar na França? O que eu sabia dele além das histórias de visões e epilepsia? Se a tensão do momento provocasse um ataque?
Enfiei a mão no bolso e tirei minha carteira de motorista.
- O senhor é...
-Sou.
- Achei que era: li um de seus livros. Mas isso não o faz ficar acima da lei.
O fato de ser meu leitor me desmontou por completo. Ali estava aquele
rapaz, de cabeça raspada, vestindo também um uniforme - embora totalmente distinto das roupas que as “tribos” usavam para identificar-se umas com as outras. Talvez um dia ele tivesse sonhado com a liberdade de ser diferente, de agir diferente, desafiar a autoridade de maneira sutil, sem o desacato formal que termina em cadeia. Mas devia ter um pai que lhe deixou uma alternativa, uma família para ajudar a sustentar, ou apenas medo de ir além do seu mundo
conhecido. Respondi com delicadeza:
- Não estou acima da lei. Na verdade, ninguém quebrou nenhuma lei. A não
ser que o senhor da caixa ou a senhora que está comprando cigarros queiram dar alguma queixa explícita.
Quando me virei, a mulher que falava de artistas e boêmios do seu tempo, a profeta de uma tragédia que estava para acontecer, a dona da verdade e dos bons costumes, tinha desaparecido. Certamente iria comentar com os vizinhos na manhã seguinte que graças a ela um assalto fora interrompido no meio.
- Não tenho queixa - disse o homem da caixa, pego na armadilha de um
mundo onde as pessoas falavam alto, mas aparentemente não faziam nenhum
mal.
- A vodca é para o senhor?
Eu acenei que sim com a cabeça. Eles sabiam que todos ali estavam
bêbados, mas tampouco desejavam criar um caso onde não existia qualquer
ameaça.
- Um mundo sem pessoas estúpidas seria um caos! - Era a voz do que usava
roupa de couro com correntes. - Em vez de desempregados como temos hoje,
haveria emprego sobrando, e ninguém para trabalhar!
-Basta!
Minha voz saiu autoritária, decisiva.
- Nenhum de vocês fala mais!
E, para minha surpresa, o silêncio se fez. Meu coração fervia Por dentro, mas continuei a conversar com os policiais, como se fosse a pessoa mais calma do mundo.
- Se fossem perigosos, não estariam provocando.
O policial se voltou para o caixa:
- Se precisar, estamos por perto.
E antes de sair, comentou com o outro, de modo que sua voz ressoasse na
loja inteira.
- Eu adoro gente estúpida: sem elas, nesta hora a gente podia estar sendo obrigado a enfrentar assaltantes.
- Tem razão - respondeu o outro policial. - Gente estúpida nos distrai e não é arriscado.
Com a continência de praxe, se despediram de mim.
A única coisa que me ocorreu ao sair do bar, foi imediatamente quebrar as garrafas de vodca - mas uma delas foi salva da destruição, e passou de boca em boca rapidamente. Pela maneira como beberam, vi que estavam assustados - tão assustados quanto eu. A diferença é que, ao se sentirem ameaçados, tinham partido para o ataque.