O Zahir
- Автор: Коэльо Пауло
- Год: 2006
- Язык: португальский
- Жанр: Прочая древняя литература
Электронная книга - «O Zahir». Краткое содержание книги:
- Por que razão?
- Por causa da maldita frase “amanhã a gente conversa”. É o bastante? Se
não for o bastante, pense que a tal mulher com quem se casou era entusiasmada pela vida, cheia de idéias, de alegria, de desejos, e agora caminha rapidamente para transformar-se em uma dona de casa.
- Isso é ridículo.
- Está bem, isso é ridículo. Uma bobagem! Uma coisa sem importância,
principalmente se pensarmos que temos tudo, somos bem-sucedidos, temos
dinheiro, não comentamos sobre eventuais amantes, jamais tivemos uma crise de ciúmes. Além do mais, existem milhões de crianças passando fome no mundo, na guerras, doenças, furacões, tragédias que acontecem a cada segundo. Então, de que posso me queixar?
- Você não acha que é hora de termos um filho?
- É assim que todos os casais que conheci resolviam seus problemas: tendo um filho! Você, que prezava tanto sua liberdade, que achava que devíamos deixar sempre para mais adiante, agora mudou de idéia?
- Agora acho a hora certa.
- Pois não podia ser mais errada, na minha opinião! Não, não quero um
filho seu - quero um filho do homem que conheci, que tinha sonhos, que estava ao meu lado! Se algum dia resolver engravidar, será de alguém que me entende, me acompanha, me escuta, me deseja de verdade!
- Tenho certeza de que você bebeu. Eu prometo, conversamos amanhã, mas
venha deitar, por favor, estou muito cansado.
- Então conversamos amanhã. E se minha alma, que está na porta deste
quarto, resolver ir embora, isso não vai afetar muito nossa vida.
- Ela não irá embora.
- Você já conheceu muito bem minha alma; mas faz anos que não conversa
com ela, não sabe o quanto ela mudou, o quanto ela está pedindo - de-ses-pe-ra-da-men-te - para que a escute. Mesmo que sejam assuntos banais, como
experiências em universidades americanas.
- Se sua alma mudou tanto, por que você continua a mesma?
- Por covardia. Porque acho que amanhã a gente vai conversar. Por tudo que construímos juntos, e não quero ver destruído. Ou pela razão mais grave de todas: me acomodei.
- Há pouco, você me acusava disso tudo.
- Tem razão. Olhei para você, achei que era você, mas na verdade sou eu.
Esta noite eu vou rezar com toda a minha força e toda a minha fé: vou pedir a Deus que não permita passar o resto de meus dias desta maneira.
scuto as palmas, o teatro está repleto. Vou começar a fazer aquilo que
sempre me deixa insone na véspera: uma conferência.
E O apresentador começa dizendo que não precisa me apresentar - o que é uma barbaridade, já que ele está ali para isso, não leva em conta que muita gente na sala talvez não saiba exatamente quem sou, foi levada por amigos. Mas, apesar do seu comentário, ele termina dando alguns dados biográficos, fala de minhas qualidades, dos meus prêmios, dos milhões de livros vendidos. Começa a agradecer os patrocinadores, me cumprimenta e me dá a palavra.
Agradeço também. Digo que as coisas mais importantes que tenho a dizer
eu coloco em meus livros, mas acho que tenho uma obrigação com meu público: mostrar o homem que existe por detrás de suas frases e seus parágrafos. Explico que a condição humana nos faz compartilhar apenas aquilo que temos de melhor
- porque estamos sempre em busca de amor, de aceitação. Portanto, meus livros sempre serão a ponta visível de uma montanha entre as nuvens, ou uma ilha no oceano: a luz bate ali, tudo parece estar em seu lugar, mas embaixo da superfície existem o desconhecido, as trevas, a incessante busca de si mesmo.
Conto como foi difícil escrever Tempo de rasgar, tempo de costurar, e que muitas partes deste livro eu só estou entendendo agora, à medida que o releio, como se a criação fosse sempre mais generosa e maior que o criador.
Digo que não há coisa mais aborrecida do que ler entrevistas ou assistir a conferências de autores explicando os personagens dos seus livros: o que está escrito, ou se explica por si mesmo, ou é um livro que não deve ser lido. Quando o escritor aparece em público, deve procurar mostrar o seu universo, não tentar explicar sua obra; e por causa disso, começo a falar de algo mais pessoaclass="underline"
- Há algum tempo, estive em Genebra para uma série de entrevistas. No
final de um dia de trabalho, como uma amiga havia cancelado o jantar, saí para caminhar pela cidade. A noite estava particularmente agradável, as ruas desertas, os bares e restaurantes cheios de vida, tudo parecia absolutamente calmo, em ordem, bonito, e de repente...
“... de repente eu me dei conta de que estava absolutamente só.
“É evidente que já estive sozinho muitas vezes este ano. É evidente que em algum lugar, a duas horas de vôo, minha namorada me esperava. E evidente que depois de um dia agitado como aquele, nada melhor que caminhar pelas ruelas e becos da cidade antiga, sem precisar conversar nada com ninguém, apenas
contemplando a beleza ao meu redor. Mas a sensação que apareceu foi um
sentimento de solidão opressor, angustiante - não tinha com quem dividir a cidade, o passeio, os comentários que gostaria de fazer.
“Peguei o celular que carregava; afinal tinha um número razoável de
amigos na cidade, mas era tarde para chamar quem quer que seja. Considerei a possibilidade de entrar em um dos bares, pedir algo para beber - com quase toda certeza seria reconhecido e alguém me convidaria para sentar em sua mesa. Mas resisti à tentação, e procurei viver aquele momento até o fim, descobrindo que não existe nada pior do que sentir que ninguém se importa com o fato de
existirmos ou não, que não estão interessadas em nossos comentários sobre a vida, que o mundo pode continuar andando perfeitamente, sem a nossa presença incômoda.
“Comecei a imaginar quantos milhões de pessoas, naquele momento,
estavam certas de que eram inúteis, miseráveis - por mais ricas, charmosas, encantadoras que sejam - porque estavam sós naquela noite, e ontem também, e possivelmente estarão sozinhas amanhã. Estudantes que não encontraram com quem sair, pessoas de idade diante da TV como se fosse a última salvação, homens de negócios em seus quartos de hotel, pensando se o que fazem tem
algum sentido, mulheres que passaram a tarde se maquiando e fazendo o cabelo para irem a um bar, fingir que não procuram companhia, estão apenas
interessadas em confirmar que ainda são atraentes, os homens olham, puxam conversa, e elas descartam qualquer aproximação com um ar superior - porque se sentem inferiores, têm medo do que descubram que são mães solteiras,
empregadas em algo sem importância, incapazes de conversar sobre o que
acontece no mundo, já que trabalham de manhã à noite para sustentar-se e não têm tempo de ler as notícias do dia.
“Pessoas que se olharam no espelho, se julgam feias, acham que a beleza é fundamental, e conformam-se em passar o tempo olhando as revistas onde todos são bonitos, ricos, famosos. Maridos e mulheres que acabaram de jantar,
gostariam de estar conversando como faziam antigamente, mas existem outras preocupações, outras coisas mais importantes, e a conversa pode esperar até um amanhã que não chega nunca. “Na tarde daquele dia, tinha almoçado com uma amiga que acabara de divorciar-se, e me dizia: ‘agora tenho toda a liberdade com que sempre sonhei.’ É mentira! Ninguém quer este tipo de liberdade, todos nós queremos um compromisso, uma pessoa para estar ao nosso lado vendo as
belezas de Genebra, discutindo sobre livros, entrevistas, filmes, ou dividindo um sanduíche, porque o dinheiro não dá para comprar dois. Melhor comer metade de um que comê-lo inteiro. Melhor ser interrompido pelo homem que deseja voltar logo para casa porque existe um importante jogo de futebol na TV, ou pela mulher que pára diante de uma vitrine e interrompe no meio o comentário sobre a torre da catedral - do que ter Genebra inteira para si mesmo, todo o tempo e sossego do mundo para visitá-la.