O Zahir
- Автор: Коэльо Пауло
- Год: 2006
- Язык: португальский
- Жанр: Прочая древняя литература
Электронная книга - «O Zahir». Краткое содержание книги:
O “acomodador”: existe sempre um evento em nossas vidas que é
responsável pelo fato de termos parado de progredir. Um trauma, uma
derrota especialmente amarga, uma desilusão amorosa, até mesmo
uma vitória que não entendemos direito, termina fazendo com que nos
acovardemos e não sigamos adiante. O feiticeiro, no processo de
crescimento de seus poderes ocultos, precisa primeiro livrar-se deste
“ponto acomodador”, e para isso tem que rever sua vida, e descobrir
onde está.
O acomodador! Isso combinava com meu aprendizado de arco-e-flecha - o
único esporte que me atraía - onde o mestre diz que cada tiro não pode ser jamais repetido, não adianta tentar aprender com os acertos ou erros. O que interessa é repetir centenas, milhares de vezes, até que nos livremos da idéia de acertar no alvo, e nos transformemos na flecha, no arco e no objetivo. Neste momento, a energia da “coisa” (meu mestre de kyudo, o tiro com arco japonês que eu
praticava, jamais utilizava a palavra “Deus”) guia os nossos movimentos, e começamos a soltar a flecha não quando desejamos, mas quando a “coisa” acha que chegou a hora.
O acomodador. Uma outra parte da minha história pessoal começa a se
mostrar, como seria bom que Marie estivesse aqui neste momento! Preciso falar de mim, da minha infância, contar que, quando era pequeno, sempre brigava e sempre batia nos outros, porque era o mais velho da turma. Um dia levei uma surra do meu primo, fiquei convencido de que a partir daí nunca mais ia
conseguir ganhar qualquer briga, e desde então evitei qualquer confronto físico, embora muitas vezes tenha passado por covarde, deixando-me humilhar diante de namoradas e amigos.
O acomodador. Tentei durante dois anos aprender a tocar ; progredi muito
no começo, até que chegou um ponto onde não consegui avançar mais - porque descobri que outros aprendiam mais rápido do que eu, senti que era medíocre, resolvi não passar vergonha, decidi que aquilo não me interessava mais. O
mesmo aconteceu com jogo de sinuca, futebol, corrida de bicicleta: aprendia o bastante para fazer tudo razoavelmente, mas chegava um momento em que não conseguia seguir adiante.
Por quê?
Porque a história que nos foi contada diz que em um determinado momento
de nossas vidas “chegamos ao nosso limite”. Mais uma vez eu me lembrava da minha luta para negar meu destino de escritor, e de como Esther jamais havia aceitado que o acomodador ditasse as regras do meu sonho. Aquele simples
parágrafo que acabara de ler combinava com a idéia de esquecer a história pessoal, e ficar apenas com o instinto desenvolvido pelas tragédias e dificuldades que atravessamos: assim agiam os feiticeiros no México, assim pregavam os nômades nas estepes da Ásia Central.
O acomodador: “existe sempre um evento em nossas vidas que é
responsável pelo fato de termos parado de progredir”.
Isso combinava, em gênero, número e grau, com os casamentos em geral, e
com minha relação com Esther em particular.
Sim, eu podia escrever o artigo para a tal revista. Fui para a frente do
computador, em meia hora o rascunho estava pronto, e eu estava contente com o resultado. Narrei uma em forma de diálogo, como se fosse fictícia - mas a conversa tinha acontecido em um quarto de hotel em Amsterdã, depois de um dia de intensa promoção, do jantar de sempre, da visita às atrações turísticas, etc.
No meu artigo, o nome dos personagens e a situação em se encontram são
completamente omitidos. Na vida real, está de camisola, olhando o canal que passa diante de nossa janela. Ainda não é correspondente de guerra, seus olhos continuam alegres, adora o seu trabalho, viaja comigo sempre que pode, e a vida continua a ser uma grande aventura. Estou deitado na cama, em silêncio, minha cabeça está longe dali, pensando na agenda do dia seguinte.
ui fazer uma entrevista na semana passada com um especialista em
interrogatórios policiais. Contou-me sobre como consegue arrancar
- F a maior parte das informações: usando uma técnica que chamam de
“frio/quente”. Começam sempre com um policial violento, que ameaça não
respeitar nenhuma regra, grita, dá socos na mesa. Quando o prisioneiro está apavorado, entra o “bom policial”, exige que pare com aquilo, oferece um
cigarro, torna-se cúmplice do suspeito, e assim consegue o que deseja.
- Eu já sabia disso.
- Entretanto, ele me contou algo que me deixou aterrorizada. Em 1971, um
grupo de pesquisadores da Universidade de Stanford, nos Estados Unidos,
resolveu criar uma prisão simulada para estudar a psicologia dos interrogatórios: selecionaram 24 estudantes voluntários, divididos entre “guardas” e
“criminosos”.
“No final de uma semana, tiveram que interromper a experiência: os
‘guardas’, meninos e meninas com valores normais, educados em boas famílias, tinham se tornado verdadeiros monstros. O uso da tortura passou a ser rotineiro, os abusos sexuais com ‘prisioneiros’ eram vistos como algo normal. Os
estudantes que participaram do projeto - tanto ‘guardas’ como ‘criminosos’
tiveram traumas tão grandes, que precisaram de cuidados médicos por um longo período, e a experiência jamais foi repetida.
- Interessante.
- O que você quer dizer com “interessante”? Estou falando de algo de
suprema importância: a capacidade do homem fazer o mal sempre que tem
oportunidade. Estou falando do meu trabalho, das coisas que tenho aprendido!
- É isso que acho interessante. Por que está irritada?
- Irritada? Como posso estar irritada com alguém que não presta a menor
atenção no que digo? Como posso estar nervosa com uma pessoa que não está me provocando, está apenas deitada, olhando o vazio?
- Você bebeu hoje?
- Pois você não sabe nem mesmo a resposta para esta pergunta, não é
verdade? Eu estava ao seu lado a noite inteira, e você não viu se bebi ou não! Só se dirigia a mim quando desejava que eu confirmasse algo que havia dito, ou quando precisava que eu contasse uma bela história a seu respeito!
- Será que não percebe que estou trabalhando desde de manhã, e estou
exausto? Por que não se deita, dormimos e amanhã conversamos?
- Porque tenho feito isso por semanas, por meses, durante estes dois anos passados! Tento conversar, você está cansado, dormimos e falamos amanhã! E
amanhã existem outras coisas para fazer, um outro dia de trabalho, jantares, dormimos e falaremos no dia seguinte. Assim estou passando minha vida:
aguardando um dia em que possa tê-lo de novo ao meu lado, até que me canse, não peça mais nada, crie um mundo onde possa me refugiar sempre que houver necessidade: um mundo não tão distante para não parecer que tenho uma vida independente, e nem tão próximo, para não parecer que estou invadindo o seu universo.
- O que deseja que eu faça? Que pare de trabalhar? Que deixe tudo que
conseguimos de maneira tão árdua, e façamos um cruzeiro de navio pelas ilhas do Caribe? Não entende que gosto do que faço, e não tenho a menor intenção de mudar de vida?
- Em seus livros, você fala da importância do amor, da necessidade de
aventura, da alegria do combate por seus sonhos. E quem eu tenho agora diante de mim? Alguém que não lê o que escreve. Alguém que confunde amor com
conveniência, aventuras com riscos desnecessários, alegria com obrigação. Onde está o homem com quem me casei, que prestava atenção no que dizia?
- Onde está a mulher com quem me casei?
- Aquela que sempre lhe dava apoio, estímulo, carinho? Seu corpo está
aqui, olhando o canal Singel, em Amsterdã, e penso que continuará ao seu lado pelo resto da vida! Mas a alma desta mulher está na porta deste quarto, pronta para partir.