O Zahir
- Автор: Коэльо Пауло
- Год: 2006
- Язык: португальский
- Жанр: Прочая древняя литература
Электронная книга - «O Zahir». Краткое содержание книги:
- Pode ser. Mas suponhamos que, ao invés de escrever Tempo de rasgar, tempo de costurar, que na verdade é apenas uma carta para uma mulher que está longe, eu tivesse escolhido um outro roteiro, como, por exemplo:
“Marido e mulher estão juntos há dez anos. Faziam amor todos os dias,
agora fazem amor apenas uma vez por semana, mas isso afinal não é tão
importante: existe cumplicidade, apoio mútuo, companheirismo. Ele fica triste quando precisa jantar sozinho porque ela teve que ficar mais tempo no emprego.
Ela lamenta quando ele viaja, mas entende que isso faz parte de sua profissão.
Sentem que alguma coisa começa a faltar, mas são adultos, atingiram a
maturidade, sabem o quanto é importante manter uma relação estável - nem que seja em nome dos filhos. Dedicam-se cada vez mais ao trabalho e às crianças, pensam cada vez menos no casamento - que aparentemente vai muito bem, não existe outro homem ou outra mulher.
“Notam que algo está errado. Não conseguem localizar o problema. A
medida que o tempo passa, vão ficando cada vez mais dependentes um do outro, afinal a idade está chegando, as oportunidades de uma nova vida estão partindo.
Procuram ocupar-se cada vez mais, leitura, bordados, televisão, amigos - mas sempre existe a conversa no jantar, ou a conversa depois do jantar. Ele fica irritado com facilidade, ela fica mais silenciosa do que de costume. Um sabe que o outro está cada vez mais distante, e não entende o porquê. Chegam à conclusão que casamento é assim mesmo, mas se recusam a conversar com seus amigos,
passam a imagem de um casal feliz, que se apóia mutuamente, tem os mesmos interesses. Surge um amante aqui, uma amante ali, nada de sério, claro. O
importante, o necessário, o definitivo é agir como se nada estivesse acontecendo, é tarde demais para mudar.”
- Conheço esta história, embora nunca a tenha vivido. E acho que passamos a vida sendo treinados para aturar situações como essa.
Eu tiro o sobretudo e subo na amurada da fonte. Ela pergunta o que vou
fazer.
- Andar até a coluna.
- É loucura. Já estamos na primavera, a camada de gelo deve estar muito
fina.
- Preciso andar até lá.
Coloco o pé, a capa de gelo move-se inteira, mas não quebra. Enquanto
olhava o nascer do sol, fizera uma espécie de jogo com Deus: se eu conseguisse chegar à coluna e voltar sem que o gelo quebrasse, isso seria um sinal de que estava no caminho certo, de que Sua mão me estava guiando por onde devia
andar.
- Você vai cair na água.
- E daí? O máximo que me arrisco é ficar congelado, mas o hotel não está
longe, e o sofrimento não vai durar.
Coloco o outro pé: agora já estou inteiramente dentro da fonte, o gelo
descola nas bordas, um pouco de água sobe a superfície, mas ele não quebra. Vou andando em direção à coluna, são apenas quatro metros se considerarmos ida e volta, e tudo que arrisco é a possibilidade de um banho frio. Entretanto, nada de pensar no que pode acontecer: já dei o primeiro passo, preciso ir até o final.
Vou caminhando, chego à coluna, toco-a com minha mão, escuto tudo
estalar, mas ainda estou na superfície. Meu primeiro instinto é sair correndo, entretanto algo me diz que, se fizer isso, os passos se tornarão mais firmes, pesados, e eu cairei na água. Tenho que voltar lentamente, no mesmo ritmo.
O sol está nascendo diante de mim, me deixa um pouco cego, vejo apenas a
silhueta de Marie e os contornos dos edifícios e das árvores. A camada de gelo se move cada vez mais, a água continua brotando das bordas, e inundando a
superfície, mas eu sei - eu tenho absoluta certeza - que vou conseguir chegar.
Porque eu estou em comunhão com o dia, com minhas escolhas, conheço os
limites da água congelada, sei como lidar com ela, pedir que me ajude, que não me deixe cair. Começo a entrar em uma espécie de transe, de euforia - sou de novo uma criança, fazendo coisas proibidas, erradas, mas que me dão um imenso prazer. Que alegria! Pactos loucos com Deus, do tipo “se eu conseguir isso, vai acontecer aquilo”, sinais provocados não pelo que vem do exterior, mas pelo instinto, pela capacidade de esquecer as antigas regras e criar novas situações.
Agradeço por ter encontrado Mikhail, o epilético que pensa que escuta
vozes. Fui ao seu encontro em busca de minha mulher, e terminei vendo que eu tinha me transformado em apenas um pálido reflexo de mim mesmo. Esther
continua sendo importante? Penso que sim, foi seu amor que mudou minha vida certa vez, e torna a me transformar agora. A minha história estava velha, cada vez mais pesada de carregar, cada vez mais séria para que eu me permitisse riscos como o de andar em uma fonte, fazendo uma aposta com Deus, forçando um sinal. Havia me esquecido que era preciso refazer sempre o caminho de
Santiago, jogar fora a bagagem desnecessária, manter apenas aquilo que é
necessário para viver cada dia. Deixar que a energia do amor circule livremente, de fora para dentro, de dentro para fora.
Um novo estalo, uma rachadura aparece - entretanto sei que vou conseguir, porque estou leve, levíssimo, podia até mesmo caminhar em uma nuvem, e não cairia na terra. Não carrego o peso da fama, das histórias contadas, dos roteiros a seguir - estou transparente, deixando que os raios de sol atravessem meu corpo e iluminem minha alma. Percebo que ainda existem muitas zonas escuras em mim, mas elas serão limpas aos poucos com perseverança e coragem.
Mais um passo, e a lembrança de um envelope na minha mesa. Em breve
vou abri-lo e, em vez de caminhar no gelo tomarei o caminho que me leva a Esther. Já não é porque a desejo ao meu lado, ela está livre para continuar onde se encontra. Já não é porque sonho dia e noite com o Zahir; a obsessão amorosa, destruidora, parece ter ido embora. Já não é porque me acostumei com meu
passado e desejo ardentemente voltar a ele.
Outro passo, outro estalo, mas a borda salvadora da fonte está chegando.
Abrirei o envelope e irei ao seu encontro, porque - como diz Mikhail, o
epilético, o vidente, o guru do restaurante armênio - esta história precisa terminar. Então, quando tudo tiver sido contado e recontado muitas vezes, quando os lugares que passei, os momentos que vivi, os passos que dei por causa dela se transformarem em lembranças distantes, restará apenas, simplesmente, o amor puro. Não sentirei que estou “devendo” algo, não acharei que preciso dela porque só ela é capaz de me entender, porque estou acostumado, porque conhece meus vícios, minhas virtudes, as torradas que gosto de comer antes de dormir, a televisão nos noticiários internacionais quando acordo, as caminhadas
obrigatórias todas as manhãs, os livros sobre a prática do tiro com arco, as horas passadas diante da tela do computador, a raiva que sinto quando a empregada chama várias vezes dizendo que a comida está na mesa.
Tudo isso irá embora. Fica o amor que move o céu, as estrelas, os homens, as flores, os insetos, e obriga todos a caminhar pela superfície perigosa do gelo, nos enche de alegria e de medo, mas que dá um sentido a tudo.Toco na murada de pedra, uma mão se estende, eu a seguro, ajuda a equilibrar-me e descer.
- Tenho orgulho de você. Eu jamais faria isso.
- Acho que, algum tempo atrás, eu tampouco faria - parece infantil,
irresponsável, desnecessário, sem nenhuma razão prática. Mas estou renascendo, preciso arriscar coisas novas.
- A luz da manha lhe faz bem: você fala como se fosse um sábio.
- Sábios não fazem o que acabo de fazer.
reciso escrever um texto importante para uma revista que tem um
grande crédito comigo no Banco de Favores. Tenho centenas, milhares
P de idéias, mas não sei qual delas merece meu esforço, minha
concentração, meu sangue.
Não é a primeira vez que isso acontece, mas acho que já falei tudo de
importante que precisava, estou perdendo a memória, esquecendo-me de quem sou.