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O Zahir
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Foi minha vez de sentir vontade de contar minha história para aqueles

desconhecidos, começar a libertar-me do meu passado, mas Já era tarde da noite, devia acordar cedo porque o médico iria retirar o colarinho ortopédico no dia seguinte.

Perguntei a Mikhail se ele queria uma carona, e ele disse que não, que

precisava caminhar um pouco, porque naquela noite estava sentindo muitas

saudades de Esther. Deixamos o grupo e nos dirigimos até uma avenida onde podia encontrar um táxi.

- Acho que aquela mulher tem razão - comentei. - Se você conta uma

história, você não se liberta dela?

- Eu estou livre. Mas, ao fazer isso, você também entende - aí está o segredo

- que algumas histórias foram interrompidas no meio. Estas histórias ficam mais presentes, e enquanto não encerramos um capítulo, não podemos partir para o próximo.

Lembrei-me que tinha lido um texto a respeito na Internet, que era atribuído a mim (embora eu jamais o tivesse escrito):

“Por isso é tão importante deixar certas coisas irem embora. Soltar.

Desprender-se. As pessoas precisam entender que ninguém está jogando com

cartas marcadas, às vezes ganhamos e às vezes perdemos. Não espere que

devolvam algo, não espere que reconheçam seu esforço, que descubram seu

gênio, que entendam seu amor. Encerrando ciclos. Não por causa do orgulho, por incapacidade ou por soberba, mas porque simplesmente aquilo já não se encaixa mais na sua vida. Feche a porta, mude o disco, limpe a casa, sacuda a poeira.

Deixe de ser quem era, e se transforme em quem é.”

Mas é melhor confirmar o que Mikhail está dizendo:

- O que são “histórias interrompidas”?

- Esther não está aqui. Em um determinado momento, não conseguiu levar

adiante seu processo de esvaziar-se da infelicidade e permitir a volta da alegria.

Por quê? Porque sua história, assim como a de milhões de pessoas, está presa à energia do amor. Não pode evoluir sozinha: ou deixa de amar ou espera que o seu amado a alcance.

“Nos casamentos fracassados, quando um dos dois pára de caminhar, o

outro é forçado a fazer o mesmo. E enquanto espera, aparecem amantes,

associações beneficentes, excesso de cuidado com os filhos, trabalho compulsivo etc. Seria muito mais fácil falar abertamente sobre o assunto, insistir, gritar: Vamos em frente, estamos morrendo de tédio, de preocupação, de medo.”

- Você acaba de me dizer que Esther não consegue levar adiante o seu

processo de libertar-se da tristeza por minha causa.

- Não disse isso: não acredito que uma pessoa possa culpar a outra, em

nenhuma circunstância. Disse que ela tem a escolha de deixar de amá-lo ou fazê-

lo ir ao seu encontro.

- É isso que ela está fazendo.

- Eu sei. Mas, se depender de mim, só iremos ao seu encontro quando a voz permitir.

ronto, o colarinho ortopédico está saindo de sua vida, e eu espero

que nunca mais retorne. Por favor, tente evitar excessos de

- P movimento, porque os músculos precisam se acostumar de novo a

agir. Por sinal, e a moça das previsões?

- Que moça? Que previsões?

- Você não comentou comigo no hospital que alguém dissera ter ouvido

uma voz dizendo que algo iria lhe acontecer?

- Não é uma moça. E você também comentou no hospital que iria se

informar a respeito de epilepsia.

- Entrei em contacto com um especialista. Perguntei se conhecia casos

semelhantes. Sua resposta me surpreendeu um pouco, mas deixe-me lembrar de novo que a medicina tem seus mistérios. Lembra-se da história do menino que sai de casa com cinco maçãs e volta com duas?

- Sim: pode ter perdido, dado de presente, custaram mais caro, etc. Não se preocupe, sei que para nada existe uma resposta absoluta. Antes de começar, Joana D’Arc tinha epilepsia?

- Meu amigo a mencionou em nossa conversa. Joana D’Arc começou a

escutar vozes com a idade de 13 anos. Seus depoimentos mostram que ela via luzes - o que é um sintoma de ataque. Segundo uma neurologista, Dra. Lydia Bayne, estas experiências extáticas da santa guerreira eram provocadas pelo que chamamos de epilepsia musicogênica, causada por determinada música: no caso de Joana, era o som de sinos. O rapaz teve algum ataque epilético na sua frente?

-Sim.

- Havia alguma música?

- Não me recordo. E mesmo que houvesse, o barulho dos talheres e da

conversa não nos deixaria escutar nada.

- Ele parecia tenso?

-Muito tenso.

- Esta é outra razão para as crises. O tema é mais antigo do que parece: já na Mesopotâmia, existem textos extremamente precisos sobre o que chamavam de

“a doença da queda”, seguida de convulsões. Nossos ancestrais pensavam que era provocada pela presença de demônios que invadiam o corpo de alguém: só muito mais tarde o grego Hipócrates iria relacionar as convulsões a um problema de disfunção cerebral. Mesmo assim, até hoje as pessoas epiléticas ainda são vítimas de preconceito.

- Sem dúvida: quando aconteceu, fiquei horrorizado.

- Quando você me falou da profecia, pedi que meu amigo concentrasse as

suas buscas nesta área. Segundo ele, a maioria dos cientistas concorda que, embora muita gente conhecida tenha sofrido deste mal, ele não confere maiores ou menores poderes a ninguém. Mesmo assim, os famosos epiléticos terminaram fazendo com que as pessoas vissem uma “aura mística em torno dos ataques.

- Famosos epiléticos como por exemplo...

- Napoleão, ou Alexandre o Grande, ou Dante. Precisei limitar a relação de nomes, já que o que lhe intrigava era a profecia do rapaz. Qual é o seu nome, por sinal?

- Você não o conhece e, como sempre que aparece para me ver, logo em

seguida tem uma outra consulta, que tal continuar a explicação?

- Cientistas que estudam a Bíblia garantem que o apóstolo Paulo era

epilético. Tomam como base o fato de que, na estrada de Damasco, ele viu uma luz brilhante ao seu lado, que o jogou no chão, o cegou, e o deixou incapaz de comer e beber por alguns dias. Em literatura médica, isso é considerado como

“epilepsia do lóbulo temporal”.

- Não creio que a Igreja esteja de acordo.

- Acho que nem eu estou de acordo, mas é o que diz a literatura médica.

Existem, também, epiléticos que desenvolvem seu lado autodestrutivo, como foi o caso de Van Gogh: ele descrevia suas convulsões como “tempestades

interiores”. Em Saint-Remy, onde ficou internado, um dos enfermeiros

presenciou um ataque.

- Pelo menos, conseguiu transformar, através de seus quadros, sua

autodestruição em uma reconstrução do mundo.

- Há suspeitas de que Lewis Carroll tenha escrito Alice no País das

Maravilhas para descrever suas próprias experiências com a doença. O relato no início do livro, quando Alice entra em um buraco negro, é familiar à maioria dos epiléticos. Em seu percurso através do País das Maravilhas, Alice vê muitas vezes coisas voando e sente seu corpo muito leve - outra descrição muito precisa dos efeitos do ataque.

- Então, parece que os epiléticos têm propensão à arte.

- De jeito nenhum: o que acontece é que, como artistas geralmente se

tornam famosos, estes temas terminam se associando um ao outro. A literatura está cheia de exemplos de escritores com suspeita ou com diagnóstico

confirmado: Mouere, Edgar Allan Poe, Flaubert. Dostoievski teve seu primeiro ataque com nove anos, e diz que isso o levava a momentos de grande paz com a vida e a momentos de grande depressão. Por favor, não fique impressionado, e não comece a achar que você também pode ser vítima disso depois do acidente.

Não me lembro de nenhum caso de epilepsia provocado por uma motocicleta.

- Já disse que se trata de alguém que conheço.

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