O Zahir
- Автор: Коэльо Пауло
- Год: 2006
- Язык: португальский
- Жанр: Прочая древняя литература
Электронная книга - «O Zahir». Краткое содержание книги:
“Portanto, resolveu largar tudo e ir em busca de aventura de coisas que não a deixassem pensar no amor que desmoronava; quanto mais se buscava, mais se perdia, e mais se sentia sozinha. Acha que tinha perdido para sempre o seu rumo, e a experiência que tínhamos acabado de viver lhe mostrava que estava errada, era melhor voltar para a sua rotina diária.
“Digo que podemos tentar outra trilha menos vigiada, conheço
contrabandistas em Almaty que podem nos ajudar - mas ela me parece sem
energia, sem vontade de continuar adiante.
“Neste momento a voz me pede que eu a consagre à Terra. Sem saber
exatamente o que estou fazendo, levanto-me, abro a mochila, molho meus dedos no pequeno vidro de óleo que tínhamos levado para cozinhar, coloco a mão em sua testa, oro em silêncio, e no final peço que continue sua busca, porque ela é importante para todos nós. A voz me dizia, e eu repetia para ela, que a mudança de uma só pessoa significa a mudança de toda a raça humana. Ela me abraça, sinto que a Terra a está abençoando, ficamos assim, juntos, por horas seguidas.
“No final, pergunto se acredita no que lhe contei sobre a voz que escuto. Ela diz que sim e que não. Acredita que todos nós temos um poder que jamais
utilizamos, e ao mesmo tempo pensa que eu entrei em contacto com este poder por causa de meus ataques epiléticos. Mas que podemos verificar isso juntos; pensava em entrevistar um nômade que vive ao norte de Almaty, e que todos diziam ter poderes mágicos; se eu quiser acompanhá-la, serei bem-vindo. Quando me diz seu nome, me dou conta que conheço o neto dele, e acho que isso vai facilitar tudo.”
Cruzamos Almaty, paramos apenas para encher o tanque de gasolina e
comprar algumas provisões, seguimos em direção um pequeno vilarejo perto de um lago artificial construído pelo regime soviético. Vou até onde o nômade vive, e mesmo dizendo a um de seus assistentes que conheço seu neto, temos que
esperar muitas horas, existe uma multidão esperando sua vez para ouvir os conselhos daquele que consideram um santo.
“Finalmente, somos atendidos: ao traduzir a entrevista, e ao ler muitas
vezes a reportagem quando foi publicada, aprendo várias coisas que desejava saber.
“Esther pergunta por que as pessoas são tristes.
“É simples, responde o velho. Elas estão presas à sua história pessoal. Todo mundo acredita que o objetivo desta vida é seguir um plano. Ninguém se
pergunta se este plano é seu, ou foi criado por outra pessoa. Acumulam
experiências, memórias, coisas, idéias dos outros, que é mais do que podem carregar. E portanto, esquecem seus sonhos.”
“Esther comenta que muita gente lhe diz: ‘você tem sorte, sabe o que quer da vida: pois eu não sei o que desejo fazer.’
“Claro que sabem, responde o nômade. Quantas pessoas a senhora conhece
que vivem comentando: ‘não fiz nada que desejava, mas isso é a realidade.’ Se dizem que não fizeram o que desejavam, sabiam então o que queriam. Quanto à realidade, é apenas a história que os outros contaram a respeito do mundo, e de como devíamos nos comportar nele.
“E quantas dizem algo pior: ‘estou contente porque sacrifico minha vida
pelas pessoas que amo.’
‘A senhora acha que as pessoas que nos amam desejam nos ver sofrendo
por elas? A senhora acha que o amor é fonte de sofrimento?
“Para ser sincera, acho que sim.”
“Pois não devia ser.
“Se esqueço a história que me contaram, esquecerei também coisas muito
importantes que a vida me ensinou. Porque me esforcei para aprender tanto? Por que me esforcei para ter experiência, de modo a saber lidar com minha carreira, meu marido e minhas crises?
“Conhecimento acumulado serve para cozinhar, não gastar mais do que
ganha, abrigar-se no inverno, respeitar alguns limites, saber para onde vão certas linhas de ônibus e trem. Entretanto, acredita que seus amores passados a
ensinaram a amar melhor?
“Ensinaram-me a saber o que desejo.
“Não perguntei isso. Os seus amores passados a ensinaram a amar melhor o
seu marido?
“Ao contrário. Para poder entregar-me completamente a ele, tive que
esquecer as cicatrizes que outros homens deixaram. É disso que o senhor está falando?
“Para que a verdadeira energia do amor possa atravessar sua alma, ela tem que encontrá-la como se você tivesse acabado de nascer. Por que as pessoas são infelizes? Porque querem aprisionar esta energia, o que é impossível. Esquecer a história pessoal é manter este canal limpo, deixar que cada dia esta energia se manifeste como deseja, permitir-se ser guiada por ela.
“Muito romântico, mas muito difícil. Porque sempre esta energia está presa a muita coisa: compromissos, filhos, situação social...
“... e depois de algum tempo, desespero, medo, solidão, tentativa de
controlar o incontrolável. Segundo a tradição das estepes, chamada Tengri, para viver com plenitude era preciso estar em constante movimento, e só assim cada dia era diferente do outro. Quando passavam pelas cidades, os nômades
pensavam: ‘coitadas das pessoas que vivem aqui, para elas tudo é igual -
possivelmente as pessoas da cidade olhavam os nômades e pensavam: ‘coitados, não conseguem ter um lugar para viver.’ Os nômades não tinham passado, apenas presente, e por causa disso sempre eram felizes - até que os governantes
comunistas os obrigaram a parar de viajar, e os prenderam em fazendas coletivas.
A partir daí, pouco a pouco começaram a acreditar na história que a sociedade dizia ser a certa. Hoje perderam sua força.
“Ninguém, hoje em dia, pode passar suas vidas viajando.
“Não podem viajar fisicamente. Mas podem fazer isso no plano espiritual.
Ir cada vez mais longe, distanciar-se da história pessoal, daquilo que nos forçaram a ser.
“O que fazer para abandonar esta história que nos contaram?
“Repeti-la em voz alta, nos seus menores detalhes. E, à medida que
contamos, nos despedimos do que já fomos e - você verá, se resolver tentar -
abrimos espaço para um mundo novo, desconhecido. Repetiremos esta história antiga muitas vezes, até que ela já não seja importante para nós.
“Só isso?
“Falta um detalhe: à medida que os espaços vão sendo esvaziados, para
evitar que nos causem um sentimento de vazio, é preciso preenchê-los
rapidamente - mesmo que seja de maneira provisória.
“Como?
“Com histórias diferentes, experiências que não ousamos ter, ou que não
queremos ter. Assim mudamos. Assim o amor cresce. E quando cresce o amor, crescemos com ele.
“Isso também significa que podemos perder coisas que são importantes.
“Jamais. As coisas importantes sempre ficam - o que vai embora são as
coisas que julgávamos importantes, mas são inúteis - como o falso poder de controlar a energia do amor.”
O velho diz que ela já usou seu tempo, e precisa atender outras pessoas. Por mais que eu insista, ele mostra-se inflexível mas sugere que Esther volte algum dia, e lhe ensinará mais.
“Esther fica em Almaty por mais uma semana, e promete voltar. Durante
este tempo, eu conto minha história muitas vezes para ela, e ela me conta muitas vezes sua vida - e percebemos que o velho tem razão, alguma coisa está saindo de nós, estamos mais leves, embora não possamos dizer que estamos mais
felizes.
“Mas o velho deu um conselho: preencher rápido o espaço vazio. Antes de
partir, ela pergunta se não quero viajar para a França, para que possamos continuar o processo de esquecimento. Não tem com quem compartilhar isso, não pode falar com seu marido, não confia nas pessoas com quem trabalha; necessita de alguém de fora, de longe, que nunca participou de sua história pessoal até aquela data.