O Zahir
- Автор: Коэльо Пауло
- Год: 2006
- Язык: португальский
- Жанр: Прочая древняя литература
Электронная книга - «O Zahir». Краткое содержание книги:
“Digo que sim - e só neste momento menciono a profecia da voz. Digo
também que não sei falar a língua, e que minha experiência se resume a cuidar de ovelhas e de postos de gasolina.
“No aeroporto, pede que eu faça um curso intensivo de francês. Pergunto
por que me convidou. Ela repete o que já havia me dito, confessa que tem medo do espaço que está abrindo à medida que esquece sua história pessoal, teme que tudo volte com mais intensidade do que antes, e aí já não conseguirá mais se libertar do seu passado. Pede que não me preocupe com passagem ou vistos, ela cuidará de tudo. Antes de passar pelo controle de passaporte, olha para mim sorrindo e diz que também estava me esperando, mesmo que não soubesse:
aqueles dias tinham sido os mais alegres destes últimos três anos.
“Passo a trabalhar à noite, como guarda-costas em um clube de strip-tease, e durante o dia me dedico a aprender francês. Curiosamente, os ataques diminuem, mas a presença também se afasta. Comento com minha mãe que fui convidado
para viajar, ela diz que sou muito ingênuo, esta mulher jamais tornará a dar notícias.
“Um ano depois, Esther aparece em Almaty: a guerra esperada já
aconteceu, alguém já tinha publicado um artigo sobre as bases secretas
americanas, mas a entrevista com o velho fizera muito sucesso, e agora queriam uma grande reportagem sobre o desaparecimento dos nômades. Além do mais,
diz ela, faz tempo que não conto histórias para ninguém, estou de novo entrando em depressão.
“Eu a ajudo a entrar em contacto com as poucas tribos que ainda viajam,
com a tradição Tengri, e com os feiticeiros locais. Estou falando francês fluentemente: durante um jantar, ela me dá os papéis do consulado para
preencher, consegue o visto, compra o bilhete, e venho para Paris. Tanto ela como eu reparamos que, à medida que esvaziávamos nossas cabeças de histórias já velhas e vividas, um espaço novo era aberto, uma misteriosa alegria entrava, a intuição se desenvolvia, ficávamos mais corajosos, arriscávamos mais, fazíamos coisas que julgávamos erradas ou certas - mas fazíamos. Os dias eram mais intensos, custavam a passar.
“Chegando aqui, pergunto onde vou trabalhar, mas ela já tem seus planos:
conseguiu com o dono de um bar que eu me apresentasse uma vez por semana
ali, disse que em meu país existe uma espécie de espetáculo exótico, onde as pessoas falam de suas vidas e esvaziam suas cabeças.
“No início, é muito difícil fazer com que os poucos fregueses participem do jogo, mas os mais bêbados se entusiasmam, a estória corre pelo quarteirão.
‘Venha contar sua história velha, e descobrir uma história nova’, diz o pequeno cartaz escrito à mão na vitrine, e as pessoas, sedentas de novidade, começam a aparecer.
“Certa noite, experimento algo estranho: não sou eu quem está no pequeno
palco improvisado no canto do bar, é a presença. E em vez de contar as lendas de meu país, para logo em seguida sugerir que contassem suas histórias, eu
transmito o que a voz me pede. No final, um dos espectadores estava chorando, e comenta detalhes íntimos do seu casamento com os estranhos ali presentes.
“A mesma coisa se repete na semana seguinte - a voz fala por mim, pede
que as pessoas contem apenas histórias de desamor, e a energia no ar era tão diferente que os franceses, mesmo sendo discretos, começam a discutir em
público seus assuntos pessoais. Também é a essa altura de minha vida que
consigo controlar melhor os ataques: quando vejo luzes e sinto o vento, mas estou no palco, entro em transe, perco a consciência, sem que ninguém perceba.
Só tenho as ‘crises de epilepsia’ em momentos de grande tensão nervosa.
“Outras pessoas se juntam ao grupo: três jovens da minha idade, que nada
tinham para fazer, a não ser viajar pelo mundo - eram os nômades do mundo ocidental. Um casal de músicos do Casaquistão, que ouvira falar no ‘sucesso’ que estava fazendo um rapaz de sua terra, pede para participar do espetáculo, já que não consegue nenhum emprego. Incluímos instrumentos de percussão no
encontro. O bar fica pequeno, conseguimos um espaço no restaurante onde agora nos apresentamos, mas que também já está ficando pequeno, porque quando as pessoas contam suas histórias, sentem mais coragem. São tocadas pela energia enquanto dançam, começam a mudar radicalmente, a tristeza vai desaparecendo de suas vidas, as aventuras recomeçam, o amor - que teoricamente seria
ameaçado por tantas mudanças - fica mais sólido, elas recomendam nosso
encontro aos seus amigos.
“Esther continua viajando para fazer seus artigos, mas vai assistir ao
espetáculo sempre que está em Paris. Uma noite, me diz que o trabalho no
restaurante não basta, atinge apenas pessoas que têm dinheiro para freqüentá-lo.
Precisamos trabalhar com jovens. Onde estão estes jovens, pergunto?
Caminhando, viajando, largaram tudo, vestem-se como mendigos ou personagens de filme de ficção científica.
“Diz também que os mendigos não têm história pessoal, por que não vamos
até eles ver o que aprendemos? E foi assim que encontrei vocês aqui.
“Estas são as coisas que vivi. Vocês jamais perguntaram quem sou eu, o
que faço, porque não lhes interessa. Mas hoje, por causa do escritor famoso que nos acompanha, resolvi contá-la.”
- Mas você fala do seu passado - disse a mulher com casaco e chapéu que
não combinavam. - Embora o velho nômade...
- O que é nômade? - interrompe alguém.
- Gente como nós - ela responde, orgulhosa de saber o significado da
palavra. - Gente livre, que consegue viver apenas com o que consegue carregar.
Eu corrijo:
- Não é assim exatamente. Não são pobres.
- O que você sabe de pobreza? - De novo o homem alto, agressivo, e desta
vez com mais vodca correndo em seu sangue, me olha diretamente nos olhos. -
Acha que pobreza é não ter dinheiro? Acha que somos miseráveis, só porque estamos pedindo esmolas a gente como escritores ricos, casais que se sentem culpados, turistas que acham Paris uma cidade suja, de idealistas que pensam que podem salvar o mundo? Você pobre - não controla seu tempo, não tem direito a fazer o que quer, é obrigado a seguir regras que não inventou e que não
compreende.
De novo Mikhail interrompe a conversa.
- O que a senhora queria mesmo saber?
- Queria saber por que contou sua história, se o velho nômade disse para
esquecê-la.
- Não é mais minha história: cada vez que falo das coisas que passei, sinto-me como se estivesse relatando algo completamente afastado de mim. Tudo que permanece no presente é a voz, a presença, a importância de cumprir a missão.
Não sofro pelas dificuldades vividas - acho que foram elas que me ajudaram a ser quem sou agora. Sinto-me como deve sentir-se um guerreiro depois de haver passado por anos de treinamento: não se lembra dos detalhes de tudo que
aprendeu, mas sabe dar o golpe na hora certa.
- E por que você e a jornalista sempre vinham nos visitar?
- Para alimentar-nos. Como disse o velho nômade na estepe, o mundo que
conhecemos hoje é apenas uma história que nos contaram, mas essa não é a
verdadeira história. A outra história inclui os dons, os poderes, a capacidade de ir muito mais além do que aquilo que conhecemos. Embora eu conviva com uma
presença desde criança, e por um momento de minha vida fui inclusive capaz de vê-la, Esther mostrou-me que não estava sozinho. Apresentou-me a pessoas com dons especiais, como o de entortar talheres com a força do pensamento, ou fazer cirurgias usando canivetes enferrujados, sem anestesia, com o paciente sendo capaz de voltar a sair andando imediatamente após a operação.
“Eu ainda estou aprendendo a desenvolver meu potencial desconhecido,
mas preciso de aliados, de gente que tampouco tenha uma história - como vocês.”