O Zahir
- Автор: Коэльо Пауло
- Год: 2006
- Язык: португальский
- Жанр: Прочая древняя литература
Электронная книга - «O Zahir». Краткое содержание книги:
- E o que quer? Viver no topo do mundo? Quem lhe garante que a
montanha é melhor que a planície? Acha que não sabemos viver, não é verdade?
Pois sua mulher entendia que sabemos per-fei-ta-men-te o que desejamos da vida! Sabe o que desejamos? Paz! E tempo livre! E não sermos obrigados a
seguir a moda - aqui fazemos nosso próprio figurino! Bebemos quando temos vontade, dormimos onde achamos melhor! Ninguém aqui escolheu a escravidão, e temos muito orgulho disso, embora vocês achem que somos uns coitados!
As vozes começaram a ficar agressivas. Mikhail interrompe:
- Querem ouvir o resto de minha história, ou desejam que nos retiremos
agora?
- Ele está nos criticando! - comenta o da perna de metal. -Veio até aqui para nos julgar, como se fosse Deus!
Escutam-se alguns resmungos, alguém bate no meu ombro, ofereço um
cigarro, a garrafa de vodca passa de novo pela minha mão. Os ânimos vão
serenando pouco a pouco, eu continuo surpreso e chocado pelo fato daquelas pessoas conhecerem Esther - pelo visto, conheciam melhor que eu mesmo,
tinham ganho um pedaço de roupa manchada de sangue.
Mikhail continua sua história:
- Já que não tinha onde estudar, e ainda era uma criança para cuidar de
cavalos, o orgulho de nossa região e de nosso país, vou trabalhar como pastor. Na primeira semana, uma das ovelhas morre, e corre o boato de que sou um menino amaldiçoado, filho de um homem que tinha vindo de longe, prometera riquezas para minha mãe e terminara nos deixando sem nada. Apesar dos comunistas
garantirem que a religião era apenas uma maneira de dar falsas esperanças aos desesperados, embora todos ali tivessem sido educados na certeza de que existe apenas a realidade, e tudo que nossos olhos não podem ver é apenas fruto da imaginação humana, as antigas tradições da estepe permanecem intocadas,
passam de boca a boca através de gerações.
“Desde a destruição do arbusto, eu não posso mais ver a menina, entretanto continuo escutando sua voz; peço que me ajude a cuidar dos rebanhos, ela me diz para ter paciência, tempos difíceis iriam chegar, mas antes que eu faça 22 anos uma mulher virá de longe e me levará para conhecer o mundo. Me diz também que eu tinha uma missão a cumprir, e essa missão era ajudar a espalhar a
verdadeira energia do amor pela face da Terra.
“O dono das ovelhas fica impressionado pelos boatos que circulam cada vez com mais intensidade - e quem lhe conta, quem tenta destruir minha vida são justamente as pessoas que a menina tinha ajudado durante um ano. Um dia,
resolve ir ate o escritório do partido comunista na aldeia ao lado, e descobre que tanto eu como minha mãe somos considerados inimigos do povo. Sou
imediatamente despedido. Mas isso não afeta muito nossa vida, já que minha mãe trabalha como bordadeira para uma indústria na maior cidade da região, lá ninguém sabe que somos inimigos do povo e da classe operária, tudo que os diretores da fábrica desejam é que ela continue produzindo seus bordados do alvorecer ao anoitecer.
“Como tenho todo o tempo livre do mundo, ando pela estepe, acompanho
os caçadores - que conhecem também minha história, mas me atribuem poderes mágicos, pois sempre encontram raposas quando estou por perto. Passo dias inteiros no museu do poeta, olhando suas coisas, lendo seus livros, escutando as pessoas que vinham ali repetir seus versos. De vez em quando sinto o vento, vejo as luzes, caio por terra - e nestes momentos a voz sempre me diz coisas bastante concretas, como os períodos de seca, as pestes com animais, a chegada de
comerciantes. Eu não conto para ninguém, exceto para minha mãe, que cada vez fica mais aflita e preocupada comigo.
“Em uma destas ocasiões, quando um médico passa pela região, ela me leva
para uma consulta; depois de ouvir atentamente minha história, tomar notas, olhar dentro de meus olhos com um aparelho, auscultar meu coração, martelar meu joelho, ele diagnostica um tipo de epilepsia. Diz que não é contagioso, os ataques vão diminuir com a idade.
“Eu sei que não se trata de uma doença; mas finjo acreditar, para deixar
minha mãe tranqüila. O diretor do museu, que nota meu esforço desesperado para aprender alguma coisa, fica com pena e começa a substituir os mestres na escola: aprendo geografia, literatura. Aprendo a coisa que seria mais importante para mim no futuro: falar inglês. Uma tarde, a voz me pede para dizer ao diretor que em pouco tempo ele ocupará um cargo importante. Quando comento isso, tudo que escuto é um riso tímido e uma resposta direta: não há a menor possibilidade, porque jamais se alistou no partido comunista; é muçulmano convicto.”
Eu estou com 15 anos. Dois meses depois de nossa conversa, sinto que
alguma coisa diferente está acontecendo na região: os antigos funcionários públicos, sempre tão arrogantes, estavam mais gentis que nunca, e me
perguntavam se queria voltar a estudar. Grandes comboios de militares russos tomam o rumo da fronteira. Certa tarde, enquanto estudo na escrivaninha que tinha pertencido ao poeta, o diretor entra correndo, me olha com espanto e um certo desconforto: diz que a última coisa que podia acontecer no mundo - o colapso do regime comunista - estava ocorrendo com uma rapidez incrível. As antigas repúblicas soviéticas agora se transformavam em países independentes, as notícias que chegavam de Almaty falavam da formação de um novo governo, e ele tinha sido indicado para governar a província!
“Ao invés de abraçar-me e ficar contente, ele me pergunta como sabia que
isso ia acontecer: escutara alguém falar alguma coisa? Tinha sido contratado pelo serviço secreto para espioná-lo, já que ele não pertencia ao partido? Ou - o que era pior que tudo - em algum momento de minha vida fizera um pacto com o
diabo?
“Respondo que ele conhece minha história: as aparições da menina, a voz,
os ataques que me permitiam escutar coisas que outras pessoas não sabiam. Ele disse que tudo isso não passa de doença; existia apenas um profeta, Mohammed, e tudo que tinha que ser dito já fora revelado. Mas apesar disso, continua ele, o demônio permanecia neste mundo, usando todo tipo de artifício - inclusive a pretensa capacidade de ver o futuro - para enganar os fracos e afastar as pessoas da verdadeira fé. Tinha me dado um emprego porque o Islã exige que os homens pratiquem a caridade, mas agora estava profundamente arrependido: ou eu era um instrumento do serviço secreto ou era um enviado do demônio.”
Sou despedido na mesma hora.
“Os tempos, que antes já não eram fáceis, passaram a ser mais difíceis
ainda. A fábrica de tecidos para a qual minha mãe trabalha, e que antes pertencia ao governo, termina passando para as mãos de particulares - os novos donos têm outras idéias, reestruturam o projeto, e ela termina sendo despedida. Dois meses depois já não temos mais como nos sustentar, a única coisa que resta é deixar a aldeia onde passara toda a minha vida, e ir em busca de emprego.
“Meus avós se recusam a partir; preferem morrer de fome a deixar a terra
onde tinham nascido e passado suas vidas. Eu e minha mãe vamos para Almaty, e conheço a primeira cidade grande: fico impressionado com os carros, os
gigantescos edifícios, os anúncios luminosos, as escadas rolantes e - sobretudo -
os elevadores. Mamãe consegue emprego de recepcionista em uma loja, e vou trabalhar como ajudante de mecânico em um posto de gasolina. Grande parte de nosso dinheiro é enviado para meus avós, mas sobra suficiente para comer, e ver coisas que jamais tinha visto: cinema, parque de diversões, jogos de futebol.
“Com a mudança de cidade, os ataques cessam, mas a voz e a presença da
menina também desaparecem. Acho melhor assim, não sinto falta da amiga
invisível que me acompanhava desde os oito anos de idade, estou fascinado com Almaty e ocupado em ganhar a vida; aprendo que, com um pouco de inteligência, poderei finalmente chegar a ser alguém importante. Até que certa noite de domingo, quando estou sentado perto da única janela de nosso pequeno