O Zahir
- Автор: Коэльо Пауло
- Год: 2006
- Язык: португальский
- Жанр: Прочая древняя литература
Электронная книга - «O Zahir». Краткое содержание книги:
Nada acontece durante uma semana, e começo a acreditar que minha mãe tem razão: devo ter dormido sem querer e sonhado com aquilo.”
Entretanto, desta vez indo para a escola de manhã bem cedo, vejo de novo a menina flutuando no ar, com a luz branca ao seu redor: não caí no chão, nem vi luzes. Ficamos algum tempo olhando um para o outro, ela sorri, eu sorrio de volta, pergunto seu nome, não obtenho resposta. Quando chego ao colégio
pergunto a meus colegas se alguma vez viram uma menina flutuando no ar.
Todos riem.
“Durante a aula sou chamado na sala do diretor. Ele me explica que devo
ter um problema mental - visões não existem: tudo no mundo é apenas a
realidade que vemos, e a religião foi inventada para enganar o povo. Pergunto sobre a mesquita da cidade; diz que são apenas velhos supersticiosos que a freqüentam, gente ignorante, desocupada, sem energia para ajudar a reconstruir o mundo socialista. E faz uma ameaça: se eu tornar a repetir aquilo, serei expulso.
Estou apavorado, peço que não diga nada a minha mãe; ele promete fazer isso se eu disser aos meus companheiros que inventei a história.
“Ele cumpre sua promessa, eu cumpro a minha. Meus amigos não dão
muita importância ao fato, sequer me pedem para que eu os leve até onde se encontra a menina. Mas a partir deste dia, durante um mês inteiro, ela continua a aparecer. Às vezes eu desmaio antes, às vezes nada acontece. Não conversamos, apenas ficamos juntos pelo tempo que ela decide permanecer ali. Minha mãe começa a ficar inquieta, já não chego em casa sempre à mesma hora. Uma noite, me força a dizer o que estou fazendo entre a escola e a casa: eu repito a história da menina.
Para minha surpresa, ao invés de repreender-me mais uma vez. ela diz que
irá até o local comigo. No dia seguinte, acordamos mais cedo, chegamos ali, a menina aparece, mas ela não consegue vê-la. Minha mãe pede que lhe pergunte sobre meu pai. Não entendo a pergunta, mas faço o que ela sugere: e então, pela primeira vez, escuto a Voz. A menina não mexe seus lábios, mas sei que está falando comigo: diz que meu pai está ótimo, nos protege, e o sofrimento que teve durante o tempo que passou na Terra está sendo recompensado agora. Sugere que eu comente com minha mãe a história do aquecedor. Repito o que ouvi, ela
começa a chorar, diz que a coisa que meu pai mais gostava na vida era ter um aquecedor ao seu lado, por causa do tempo que passou na guerra. A menina pede que, da próxima vez que passe por ali, amarre em um pequeno arbusto uma fita de tecido com um pedido.
“As visões acontecem durante um ano inteiro. Minha mãe comenta com
suas amigas de confiança, que comentam com outras amigas, e agora o pequeno arbusto está cheio de fitas amarradas. Tudo é feito no maior segredo: as mulheres perguntam por seus entes queridos que desapareceram, eu escuto as respostas da
‘voz’ e transmito as mensagens. Na maioria das vezes, todos estão bem - apenas em dois casos a menina ‘pede’ que o grupo vá até uma colina próxima e, no momento do sol nascer, faça uma oração sem palavras pela alma destas pessoas.
As pessoas me contam que às vezes entro em transe, caio no chão, digo coisas sem sentido - nunca consigo me lembrar. Sei apenas quando o transe se
aproxima: noto um vento quente e vejo bolas de luzes ao meu redor.
“Um dia, quando estou levando um grupo ao encontro da menina, somos
impedidos por uma barreira de policiais. As mulheres protestam, gritam, mas não conseguimos passar. Sou escoltado até a escola, onde o diretor me diz que acabo de ser expulso por provocar rebelião e promover a superstição.
“Na volta, vejo o arbusto destruído, as fitas espalhadas pelo chão. Sento-me ali, sozinho e chorando, porque aqueles tinham sido os dias mais felizes da minha vida. Neste momento, a menina torna a aparecer. Diz que não me preocupe, que tudo estava programado, inclusive a destruição do arbusto. E que, a partir daquele momento, ela irá me acompanhar pelo resto de meus dias e me dirá
sempre o que devo fazer.”
- Ela nunca lhe disse seu nome? - pergunta um dos mendigos.
- Jamais. Não tem importância: eu sei quando ela fala comigo.
- Poderíamos saber agora alguma coisa sobre nossos mortos?
- Não. Isso aconteceu apenas naquela época, agora minha missão é outra.
Posso continuar a história?
- Deve continuar - digo eu. - Mas antes quero que saiba uma coisa. No
sudoeste da França, existe um lugar chamado Lourdes; há muito tempo, uma
pastora viu uma menina que parece corresponder à sua visão.
- Você está enganado - comenta um velho mendigo, com uma perna de
metal. - A tal pastora, que se chamava Bernadette, viu a Virgem Maria.
- Como escrevi um livro a respeito das aparições, precisei estudar
cuidadosamente o assunto - respondo. - Li tudo que foi publicado no final do século XIX, tive acesso aos muitos depoimentos de Bernadette para a polícia, a igreja, os estudiosos. Em momento algum ela afirma que viu uma mulher: insiste que era uma menina. Repetiu a mesma história pelo resto de sua vida, irritou-se profundamente com a estátua que foi colocada na gruta; diz que não tinha
nenhuma semelhança à visão - ela tinha visto uma criança, e não uma senhora.
Mesmo assim, a Igreja apropriou-se da história, das visões, do lugar, transformou a aparição na Mãe de Jesus, e a verdade foi esquecida; uma mentira repetida muitas vezes, termina convencendo todo mundo. A única diferença é que a tal
“pequena garota” - como insistia Bernadette - disse seu nome.
- E qual era? - pergunta Mikhail.
- “Eu sou a Imaculada Conceição.” O que não é um nome como Beatriz,
Maria, Isabelle. Ela se descreve como um fato, um evento, um acontecimento, que poderíamos traduzir por “eu sou o parto sem sexo”. Por favor, continue sua história.
- Antes que ele continue a história, posso lhe perguntar uma coisa? - diz um mendigo que deve ter aproximadamente a minha idade. - Você acaba de dizer que escreveu um livro: qual o título?
- Escrevi muitos.
E digo o título do livro no qual menciono a história de Bernadette e sua
visão.
- Então você é o marido da jornalista?
- Você é o marido de Esther? - uma mendiga, com roupas espalhafatosas,
um chapéu verde e casaco púrpura, está com seus olhos arregalados.
Eu não sei o que responder.
- Por que ela não tem aparecido mais aqui? - comenta outro. - Espero que
não tenha morrido! Vivia sempre em lugares perigosos, mais de uma vez eu lhe disse que não devia fazer isso! Olha só o que ela me deu!
E mostra o mesmo pedaço de tecido manchado de sangue: parte da camisa
do soldado morto.
- Não morreu - eu respondo. - Mas me surpreende que ela tenha andado por
aqui.
- Por quê? Porque somos diferentes?
- Você não entendeu: não estou julgando quem são. Estou surpreso, estou
alegre em saber disso.
Mas a vodca para espantar o frio está fazendo efeito em todos nós.
- Você está sendo irônico - diz um homem forte, de cabelos longos e barba de muitos dias. - Saia daqui, já que deve acreditar que está em péssima
companhia.
Acontece que eu também bebi, e isso me dá coragem.
- Quem são vocês? Que tipo de vida é essa que escolheram? Têm saúde,
podem trabalhar, mas preferem ficar sem fazer nada!
- Somos gente que escolheu ficar de fora, entende? De o fora desse mundo
que está caindo aos pedaços, dessa gente que vive com medo de perder alguma coisa, dessas pessoas que passam pela rua como se tudo estivesse bem, quando tudo está mal, muito mal! Você também não mendiga? Não pede uma esmola
para o seu patrão, para o proprietário do seu imóvel?
- Você não tem vergonha de estar desperdiçando sua vida? - pergunta a
mulher vestida de púrpura.
- Quem disse que estou desperdiçando minha vida? Faço o que quero!
O homem forte interferiu: