Sherlock Holmes - Edicao completa [calibre 0.9.23]
- Автор: Конан Дойл Артур
- Серия: Aventura #14
- Год: 2000
- Язык: португальский
- Жанр: Классические детективы
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O atentado deveria ocorrer na noite seguinte. Ao meio-dia, eu e meu marido estávamos a caminho de Londres, não sem antes avisar nosso benfeitor do perigo, e também deixando informações à polícia para proteger a vida dele no futuro.
O resto os senhores já sabem. Tínhamos certeza de que nossos inimigos ficariam atrás de nós como sombras. Gorgiano tinha motivos pessoais para a vingança, mas, de qualquer modo, sabíamos como ele poderia ser impiedoso, esperto e incansável. Tanto a Itália como a América estão repletas de histórias de seu terrível poder. Se ele tivesse de colocá-lo em ação, seria agora.
Meu marido deu um jeito de me arranjar um esconderijo nos poucos dias que tínhamos de vantagem na fuga, a fim de que eu não ficasse exposta a nenhum perigo. Ele, por sua vez, queria estar livre para entrar em contato tanto com a polícia italiana como a americana. Eu mesma não sei onde ele morava, nem como. Tudo o que sabia era através das páginas de um jornal. Uma vez, ao olhar pela janela, vi dois italianos vigiando a casa e soube que Gorgiano, de alguma forma, descobrira nosso esconderijo. Finalmente Gennaro me falou, pelo jornal, que enviaria sinais de uma determinada janela; mas quando esses sinais vieram, nada mais eram do que avisos de alerta, subitamente interrompidos. Agora está claro para mim que Gennaro sabia que Gorgiano estava por perto e, graças a Deus, meu marido estava preparado quando o outro chegou. E agora, senhores, eu lhes pergunto se temos algo a temer da lei, ou se algum juiz no mundo iria condenar meu marido pelo que ele fez.
– Bem, sr. Gregson – disse o americano encarando o policial –, eu não sei qual o ponto de vista da lei britânica a respeito disso, mas creio que em Nova York o marido desta senhora vai receber um voto de agradecimento geral.
– Ela terá de vir comigo e falar com o chefe – respondeu Gregson. – Se o que disse for comprovado, creio que ela e o marido não têm muito a temer. Mas o que não entendo, sr. Holmes, é como diabo o senhor entrou nesta história.
– Cultura, Gregson, cultura. Ainda procurando conhecimento na velha universidade. Bem, Watson, aí você tem mais um exemplo do trágico e do grotesco para acrescentar à sua coleção. A propósito, ainda não são oito horas, e esta noite tocam Wagner no Covent Garden! Se nós nos apressarmos, ainda poderemos pegar o segundo ato.
o caso dos planos do bruce-partington
Na terceira semana de novembro de 1895, Londres foi envolvida por um nevoeiro denso e escuro. De segunda a quinta-feira eu duvidei se seria possível, de nossa janela em Baker Street, ver a fachada das casas em frente. Holmes passou o primeiro dia catalogando seu volumoso livro de referências; no segundo e terceiro dias, ficou pacientemente ocupado com um assunto que se transformara recentemente no seu hobby – a música da Idade Média. Mas, no quarto dia, quando nós levantamos das cadeiras após o café-da-manhã e vimos a névoa pesada e insinuante ainda firme e se condensando em manchas oleosas nas vidraças, a natureza impaciente e ativa de meu amigo não agüentou mais essa monotonia. Ficou andando impaciente pela sala, numa energia febril contida, tamborilando com as unhas nos móveis, irritado com a falta de ação.
– Nada de interessante no jornal, Watson?
Eu sabia que, ao perguntar sobre algo interessante, Holmes se referia a algo de interesse criminal. Havia notícias de uma revolução, possivelmente guerra, e sobre uma iminente mudança de governo, mas estas coisas não estavam no horizonte do meu amigo. Não tinha visto nada que se enquadrasse na modalidade de crime que não fosse comum e fútil. Holmes grunhiu e recomeçou suas caminhadas infindáveis.
– O criminoso de Londres é, com certeza, um sujeito sem imaginação – disse, numa voz lamurienta como a de um esportista que perde o jogo. – Olhe pela janela, Watson. Veja como as pessoas aparecem indistintamente, mal são vistas e já desaparecem de novo na névoa. Um ladrão ou um assassino podia andar por Londres impunemente num dia assim, como um tigre na selva, invisível até o bote fatal na sua vítima.
– Houve alguns roubos insignificantes – eu disse.
Holmes fungou com desdém.
– Este palco imenso e sombrio está montado para algo melhor do que isso. É uma sorte para a comunidade que eu não seja um criminoso.
– Isso é verdade! – eu disse, convicto.
– Suponha que eu fosse Brooks ou Woodhouse, ou algum dos cinqüenta homens que têm bons motivos para me matar. Quanto tempo eu conseguiria sobreviver à minha própria perseguição? Um chamado, uma cilada, e tudo estaria terminado. É bom que não haja dias de neblina nos países latinos – países típicos de assassinatos. Por Deus, aí vem algo, finalmente, para quebrar nossa monotonia mortal.
Era a criada com um telegrama. Holmes o abriu e caiu na gargalhada.
– Ora, ora! Adivinhe só? Meu irmão Mycroft está vindo aí.
– E daí?
– E daí? É como se você se encontrasse com um trem numa ruazinha de interior. Mycroft tem seus trilhos e só anda neles. O apartamento em Pall Mall, o Clube Diógenes, Whitehall, este é o mundo dele. Uma vez – e apenas uma – ele esteve aqui. O que será que o fez sair dos trilhos?
– Ele não explica?
Holmes entregou-me o telegrama do irmão.
Preciso falar-lhe sobre Cadogan West. Irei imediatamente.
Mycroft.
– Cadogan West? Já ouvi este nome.
– Não me lembra nada. Mas para que Mycroft apareça aqui de repente... Um planeta também pode sair de sua órbita! A propósito, você sabe o que Mycroft é?
Eu tinha uma vaga lembrança de alguma informação na época do caso do intérprete grego.
– Você me disse que ele tinha um escritório e que trabalhava para o governo britânico.
Holmes deu uma risadinha.
– Eu não conhecia você muito bem naquela época. Precisamos ser discretos quando falamos de assuntos importantes do governo. Você está certo em pensar que ele trabalha para o governo inglês. Você também estaria certo se dissesse que ele é, de vez em quando, o próprio governo britânico!
– Meu caro Holmes!
– Eu sabia que você ficaria surpreso. Mycroft recebe 450 libras por ano, permanece numa posição subalterna, não tem ambições de espécie alguma, não receberá títulos nem condecorações, mas continua sendo o homem mais indispensável deste país.
– Mas, como?
– Bem, a posição dele é única. Ele mesmo a criou para si. Nunca houve algo assim antes, nem haverá depois. Ele possui, entre todos os seres vivos, o cérebro mais metódico e preciso, com imensa capacidade de estocar fatos. As mesmas faculdades que eu uso para a elucidação de crimes, ele usa para a sua função específica. As conclusões de todos os departamentos são encaminhadas a ele; ele é a central de filtragem, o serviço de compensação que faz o equilíbrio. Todos os outros homens são especialistas, mas a especialidade dele é a onisciência. Suponhamos que um determinado ministro necessite de informações sobre certo assunto que envolva a Marinha, a Índia, o Canadá e a questão bimetálica; ele poderia receber orientação sobre cada assunto de vários departamentos, mas somente Mycroft pode englobar todos eles e dizer, de antemão, como cada fator afetará o outro. Eles começaram usando-o como uma espécie de atalho conveniente, mas agora ele se tornou indispensável. No seu cérebro fantástico tudo está classificado e pode ser usado imediatamente. Quantas vezes sua palavra determinou a política nacional! Vive nisso. Ele não pensa em mais nada, a não ser quando, como exercício mental, cede se eu o chamo e lhe peço alguns conselhos sobre alguns de meus modestos problemas. Mas Júpiter está descendo hoje à Terra. Que diabo pode ser isso? Quem é Cadogan West e o que significa para Mycroft?