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Sherlock Holmes - Edicao completa [calibre 0.9.23]

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Sherlock Holmes - Edicao completa [calibre 0.9.23]
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– E ele fez esses comentários apenas nos últimos dias?

– Sim, recentemente.

– Fale-nos, agora, da última noite.

– Nós íamos ao teatro. A neblina estava tão forte que não adiantava tomar um carro. Fomos andando e no caminho passamos perto do escritório. De repente, ele sumiu no meio da neblina.

– Sem dizer uma palavra?

– Soltou uma exclamação, e foi tudo. Eu fiquei esperando, mas ele não voltou. Então, fui para casa. Na manhã seguinte, depois que abriram o escritório, eles vieram perguntar. Por volta do meio-dia ficamos sabendo da notícia horrível. Oh, sr. Holmes, se o senhor pudesse pelo menos salvar-lhe a honra. Representava tanto para ele!

Holmes balançou tristemente a cabeça.

– Vamos, Watson, temos mais coisas pela frente. Nossa próxima parada é o escritório de onde foram retirados os documentos.

– Se tudo era contra o rapaz antes, agora piorou ainda mais – Holmes comentou quando o táxi partiu. – Seu casamento dá um motivo para o roubo. Naturalmente ele precisava de dinheiro. Estava com a idéia na cabeça, já que mencionou o assunto. Ele quase transformou a noiva numa cúmplice, revelando-lhe seus planos. Tudo muito mal.

– Mas, Holmes, afinal de contas seu caráter não vale nada? Por que ele deixaria a noiva no meio da rua e fugiria para cometer um crime?

– É isso aí! Claro que há objeções. Mas é um caso extraordinário que tem de ser explicado.

O sr. Sidney Johnson, o funcionário graduado, recebeu-nos no escritório com o respeito que o cartão de visitas de Holmes sempre impunha. Era um homem magro, carrancudo, de meia-idade, que usava óculos, e estava com o rosto encovado e as mãos trêmulas em conseqüência da tensão nervosa a que fora submetido.

– Horrível, sr. Holmes, horrível. Ouviu falar da morte do chefe?

– Estamos vindo da casa dele.

– O lugar está uma bagunça. O chefe, morto, Cadogan West, morto, nossos documentos, roubados. E na segunda-feira, às 17 horas, quando trancamos o escritório, éramos tão eficientes quanto qualquer outro departamento a serviço do governo. Meu Deus, é horrível pensar nisso! Que West, entre todos, pudesse fazer uma coisa assim?

– Então o senhor tem certeza de que ele é o culpado?

– Não vejo outra explicação. E mesmo assim, confiava nele tanto quanto em mim mesmo.

– A que horas fecharam o escritório na segunda?

– Às cinco.

– O senhor mesmo o trancou?

– Sou sempre o último a sair.

– Onde estavam os planos?

– No cofre. Eu mesmo os coloquei lá.

– Existe algum vigia para o prédio?

– Sim, mas ele tem outros departamentos para vigiar também. É um velho soldado e homem de inteira confiança. Ele não viu nada naquela noite, pois havia a neblina.

– Suponhamos que Cadogan West quisesse entrar no edifício tarde da noite; ele precisaria de três chaves para conseguir pôr as mãos nos documentos, não é verdade?

– Sim, de fato. A chave da porta externa, a chave do escritório e a chave do cofre.

– Sir James Walter e o senhor eram os únicos que tinham essas chaves?

– Eu não tenho as chaves das portas, só a chave do cofre.

– Sir James era um homem de hábitos regulares?

– Sim, creio que sim. Pelo que sei, as três chaves sempre ficavam com ele, no mesmo porta-chaves. Eu sempre as via ali.

– Ele levou o porta-chaves com ele para Londres?

– Ele disse que sim.

– O senhor sempre ficou com sua chave?

– Sempre.

– Então, Cadogan West, se for o culpado, devia ter uma duplicata. Mas não foi encontrada com ele. Outra coisa: se um funcionário deste departamento quisesse vender os planos, não seria mais simples ele copiar os planos do que levar os originais, como foi feito?

– Seria necessário um grande conhecimento técnico para copiar os planos de forma eficiente.

– Mas suponho que tanto sir James, o senhor ou Cadogan West tinham este conhecimento altamente especializado.

– Sem dúvida, mas peço-lhe que não me envolva no assunto, sr. Holmes. De que adianta especular dessa maneira, quando, na verdade, os planos originais foram encontrados com Cadogan West?

– Bem, de fato é estranho que ele corresse o risco de levar os planos originais quando poderia copiá-los com segurança, o que também serviria aos seus objetivos.

– Na verdade, é estranho – e mesmo assim ele o fez.

– Todas as perguntas a respeito deste caso revelam alguma coisa inexplicável. E ainda temos três documentos desaparecidos. Pelo que sei, são os essenciais.

– Sim, é verdade.

– O senhor quer dizer que alguém que tenha esses três documentos poderia construir um submarino Bruce-Partington sem os outros sete?

– Foi o que eu disse ao Almirantado. Mas hoje estive analisando os desenhos de novo, e já não tenho tanta certeza assim. As válvulas duplas de ajustamento automático estão desenhadas em um dos documentos recuperados. Até que o país estrangeiro invente algo semelhante, não vai conseguir construir o Bruce-Partington. É claro que eles podem superar este problema em breve.

– Mas os três documentos são os mais importantes?

– Sem dúvida.

– Creio que vou dar uma volta pelo prédio, com sua permissão. Não me ocorre nenhuma outra pergunta que queira lhe fazer.

Ele examinou a fechadura do cofre, a porta do escritório e, por fim, as folhas de ferro das janelas. Somente quando nos encontrávamos no gramado, do lado de fora do edifício, é que ele ficou extremamente interessado em uma coisa. Havia uma moita de louro perto da janela, e vários ramos haviam sido torcidos ou arrancados. Ele os examinou detidamente com a lente, e depois examinou algumas marcas superficiais e pouco nítidas na terra. Finalmente pediu ao chefe para fechar as janelas de ferro, e me mostrou que elas não se encaixavam no centro, o que permitia a qualquer pessoa do lado de fora ver o que acontecia dentro do escritório.

– Estas marcas estão prejudicadas pelo atraso de três dias. Podem significar alguma coisa ou nada. Bem, Watson, acho que não conseguiremos mais nada em Woolwich. Nossa colheita foi parca. Vamos ver se conseguimos algo melhor em Londres.

Mas ainda acrescentamos mais um trunfo à nossa pesquisa antes de sairmos da estação de Woolwich. O vendedor de passagens nos contou confidencialmente que ele vira Cadogan West – que conhecia de vista – na noite de segunda-feira, e que ele tomara o trem das 20:15h para  a Ponte de Londres. Estava sozinho e comprou uma passagem de terceira classe. O vendedor ficara impressionado na ocasião com o jeito excitado e nervoso do rapaz. Tremia tanto que mal conseguiu pegar o troco, e o bilheteiro teve de ajudá-lo. Uma consulta ao quadro de horários mostrou que o de 20:15h era o primeiro trem que Cadogan West poderia ter tomado, depois de deixar a noiva por volta das 19:30h.

– Vamos reconstituir, Watson – disse Holmes, depois de meia hora de silêncio. – Não estou bem certo se, de todos os nossos casos, já tivemos um que fosse tão complicado de resolver. Cada novo indício que desenterramos apenas nos mostra um novo obstáculo adiante. Mas, mesmo assim, creio que já progredimos bastante. O resultado de nossas investigações em Woolwich foi bastante desfavorável ao jovem Cadogan West, mas as pistas na janela serviram para uma suposição mais favorável. Vamos supor, por exemplo, que ele tenha sido abordado por algum agente estrangeiro. Isso pode ter sido feito em condições que o impediram de falar a respeito do assunto, mas teria afetado seus pensamentos, como demonstraram os comentários que fez para a noiva. Muito bem, vamos supor agora que, quando estava indo com a jovem para o teatro, tenha vislumbrado, na neblina, a figura do agente indo na direção do escritório. Ele era um jovem impetuoso, rápido nas decisões. Tudo o impelia para o cumprimento do dever. Ele seguiu o homem, chegou até a janela, viu o roubo dos documentos e perseguiu o ladrão. Desta maneira superamos a objeção de que ninguém roubaria os originais quando podia copiá-los. O estranho tinha de levar os originais. A tese se sustenta até aqui.

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