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Sherlock Holmes - Edicao completa [calibre 0.9.23]

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Sherlock Holmes - Edicao completa [calibre 0.9.23]
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– Mas eu creio que o ferimento foi bem grande.

– O osso foi esmagado, mas não havia um grande ferimento externo.

– Mesmo assim, era de se esperar sangramento. Será que eu poderia inspecionar o trem em que estava o passageiro que ouviu o baque de uma queda na neblina?

– Receio que não, sr. Holmes. Os vagões do trem foram separados e redistribuídos.

– Posso lhe garantir, sr. Holmes – disse Lestrade – que todos os vagões foram examinados cuidadosamente. Eu mesmo cuidei disso.

Uma das fraquezas mais óbvias do meu amigo era sua impaciência com inteligências menos brilhantes do que a sua.

– É possível – disse, afastando-se. – Na verdade, não eram os vagões que eu queria examinar. Watson, fizemos tudo o que era possível por aqui. Não vamos incomodá-lo mais, sr. Lestrade. Creio que nossas investigações, agora, vão nos levar a Woolwich.

Na Ponte de Londres ele escreveu um telegrama para o irmão, que me mostrou antes de despachar:

Vejo alguma luz na escuridão, mas pode apagar-se. Enquanto isso, mande, por favor, por um mensageiro que nos espere em Baker Street, lista completa de todos os espiões estrangeiros ou agentes internacionais que se saiba que estão na Inglaterra, com endereços completos.

Sherlock.

– Isto será muito útil, Watson – disse, quando tomamos o trem para Woolwich. – Evidentemente, temos de ser gratos a Mycroft por nos ter incluído no que promete ser um caso realmente notável.

Seu rosto ansioso ainda exibia aquela expressão de energia intensa e concentrada, o que me mostrou que algum indício novo e sugestivo havia aberto uma linha estimulante de raciocínio. Veja um cão de caça, com orelhas caídas e rabo pendente, como fica indolentemente nos canis, e compare-o com o mesmo animal ativo, com olhos brilhantes e músculos retesados, perseguindo a caça – esta foi a mudança que ocorreu em Holmes desde a manhã. Era, agora, um homem diferente da figura abatida e inerte, no seu roupão cinza, caminhando inquieto, apenas algumas horas atrás, pela nossa sala em Baker Street, cercada pela neblina.

– Temos material aqui. Há um objetivo. Fui um verdadeiro tolo por não ter percebido suas possibilidades.

– Para mim, tudo ainda continua nebuloso.

– O final também é um mistério para mim, mas estou com uma idéia que pode nos levar além. O homem morreu em algum outro lugar e seu corpo estava no teto de um vagão.

– No teto?

– Notável, não? Mas veja os fatos. Seria uma coincidência o fato de o corpo ter sido encontrado exatamente no ponto onde o trem oscila e se sacode, quando passa pelos desvios? Não é esse o lugar onde se pode esperar que um objeto que esteja no teto caia? Os desvios não afetariam um objeto dentro do trem. Ou o corpo caiu do teto ou ocorreu uma coincidência muito curiosa. Mas veja agora a questão do sangue. É claro que não haveria sinal de sangue nos trilhos se o corpo tivesse sangrado em outro local. Cada fato é sugestivo por si mesmo. Juntos, eles têm uma força cumulativa.

– E o bilhete também! – exclamei.

– Exatamente. Não encontramos uma explicação para o desaparecimento do bilhete. E isto explicaria. Tudo se encaixa.

– Mas suponha que tenha sido assim; ainda estaríamos longe de esclarecer o mistério da morte do rapaz. Na verdade, o caso se torna ainda mais complicado, e não mais simples.

– Talvez – disse Holmes, pensativo – talvez.

Caiu num silêncio profundo que durou até o trem parar finalmente na estação Woolwich. Chamou um cabriolé e tirou do bolso a folha de papel de Mycroft.

– Temos várias visitas para fazer esta tarde. Creio que sir James Walter merece nossa atenção primeiro.

A casa do famoso perito era uma linda vila, com gramados verdes se estendendo até o Tâmisa. A neblina estava se dissipando quando chegamos, e os raios de um sol pálido começavam a aparecer. Um mordomo atendeu à porta.

– Sir James, senhor? – disse, com um rosto solene. – Sir James morreu hoje de manhã.

– Deus do céu! – exclamou Holmes. – Como ele morreu?

– Talvez seja melhor entrar, senhor, e conversar com o irmão dele, coronel Valentine.

– Sim, será melhor.

Ele nos levou até uma sala fracamente iluminada, onde, pouco depois, apareceu um homem alto, simpático, com cerca de 50 anos, o irmão mais novo do cientista que morrera. Seus olhos desvairados, bochechas vincadas, cabelos despenteados, refletiam o golpe repentino que se abatera sobre a casa. Mal conseguia articular as frases quando falou sobre o assunto.

– Foi um escândalo terrível – disse. – Sir James, meu irmão, era um homem que prezava muito sua honra e não conseguiu sobreviver a uma catástrofe dessas. Sempre teve orgulho da eficiência de seu departamento e isso agora foi um golpe fatal.

– Esperávamos que ele pudesse nos dar algumas informações que nos ajudassem a esclarecer o caso.

– Eu lhes asseguro que tudo era um mistério para ele como é para os senhores e para todos nós. Ele já havia posto à disposição da polícia tudo o que sabia. Naturalmente, ele não tinha dúvida de que Cadogan West era o culpado. Mas todo o resto era inconcebível.

– E o senhor sabe de alguma coisa que possa nos ajudar no caso?

– Não sei de nada, a não ser o que li ou ouvi. Não quero ser grosseiro, mas os senhores devem entender que no momento estamos muito perturbados, e lhes peço que encerremos esta conversa.

– Isto é realmente um acontecimento inesperado, Watson – disse Sherlock quando voltamos para o carro. – Fico imaginando se a morte foi natural ou se o pobre velho se matou! Se foi suicídio, pode ser considerado um indício de remorso por negligência do dever? Vamos deixar essa pergunta para mais tarde. Vejamos, agora, a família de Cadogan West.

A mãe do rapaz morava numa casa pequena, mas bem cuidada, nos arredores da cidade. A velha senhora estava abatida demais pela dor para poder nos dar qualquer informação útil, mas ao seu lado estava uma jovem pálida, que se apresentou como a senhorita Violet Westbury, noiva de Cadogan West e a última a vê-lo na noite fatal.

– Não consigo encontrar uma explicação, sr. Holmes – ela disse. – Não preguei o olho desde a tragédia, pensando, pensando, pensando, noite e dia, no significado de tudo isso. Arthur era sincero, gentil, o mais patriota dos homens. Ele preferiria arrancar a mão direita a vender um segredo de Estado confiado à sua guarda. Para todos que o conheciam, isto é absurdo, impossível, irracional.

– Mas, e os fatos, srta. Westbury?

– Sim, sim, admito que não encontro explicação para eles.

– Ele estava precisando de dinheiro?

– Não; suas necessidades eram simples e ele ganhava bem. Havia economizado algumas centenas de libras e nós íamos nos casar no início do próximo ano.

– Sinais de alguma perturbação mental? Vamos, srta. Westbury, seja absolutamente franca conosco.

O olhar atento do meu amigo havia notado alguma mudança na atitude dela. A moça enrubesceu e hesitou.

– Sim – disse, finalmente –, eu tinha percebido que havia qualquer coisa na cabeça dele.

– Há quanto tempo?

– Somente na última semana, ou um pouco mais. Ele andava pensativo e preocupado. Uma vez eu lhe perguntei sobre isso. Ele admitiu que havia alguma coisa, relacionada com a sua vida profissional. Ele me disse: “É sério demais para que eu fale sobre isso, até mesmo a você.” Não consegui arrancar mais nada dele.

Holmes ficou sério.

– Continue, srta. Westbury. Mesmo que pareça prejudicá-lo, continue. Não sabemos o que pode resultar disso.

– Na verdade, não tenho mais nada a dizer. Por uma ou duas vezes tive a impressão de que ele estava para me contar alguma coisa. Certa noite referiu-se à importância do segredo, e eu me lembro de ele dizer que, sem dúvida, espiões estrangeiros pagariam um bom dinheiro pelos planos.

Sherlock ficou ainda mais sério.

– Disse que éramos negligentes a respeito desses assuntos – que seria fácil para um traidor apoderar-se dos planos.

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