Sherlock Holmes - Edicao completa [calibre 0.9.23]
- Автор: Конан Дойл Артур
- Серия: Aventura #14
- Год: 2000
- Язык: португальский
- Жанр: Классические детективы
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– Eu a chamei – disse Sherlock.
– O senhor? Como?
– Seu código não era difícil, senhora. Desejávamos sua presença aqui, e eu sabia que bastava enviar o sinal de “Vieni” e a senhora apareceria com toda a certeza.
A bela italiana olhou com espanto para o meu amigo.
– Não entendo como o senhor sabe essas coisas – disse ela. – Giuseppe Gorgiano, como foi que ele...
Ela parou, e então seu rosto se iluminou de alegria e orgulho.
– Agora estou entendendo! Meu Gennaro! Meu belo e esplêndido Gennaro, que me protegeu de todo o mal – ele fez isso, com sua própria mão forte ele matou o monstro! Oh, Gennaro, maravilhoso Gennaro! Que mulher pode ser digna de um homem assim?
– Bem, senhora Lucca – disse o prosaico Gregson, pondo a mão na manga da mulher tão friamente como se ela fosse uma desocupada de Notting Hill – ainda não sei o que a senhora é nem quem é, mas já disse o suficiente para que a levemos até a Scotland Yard.
– Um momento, Gregson – disse Holmes. – Eu acho que esta senhora deve estar tão ansiosa para nos dar informações quanto nós para ouvi-las. A senhora sabe, madame, que seu marido será preso e julgado pelo assassinato deste homem aqui? O que disser pode ser usado contra vocês. Mas se acha que seu marido agiu por motivos que não são criminosos, e que ele quer que saibamos, então o melhor que a senhora pode fazer para ajudá-lo será contar-nos a história.
– Agora que Gorgiano está morto, nada mais nos assusta – ela disse. – Ele era um demônio e um monstro, e não existe um juiz em todo o mundo que puniria meu marido por tê-lo matado.
– Neste caso – disse Holmes – sugiro que fechemos esta porta, deixemos tudo do modo como encontramos, e vamos até o quarto desta mulher a fim de tirarmos nossa conclusão depois de ouvirmos tudo o que ela tem a nos dizer.
Meia hora depois nós estávamos sentados na apertada sala da signora Lucca, ouvindo a extraordinária narrativa dos acontecimentos sinistros, cujo final nós testemunhamos por acaso. Falava um inglês rápido e fluente, mas não muito correto, e que, em nome da clareza, eu vou corrigir.
– Nasci em Posilippo, perto de Nápoles – disse ela – e meu pai chamava-se Augusto Barelli, decano dos advogados e, nessa ocasião, deputado daquela região. Gennaro era empregado de meu pai e eu me apaixonei por ele, como se apaixonaria qualquer outra mulher. Ele não tinha dinheiro nem posição – nada, a não ser beleza, força e energia – de modo que meu pai se opôs ao nosso casamento. Fugimos, casamo-nos em Bari e eu vendi minhas jóias para arranjar o dinheiro que nos levaria para os Estados Unidos. Isto aconteceu há quatro anos, e desde então sempre vivemos em Nova York.
– No início tivemos muita sorte. Uma vez Gennaro prestou um favor a um senhor italiano – ele o livrou de alguns malfeitores num lugar chamado Bowery, conseguindo, assim, um amigo poderoso. Esse senhor era Tito Castalotte, sócio majoritário da grande firma Castalotte e Zamba, principais importadores de frutas de Nova York. O signor Zamba é paralítico, e nosso novo amigo, Castalotte, tinha amplos poderes na firma, que empregava mais de trezentas pessoas. Levou meu marido para trabalhar com ele, fez dele chefe de um departamento e mostrou-lhe sua boa vontade em todos os sentidos. O signor Castalotte era um solteirão e eu acho que considerava Gennaro seu próprio filho, e nós, eu e meu marido, gostávamos dele como se fosse nosso pai. Havíamos alugado e mobiliado uma casinha no Brooklyn e nosso futuro parecia garantido quando apareceu aquela nuvem negra que, em breve, iria escurecer nosso céu.
– Uma noite, ao voltar do trabalho, Gennaro trouxe um compatriota com ele. Chamava-se Gorgiano e também viera de Posilippo. Era um homem enorme, como vocês mesmos viram pelo cadáver. Ele era enorme não apenas no tamanho, mas tudo nele era grotesco, gigantesco, aterrorizante. A voz parecia um trovão dentro de nossa casa pequena. Mal havia espaço para seus braços e gestos enormes quando falava. Tudo nele era exagerado e monstruoso, suas idéias, emoções e paixões. Ele falava, ou melhor, rugia, com tamanha energia que as outras pessoas só conseguiam ficar sentadas ouvindo, amedrontadas diante daquela poderosa torrente de palavras. Os olhos fixavam-se como fogo numa pessoa e a dominavam. Era um homem terrível e extraordinário ao mesmo tempo. Graças a Deus, está morto! Ele voltou muitas vezes à nossa casa. Mas eu percebia que Gennaro ficava infeliz na presença dele, assim como eu. Meu pobre marido ficava sentado, pálido e quieto, ouvindo infindáveis discursos sobre questões políticas e sociais, o prato favorito de nosso visitante. Gennaro não dizia nada, mas eu, que o conhecia bem, via angústia em seu rosto, coisa que nunca vira antes. No início achei que se tratava de aversão. Mas, pouco a pouco, compreendi que era algo mais do que isso. Era medo – um medo profundo, secreto, imenso. Naquela noite – na noite em que percebi o medo dele – eu o abracei e implorei, pelo amor que tinha por mim e por tudo o que lhe era caro, que não me escondesse nada e me dissesse por que razão aquele homem imenso tinha tanto domínio sobre ele. Gennaro me contou e meu coração ficou gelado enquanto eu ouvia. Meu pobre Gennaro, na sua juventude livre e ousada, quando o mundo inteiro parecia estar contra ele, e quase enlouqueceu por causa das injustiças da vida, ele se filiara a uma sociedade napolitana, o Círculo Vermelho, aliada dos antigos Carbonários. Os juramentos e segredos dessa irmandade eram terríveis, mas, depois de entrar, não era mais possível escapar. Quando nós fugimos para a América, Gennaro pensou que tinha se livrado dela para sempre. Imagine o seu horror, certa noite, ao encontrar-se na rua com o homem que o iniciara em Nápoles, o gigante Gorgiano, um homem que recebera o apelido de “Morte”, no sul da Itália, porque tinha tantas mortes nas costas! Ele fora para Nova York fugindo da polícia italiana, e já havia instalado uma filial da terrível sociedade no novo país. Gennaro contou-me tudo isso e mostrou-me uma carta, que recebera naquele dia, com um círculo vermelho desenhado no alto, informando que haveria uma reunião num determinado dia e que a presença dele não era apenas solicitada, mas exigida mesmo.
Isso já era bastante ruim, mas o pior ainda estava por vir. Eu tinha notado que, quando Gorgiano vinha à nossa casa, o que ele fazia com freqüência, à noite, conversava muito comigo; e mesmo quando suas palavras eram dirigidas a Gennaro, seus olhos terríveis, brilhantes e selvagens estavam sempre fixos em mim.
Uma noite, ele se revelou. Eu havia despertado nele aquilo que ele chamava de “amor” – amor de um selvagem, de um bruto. Gennaro ainda não tinha chegado quando ele entrou. Avançou e me enlaçou nos braços fortes, apertou-me como um urso, me cobriu de beijos e me implorou para ir com ele. Eu estava lutando e gritando quando Gennaro entrou e o atacou. Gorgiano o deixou sem sentidos
e fugiu dali, e nunca mais voltou. Naquela noite havíamos feito um inimigo mortal.
Alguns dias depois houve a reunião. Gennaro voltou com uma expressão que me dizia que algo terrível tinha acontecido. Era pior do que podíamos imaginar. Os fundos da sociedade eram obtidos por meio de chantagem contra italianos ricos, e ameaças de violência, se eles se recusassem a dar dinheiro. Castalotte, nosso benfeitor e amigo, fora abordado e se recusara a se submeter às ameaças, levando tudo ao conhecimento das autoridades. Decidiram, então, que ele teria de ser transformado num exemplo para evitar que outros também se rebelassem. Na reunião ficou decidido que ele e a casa deveriam ir pelos ares, com uso de dinamite. Houve sorteio para ver quem executaria o plano. Gennaro viu o rosto cruel do nosso inimigo sorrindo para ele quando enfiou a mão no vaso, na hora do sorteio. Não há dúvida de que a coisa tinha sido, de algum modo, preparada antes, porque o disco fatal, com o círculo vermelho, saiu na sua mão – o mandado do crime. Ele tinha de matar seu melhor amigo, ou então ficaria exposto, e eu também, à vingança de seus camaradas. Fazia parte daquele sistema infernal punir aqueles que eles temiam ou odiavam, não só as próprias pessoas como também suas famílias; sabendo disso, Gennaro ficou quase louco de apreensão. Durante aquela noite inteira ficamos sentados, abraçados, cada um dando força ao outro para enfrentar as dificuldades que tínhamos pela frente.