Sherlock Holmes - Edicao completa [calibre 0.9.23]
- Автор: Конан Дойл Артур
- Серия: Aventura #14
- Год: 2000
- Язык: португальский
- Жанр: Классические детективы
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– Que não quer mostrar a caligrafia.
– E por quê? Por que a senhoria não deve ver sua letra? Pode ser como você disse, mas então, por que pedidos tão lacônicos?
– Não consigo imaginar.
– Isto abre um campo interessante para uma investigação inteligente. As palavras são escritas com um lápis de ponta grossa, bem comum. Note que o papel foi rasgado aqui deste lado, depois que escreveu, de forma que o “S” do “SABONETE” quase foi arrancado. Bem sugestivo, não, Watson?
– Precaução?
– Exatamente. É claro que havia alguma marca, impressão do polegar, algo que pudesse dar uma indicação da identidade da pessoa. A senhora diz que o homem era de estatura mediana, moreno, de barba. Quantos anos teria?
– Jovem, não mais de 30.
– Bem, pode me dar mais algumas informações?
– Falava um inglês correto, embora eu ache que seja estrangeiro, pelo sotaque.
– Estava bem-vestido?
– Muito bem-vestido, um cavalheiro. Roupas escuras, nada que desse na vista.
– Deu algum nome?
– Não, senhor.
– Recebeu cartas ou visitas?
– Nada.
– Com certeza a senhora ou a menina entram no quarto de manhã.
– Não. Ele mesmo cuida do quarto.
– Ora, ora! Isto é realmente notável. E a bagagem dele?
– Trazia uma mala marrom grande, nada mais.
– Parece que não temos muito material para nos ajudar. A senhora diz que nada saiu do quarto – absolutamente nada?
A mulher tirou um envelope da bolsa. Do envelope tirou dois palitos de fósforo queimados e uma ponta de cigarro, colocando tudo sobre a mesa.
– Estavam na bandeja dele, hoje cedo. Eu os trouxe porque soube que o senhor tira grandes conclusões de coisas pequenas.
Holmes encolheu os ombros.
– Não há nada aqui – ele disse. – Os fósforos, é claro, foram usados para acender cigarro. Isto está claro pelo pedaço queimado. Gasta-se a metade do palito ao se acender um cachimbo ou charuto. Mas... caramba! Esta guimba de cigarro é realmente interessante. O cavalheiro tinha barba e bigode, não?
– Sim, senhor.
– Não estou entendendo isso. Eu diria que só pode ter sido fumado por alguém sem barba. Isso porque, Watson, até mesmo seu modesto bigode ficaria chamuscado.
– Uma piteira? – eu sugeri.
– Não, não. A extremidade não mostra isso. Não poderia haver duas pessoas no quarto, sra. Warren?
– Não, senhor. Ele come tão pouco que nem imagino como consegue se manter vivo.
– Bem, acho que devemos aguardar mais algum material. Afinal de contas, a senhora não tem nada a reclamar. Recebeu o aluguel e ele não é um inquilino problemático, embora seja fora do comum. Ele lhe paga bem e, se prefere viver trancado, não é da sua conta. Não temos desculpa para nos intrometermos na sua privacidade, até termos algum motivo para achar que há algo suspeito. Aceitei o caso e vou ficar atento. Conte-me qualquer novidade e confie na minha ajuda, se for necessária.
– Certamente há alguns detalhes interessantes neste caso, Watson – disse Holmes depois que a mulher saiu. – Pode muito bem tratar-se de uma coisa banal – excentricidade mesmo, ou então pode ser algo mais profundo do que aparenta na superfície. A primeira coisa que chama a atenção é a possibilidade de que a pessoa que está agora no quarto seja completamente diferente do homem que o alugou.
– Por que acha isso?
– Bem, além do toco de cigarro, não foi sugestivo o fato de que a única vez que o inquilino saiu foi logo depois que alugou o quarto? Ele voltou – ou alguém voltou – quando qualquer testemunha possível estava fora do caminho. Não temos nenhuma prova de que a pessoa que voltou seja a mesma que saiu. Além do mais, o homem que alugou os aposentos falava bem o inglês. Esta outra, no entanto, escreve “FÓSFORO”, quando o correto é “FÓSFOROS”. Eu acho que a palavra foi tirada de um dicionário, que daria o substantivo e não o plural. O estilo lacônico talvez disfarce a falta de conhecimento do inglês. Sim, Watson, há fortes motivos para supor que tenha havido uma troca de inquilinos.
– Mas com que objetivo?
– Ah, aí é que está nosso problema. Há uma linha bastante clara de investigação.
Ele apanhou o livro volumoso em que, dia após dia, arquivava os avisos de desaparecidos nos vários jornais londrinos.
– Puxa vida – disse, folheando as páginas –, que coro de gemidos, choros e lamentações! Que punhado de acontecimentos estranhos. Mas, com toda certeza, é um campo valiosíssimo para quem se dedica ao estudo do incomum! O nosso inquilino está sozinho e não pode ser abordado por carta sem a quebra do absoluto segredo desejado. Como as notícias ou mensagens chegam até ele? Claro que através de anúncios em um jornal. Parece não haver outra forma e, felizmente, temos de nos ocupar apenas com um jornal. Aqui estão os recortes do Daily Gazette dos últimos 15 dias. “Senhora com um boá preto no Prince’s Skating Club...”, podemos ir em frente. “Com toda a certeza, Jimmy não vai querer magoar o coração de sua mãe” isto parece não ter importância para nós. “Se a senhora que desmaiou no ônibus de Brixton...”, ela não me interessa. “Todo dia meu coração anseia”, lamentações infindáveis! Ah, isto já é possível. Ouça: “Tenha paciência. Vamos encontrar algum meio de comunicação seguro. Nesse meio-tempo, esta coluna. G.” Isto foi dois dias depois da chegada do inquilino da sra. Warren. Parece plausível, não? O inquilino misterioso pode entender inglês, mesmo que não saiba escrevê-lo. Vamos ver se conseguimos pegar a pista de novo. Sim... sim... aqui está, três dias depois: “Estou tomando providências com êxito. Paciência e prudência. As nuvens hão de passar. G.” Depois disso, uma semana de silêncio. E agora vem algo mais definido: “O caminho está ficando limpo. Se eu achar meio de me comunicar com sinais, lembre-se do código combinado: 1, A; 2, B, e assim por diante. Você logo terá notícias. G.” Isto foi no jornal de ontem,
e hoje não há nada. Tudo se encaixa muito bem no inquilino da sra. Warren. Se esperarmos um pouco, Watson, tenho certeza de que o caso vai ficar ainda mais compreensível.
E assim foi, pois logo de manhã encontrei meu amigo de pé, com as costas voltadas para a lareira e um sorriso de total satisfação nos lábios.
– Que tal isto aqui, Watson? – perguntou, pegando o jornal na mesa. – “Casa vermelha alta com fachada de pedra branca. Terceiro andar. Segunda janela à esquerda. Depois do anoitecer. G.” Isto basta. Acho que, depois do café-da-manhã, devemos fazer um pequeno reconhecimento da vizinhança da sra. Warren. Ah, sra. Warren, que novidades nos traz esta manhã?
Nossa cliente tinha irrompido na sala com tamanho ímpeto que demonstrava que acontecera algo importante.
– É um caso de polícia, sr. Holmes! – berrou ela. – Não quero mais saber disso! Ele tem de sair de lá com a bagagem! Eu ia subir e falar com ele, só que resolvi ouvir primeiro seu conselho. Mas minha paciência está no fim, e quando acontece de baterem no meu marido por causa disso...
– Bateram no seu marido?
– De qualquer forma foi maltratado.
– Mas quem fez isso?
– Ah, isso é o que queremos saber! Foi hoje de manhã, senhor. Meu marido é o controlador do livro de ponto da firma Morton e Waylight’s, em Tottenham Court Road. Ele sai de casa antes das sete horas. Bem, hoje cedo ele ainda não tinha dado dez passos quando dois homens se aproximaram por trás, jogaram um paletó em sua cabeça e o meteram num carro encostado ao meio-fio. Andaram com ele durante uma hora e depois abriram a porta e o jogaram para fora. Ele ficou tão tonto na estrada que nem viu o que aconteceu com o carro. Quando se levantou, viu que estava em Hampstead Heat; tomou um ônibus de volta para casa e está lá, deitado no sofá, enquanto eu vim diretamente lhe contar o que aconteceu.
– Muito interessante – disse Holmes. – Ele notou a aparência dos homens, ouviu-os conversar?
– Não, ele está completamente tonto. Só sabe que foi levantado e atirado como num passe de mágica. Havia pelo menos dois homens, ou talvez três.