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Электронная книга - «O Zahir». Краткое содержание книги:

O Zahir
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- Você quer dizer que o acidente pode ter provocado algum tipo de

conseqüência em meu cérebro?

Embora meu tom não fosse agressivo, ela resolveu mudar de assunto, e

começou a me contar o medo que sentira em uma viagem de helicóptero de

Mônaco a Cannes. No final da noite, estávamos na cama, fazendo amor com

muita dificuldade por causa do meu colarinho ortopédico - mas mesmo assim, fazendo amor e sentindo-nos muito próximos um do outro.

Quatro dias depois, a gigantesca pilha de papel em cima de minha mesa

havia desaparecido. Restava apenas um envelope grande, branco, com meu nome e o número de meu apartamento. Marie fez menção de abri-lo, mas eu disse que não, aquilo podia esperar.

Ela nada me perguntou - talvez se tratasse de informações sobre minhas

contas bancárias, ou uma correspondência confidencial, possivelmente de uma mulher apaixonada. Eu tampouco nada expliquei, retirei-o da mesa e coloquei entre alguns livros. Se ficasse olhando para ele o tempo todo, o Zahir terminaria voltando.

Em nenhum momento o amor que sentia por Esther havia diminuído; mas

cada dia passado no hospital me fizera lembrar algo interessante: não as nossas conversas, mas os momentos em que ficamos juntos em silêncio. Eu recordava seus olhos de moça entusiasmada com a aventura, de mulher orgulhosa com o sucesso de seu marido, de jornalista interessada sobre cada tema que escrevia, e -

a partir de determinado momento - de esposa que parecia já não ter um lugar em minha vida. Este olhar de tristeza começara antes de pedir para ser

correspondente de guerra; transformava-se em alegria cada vez que voltava do campo de batalha, mas poucos dias depois voltava a ser como era.

Certa tarde, o telefone tocou.

- É o rapaz - disse Marie me passando o telefone.

Do outro lado da linha, escutei a voz de Mikhail, primeiro dizendo o quanto sentia pelo ocorrido, e logo me perguntando se eu recebera o envelope.

- Sim, está aqui comigo.

- E pretende ir ao seu encontro?

Marie estava escutando a conversa, julguei melhor mudar de assunto.

- Conversaremos pessoalmente a este respeito.

- Não estou cobrando nada, mas você prometeu me ajudar.

- Também cumpro minhas promessas. Assim que estiver restabelecido, nos

vemos.

Ele me deixou o número de seu telefone celular, desligamos, e vi que Marie já não parecia a mesma mulher.

- Então, tudo continua a mesma coisa - foi seu comentário.

- Não. Tudo mudou.

Eu devia ter sido mais claro, dizer que ainda tinha vontade de vê-la, que sabia onde se encontrava. Na hora certa, iria pegar um trem, um táxi, um avião, qualquer meio de transporte, apenas para estar ao seu lado. Mas isso significava perder a mulher que estava ao meu lado naquele minuto, aceitando tudo, fazendo o possível para provar como eu era importante para ela.

Uma atitude covarde, claro. Tive vergonha de mim mesmo mas a vida era

assim, e, de alguma maneira que não conseguia explicar direito, eu também amava Marie.

Fiquei também calado porque sempre acreditara em sinais, e ao me lembrar

dos momentos de silêncio ao lado de minha mulher, eu sabia que - com vozes ou sem vozes, com ou sem explicações - a hora do reencontro não havia chegado.

Mais do que todas as nossas conversas juntas, era em nosso silêncio que eu devia me concentrar agora, porque ele me daria liberdade total para entender o mundo em que as coisas tinham dado certo, e o momento em que elas passaram a dar errado.

Marie estava ali, me olhando. Podia continuar sendo desleal com uma

pessoa que fazia tudo por mim? Comecei a sentir-me incomodado, mas era

impossível contar tudo, a não ser... a não ser que achasse uma maneira indireta de dizer o que estava sentindo.

- Marie, suponhamos que dois bombeiros entrem em uma floresta para

apagar um pequeno incêndio. No final, quando saem e vão para a beira de um riacho, um deles tem o rosto todo coberto de cinzas, e o outro está

imaculadamente limpo. Pergunto: qual dos dois irá lavar o rosto?

- E uma pergunta tola: evidente que será o que está coberto de cinzas.

- Errado: o que tem o rosto sujo irá olhar o outro, pensar que está igual a ele. E vice-versa: o que tem o rosto limpo verá que seu companheiro está com fuligem por toda a parte, e dirá para si mesmo: devo também estar sujo, preciso lavar-me.

- O que você quer dizer?

- Quero dizer que, durante o tempo que passei no hospital, entendi que

sempre procurava a mim mesmo nas mulheres que amei- Eu olhava seus rostos limpos, lindos, e me via refletido nelas. Por outro lado, elas me olhavam, viam as cinzas que cobriam minha face, e por mais inteligentes e mais seguras que fossem, terminavam também se vendo refletidas em mim, e se achando piores do que eram. Não deixe que isso aconteça com você, por favor.

Gostaria de ter acrescentado: isso se passou com Esther. E só compreendi

quando me lembrei das mudanças em seu olhar. Eu sempre absorvia sua luz, sua energia, que me deixava feliz, seguro, capaz de seguir adiante. Ela me olhava, sentia-se feia, diminuída, porque à medida que os anos passavam minha carreira -

aquela carreira que ela tanto ajudara a tornar-se realidade - ia deixando nossa relação para segundo plano.

Portanto, para tornar a vê-la, eu precisava que meu rosto estivesse tão limpo como o seu. Antes de encontrar-me com ela, eu devia encontrar-me comigo.

O fio de Ariadne

asço em uma pequena aldeia, distante alguns quilômetros de uma

aldeia um pouco maior, mas onde tem uma escola e um museu

N dedicado a um poeta que viveu ali há muitos anos. Meu pai tem quase 70 anos, minha mãe 25. Conheceram-se recentemente, quando ele, vindo da

Rússia para vender tapetes, encontrou-a e resolveu abandonar tudo por sua causa.

Ela podia ser sua neta, mas na verdade comporta-se como sua mãe, ajuda-o a dormir - coisa que não consegue fazer direito desde os 17 anos, quando foi enviado para lutar contra os alemães em Stalingrado, uma das mais longas e sangrentas batalhas da II Guerra Mundial. De seu batalhão de 3 mil homens, sobrevivem apenas três.

É curioso que ele não usa o tempo passado: “nasci em uma pequena aldeia.”

Tudo parece estar acontecendo aqui e agora.

- Meu pai em Stalingrado: de volta de uma patrulha de reconhecimento, ele e seu melhor amigo, também um garoto, são surpreendidos por uma troca de

tiros. Deitam-se em um buraco aberto pela explosão de uma bomba, e ali passam dois dias, sem comer, sem ter como aquecer-se, deitados na lama e na neve.

Podem ouvir russos conversando em um edifício próximo, sabem que precisam chegar até ali, mas os tiros não param, o cheiro de sangue enche o ar, os feridos gritam por socorro dia e noite. De repente, tudo fica em silêncio. O amigo de meu pai,achando que os alemães haviam se retirado, levanta-se. Meu pai tenta segurá-

lo pelas pernas, grita: “abaixe-se!” Mas é tarde demais: uma bala perfurou o seu crânio.

“Mais dois dias se passam, meu pai está sozinho com o cadáver de seu

amigo ao seu lado. Não consegue parar de repetir ‘abaixe-se!’. Finalmente é resgatado por alguém, levado ao edifício. Não há comida, apenas munição e cigarros. Comem as folhas de tabaco. Uma semana depois, começam a comer

carne dos companheiros mortos e congelados. Um terceiro batalhão chega,

abrindo caminho à bala, os sobreviventes são resgatados, os feridos são cuidados, e logo retornam à frente de batalha -Stalingrado não pode cair, é o futuro da Rússia que está em jogo. Depois de quatro meses de furiosos combates,

canibalismo, membros amputados por causa do frio, os alemães finalmente se rendem - é o começo do fim de Hitler e seu Terceiro Reino. Meu pai retorna a pé à sua aldeia, distante quase mil quilômetros de Stalingrado. Descobre que não consegue dormir, sonha todas as noites com o companheiro que podia ter salvo.

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