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Электронная книга - «O Zahir». Краткое содержание книги:

O Zahir
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Sempre é preciso saber quando uma etapa chega ao final. Encerrando

ciclos, fechando portas, terminando capítulos – não importa o nome que damos, o que importa é deixar no passado os momentos da vida que já se acabaram. Pouco a pouco, comecei a atender que não podia voltar para trás, e fazer as coisas voltarem a ser como eram: aqueles dois anos, que antes pareciam um inferno sem fim, agora começavam a me mostrar seu verdadeiro significado.

E este significado ia muito além do meu casamento: todo homem, toda

mulher estão conectados com a energia que muitos chamam de amor, mas que na verdade é a matéria-prima com a qual o universo foi construído. Esta energia não pode ser manipulada - é ela que nos conduz suavemente, é nela que reside todo o nosso aprendizado nesta vida. Se tentamos orientá-la para o que queremos, terminamos desesperados, frustrados, iludidos - porque ela é livre e selvagem.

Passaremos o resto da vida falando que amamos tal pessoa ou tal coisa,

quando na verdade estamos apenas sofrendo porque, ao invés de aceitar sua força, tentamos diminuí-la, para que coubesse no mundo que imaginamos viver.

Quanto mais pensava nisso, mais o Zahir perdia sua força, e mais eu me

aproximava de mim mesmo. Preparei-me para um longo trabalho, que iria me

exigir muito silêncio, meditação e perseverança. O acidente me ajudara a

compreender que eu não podia forçar algo para o qual ainda não havia chegado o

“tempo de costurar”.

Lembrei-me do que o Dr. Louit me dissera: depois de um trauma como este,

a morte podia chegar a qualquer minuto. E se assim fosse? Se daqui a dez

minutos o meu coração parasse de bater?

Um enfermeiro entrou no quarto para me servir o jantar, e perguntei:

- Você já pensou em seu funeral?

- Não se preocupe - respondeu ele. - Você vai sobreviver sua aparência está muito melhor.

- Não estou preocupado. E sei que vou sobreviver, porque uma voz me disse que seria assim.

Falei da “voz” de propósito, apenas para provocá-lo. Ele me olhou

desconfiado, pensando que talvez fosse o momento de pedir um novo exame, e verificar se meu cérebro não tinha sido realmente afetado.

- Sei que vou sobreviver - continuei. - Talvez mais um dia, mais um ano,

mais 30 ou 40 anos. Mas um dia, apesar de todo o avanço da ciência, eu deixarei este mundo, e terei um funeral. Estava pensando nisso agora, e gostaria de saber se você alguma vez já refletiu sobre o assunto.

- Nunca. E não quero pensar; aliás, a coisa que mais me apavora é

justamente saber que tudo irá acabar.

- Querendo ou não, concordando ou discordando, essa é uma realidade da

qual ninguém escapa. Que tal se conversássemos um pouco sobre o tema?

- Preciso ver outros pacientes - disse, deixando a comida sobre a mesa, e saindo o mais rápido possível, como se tentasse fugir. Não de mim, mas das minhas palavras.

Se o enfermeiro não queria tocar no assunto, que tal se eu fizesse sozinho esta reflexão? Lembrei-me de trechos de um poema que aprendera na infância:

Quando a indesejada das gentes chegar

Talvez eu tenha medo. Talvez eu sorria e diga:

O meu dia foi bom, a noite pode descer.

Encontrará lavrado o campo, a mesa posta, a casa limpa, cada

coisa em seu lugar.

Gostaria que isso fosse verdadeiro: cada coisa em seu lugar. E qual seria o meu epitáfio? Tanto eu como Esther já tínhamos feito um testamento, onde, entre outras coisas, havíamos escolhido a cremação - minhas cinzas sendo espalhadas pelo vento num lugar chamado Cebreiro, no caminho de Santiago, e as cinzas dela colocadas na água do mar. Portanto, não teria aquela famosa pedra com uma inscrição.

Mas se pudesse escolher uma frase? Então pediria que ali fosse gravado:

“Ele morreu enquanto estava vivo.”

Podia parecer um contra-senso, mas conhecia muitas pessoas que já

deixaram de viver, embora continuassem trabalhando, comendo e tendo suas

atividades sociais de sempre. Faziam tudo de maneira automática, sem

compreender o momento mágico que cada dia traz em si, sem parar para pensar no milagre da vida, sem entender que o próximo minuto pode ser o seu último na face deste planeta.

Era inútil tentar explicar isso ao enfermeiro - principalmente porque quem veio recolher o prato de comida foi uma outra pessoa, que começou a conversar compulsivamente comigo, talvez por ordem de algum médico. Queria saber se eu me lembrava de meu nome, se sabia em que ano estávamos, o nome do

presidente dos Estados Unidos, e outras perguntas que só têm sentido quando estamos sendo examinados para que se certifiquem de nossa saúde mental.

Tudo isso porque eu fizera uma pergunta que todo ser humano precisava

fazer: você já pensou em seu funeral? Você sabe que vai morrer mais cedo ou mais tarde?

Naquela noite, dormi sorrindo. O Zahir estava desaparecendo, Esther

voltava, e - se eu tivesse que morrer hoje, apesar de tudo o que tinha ocorrido em minha vida, apesar de minhas derrotas, do desaparecimento da mulher amada, das injustiças que sofrerá ou que fizera alguém sofrer, eu permanecera vivo ate o último minuto, e com toda certeza podia afirmar:

“O meu dia foi bom, a noite pode descer.

ois dias depois eu estava em casa. Marie foi preparar o almoço, eu dei

uma olhada na correspondência que se havia acumulado. O interfone

D tocou, era o porteiro dizendo que o envelope que eu esperara na semana anterior tinha sido entregue, e devia estar em cima de minha mesa.

Agradeci e, ao contrário de tudo que imaginara antes, não saí correndo para abri-lo. Almoçamos, perguntei a Marie sobre suas filmagens, ela quis saber sobre meus planos - já que, com o colarinho ortopédico, eu não podia ficar saindo a todo momento. Disse que, se precisasse, ficaria junto comigo o tempo necessário.

- Tenho uma pequena apresentação para um canal de TV coreano, mas

posso adiar, ou posso simplesmente cancelar. Claro, se você estiver precisando de minha companhia.

- Estou precisando de sua companhia e fico muito contente de saber que

pode estar por perto.

Com um sorriso no rosto, ela pegou imediatamente o telefone ligou para sua empresária e pediu que mudasse seus compromissos. Escutei-a comentar: “não diga que fiquei doente, tenho superstição, e sempre que usei essa desculpa terminei ficando de cama; diga que preciso cuidar da pessoa que amo.”

Havia uma série de providências urgentes: entrevistas que sido adiadas,

convites que precisavam ser respondidos, cartões de agradecimento aos vários telefonemas e buquês de flores que recebera, textos, prefácios, recomendações.

Marie passava o dia inteiro em contacto com minha agente, reorganizando minha agenda de modo a não deixar ninguém sem resposta. Todas as noites jantávamos em casa, conversando sobre assuntos ora interessantes, ora banais - como

qualquer casal. Em um destes jantares, depois de alguns copos de vinho, ela comentou que eu estava mudado.

- Parece que estar perto da morte lhe devolveu um pouco a vida - disse.

- Isso acontece com todo mundo.

- Mas, se você me permite - e não quero começar a discutir nem estou

provocando uma crise de ciúmes - desde que chegou em casa, não fala de Esther.

Isso já tinha acontecido quando você terminou Tempo de rasgar, tempo de costurar: o livro funcionou como uma espécie de terapia, que infelizmente durou pouco.

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