O Zahir
- Автор: Коэльо Пауло
- Год: 2006
- Язык: португальский
- Жанр: Прочая древняя литература
Электронная книга - «O Zahir». Краткое содержание книги:
- apenas escoriações generalizadas. O inquérito policial feito logo após o acidente deixava claro que eu estava no meio da rua quando o acidente aconteceu, neste caso colocando em risco a vida do motociclista.
Ou seja, eu era aparentemente o culpado de tudo, mas o rapaz resolvera não dar nenhuma queixa. Marie tinha ido visitá-lo, conversaram um pouco, soube que ele era imigrante e trabalhava ilegalmente, tinha medo de dizer qualquer coisa à polícia. Saiu do hospital 24 horas depois, já que no momento do acidente estava usando capacete, e isso diminuía muito o risco de algum dano no cérebro.
- Você diz que ele saiu 24 horas depois? Quer dizer que estou aqui há mais de um dia?
- Três dias. Depois que saiu da ressonância magnética, a doutora telefonou-me e pediu permissão para mantê-lo com sedativos. Como acho que você tem
andado muito tenso, irritado, deprimido, autorizei-a a fazer isso.
- E o que pode acontecer agora?
- A princípio, mais dois dias no hospital, e três semanas com este aparelho no pescoço: as 48 horas críticas já se passaram. Mesmo assim, uma parte de seu corpo pode rebelar-se contra a idéia de continuar se comportando bem, e teremos um problema para resolver. Mas é melhor só pensar nisso se estivermos diante de uma emergência - não vale a pena sofrer antecipadamente.
- Ou seja, ainda posso morrer?
- Como você deve saber muito bem, todos nós não apenas podemos, como
vamos morrer.
- Digo: posso ainda morrer por causa do acidente?
Dr. Louit deu uma pausa.
- Sim. Existe sempre a possibilidade de ter formado um coágulo de sangue
que os aparelhos não conseguiram localizar, e que pode libertar-se a qualquer momento e provocar uma embolia. Existe também a chance de uma célula ter
enlouquecido e começar a formar um câncer.
- O senhor não devia fazer este tipo de comentário - interrompeu Marie.
- Somos amigos há cinco anos. Ele me perguntou, e eu estou respondendo.
E agora peço desculpas, mas preciso voltar ao meu consultório. Medicina não é como vocês pensam. No mundo em que vivem, se um menino sai para comprar
cinco maçãs, mas só chega em casa com duas, concluem que ele comeu as três que estão faltando.
“No meu mundo, existem outras possibilidades: ele pode ter comido, mas
também pode ter sido roubado, o dinheiro não deu para comprar as cinco que pensava, ele as perdeu no caminho, uma pessoa estava com fome e ele resolveu dividir as frutas com esta pessoa etc. No meu mundo, tudo é possível, e tudo é relativo.”
- O que o senhor sabe a respeito de epilepsia?
Marie imediatamente entendeu que eu estava me referindo a Mikhail - e seu temperamento deixou transparecer certo desagrado. Na mesma hora disse que precisava ir, pois tinha uma filmagem esperando.
Mas o Dr. Louit, embora já tivesse pegado suas coisas para ir embora, parou para responder à minha pergunta.
- Trata-se de um excesso de impulsos elétricos em determina região do
cérebro, o que provoca convulsões de maior ou menor gravidade. Não há nenhum estudo definitivo a respeito, acreditam que os ataques acontecem quando a pessoa está sob grande tensão. Entretanto, não se preocupe: embora a doença possa dar seu primeiro sintoma em qualquer idade, ela dificilmente seria causada por um acidente de motocicleta.
- E o que a causa?
- Não sou um especialista, mas se quiser posso me informar a respeito.
- Sim, quero. E tenho outra pergunta, mas por favor não ache que meu
cérebro ficou afetado por causa do acidente. É possível que epiléticos escutem vozes e tenham premonição do futuro?
- Alguém disse que este acidente ia acontecer?
- Não disse exatamente isso. Mas foi o que entendi.
- Desculpe, mas não posso ficar mais tempo, vou dar uma carona a Marie.
Quanto à epilepsia, procurarei me informar.
Durante os dois dias em que Marie ficou longe, e apesar do susto com o
acidente, o Zahir voltou a ocupar seu espaço. Eu sabia que, se o rapaz realmente tivesse cumprido sua palavra, haveria um envelope me esperando em casa, com o endereço de Esther - mas agora eu estava assustado.
E se Mikhail estivesse falando a verdade a respeito da voz?
Comecei a tentar me lembrar dos detalhes: desci da calçada, olhei
automaticamente, vi que um carro estava passando, mas vi também que estava a uma distância segura. Mesmo assim fui atingido, talvez por uma moto que
tentava ultrapassar aquele carro, e estava fora do meu campo de visão.
Acredito em sinais. Depois do caminho de Santiago, tudo havia mudado por
completo: o que precisamos aprender esta sempre diante de nossos olhos, basta olhar ao redor com respeito e atenção, para descobrir onde Deus deseja nos levar, e qual o melhor passo a ser dado no próximo minuto. Aprendi também a respeitar o mistério: como dizia Einstein, Deus não joga dados com o universo, tudo está interligado e tem um sentido. Embora este sentido permaneça oculto quase todo o tempo, sabemos quando estamos próximos de nossa verdadeira missão na Terra quando o que estamos fazendo está contagiado pela energia do entusiasmo.
Se estiver, tudo está bem. Se não estiver, é melhor mudar logo de rumo.
Quando estamos no caminho certo, seguimos os sinais, e se de vez em
quando damos um passo em falso, a Divindade vem em nosso socorro, evitando que cometamos um erro. Será que o acidente era um sinal? Será que Mikhail, naquele dia, tinha intuído um sinal que era para mim?
Decidi que a resposta para esta pergunta era: “sim”.
talvez por causa disso, por aceitar meu destino, deixar-me guiar por
uma força maior, notei que, no decorrer daquele dia, o Zahir começava
E a perder sua intensidade. Eu sabia que tudo que precisava fazer era abrir um envelope, ler seu endereço e tocar a campainha de sua casa.
Mas os sinais indicavam que não era o momento. Se realmente Esther era
tão importante na minha vida como imaginava, se continuava me amando (como dissera o rapaz), por que forçar uma situação que iria me levar de novo aos mesmos erros que cometi no passado?
Como evitar repeti-los?
Conhecendo melhor quem era eu, o que havia mudado, o que provocara este
corte súbito em um caminho que sempre fora marcado pela alegria.
Bastava isso?
Não, precisava também saber quem era Esther - quais as transformações
pelas quais passara durante todo o tempo em que vivemos juntos.
E era o suficiente responder a estas duas perguntas?
Faltava uma terceira: por que o destino nos havia colocado juntos?
Tendo muito tempo livre naquele quarto de hospital, fiz uma recapitulação geral de minha vida. Procurei sempre aventura e segurança ao mesmo tempo -
embora sabendo que as duas coisas não combinavam entre si. Mesmo tendo
certeza de meu amor por Esther, me apaixonava com rapidez por outras
mulheres, apenas porque o jogo da sedução é o que existe de mais interessante no mundo.
Tinha sabido demonstrar meu amor por minha mulher? Talvez durante um
período, mas nem sempre. Por quê? Porque achava que não era necessário, ela devia saber, ela não podia colocar em dúvida meus sentimentos.
Lembro-me que, muitos anos atrás, alguém me perguntou o que tinham em
comum todas as namoradas que passaram por minha vida. A resposta foi fáciclass="underline" EU. E ao perceber isso, vi o tempo que tinha perdido na busca da pessoa certa -
as mulheres mudavam, eu permanecia o mesmo, e não aproveitava nada do que vivêramos juntos. Tive muitas namoradas, mas sempre fiquei esperando a pessoa certa. Controlei, fui controlado, e o relacionamento não passou disso - até que chegou Esther, e transformou o panorama por completo.
Estava pensando em minha ex-mulher com ternura: já não era mais uma
obsessão encontrá-la, saber por que tinha desaparecido sem explicações. Embora Tempo de rasgar, tempo de costurar fosse um verdadeiro tratado sobre meu casamento, o livro era sobretudo um atestado que eu passava para mim mesmo: sou capaz de amar, de sentir falta de alguém. Esther merecia muito mais do que palavras; mesmo as palavras, as simples palavras, jamais tinham sido ditas enquanto estávamos juntos.