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Sherlock Holmes - Edicao completa [calibre 0.9.23]

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Sherlock Holmes - Edicao completa [calibre 0.9.23]
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– Psiu! – fez Holmes, e ouvi o estalido metálico de uma pistola sendo engatilhada. – Cuidado! Ele está vindo!

Havia um ruído de patas, fraco, áspero e contínuo vindo de algum lugar no meio da barreira que se arrastava. A nuvem estava a 40 metros de nós, e olhamos fixamente para ela, todos os três, sem saber qual o horror que estava prestes a surgir do meio dela. Eu estava junto ao cotovelo de Holmes, e olhei por um instante para o seu rosto. Ele estava pálido e exultante, com os olhos brilhando ao luar. Mas de repente eles se fixaram em frente num olhar rígido, e seus lábios se abriram estupefatos. No mesmo instante Lestrade soltou um grito de terror e jogou-se de bruços no chão. Eu me levantei de um salto, com minha mão inerte agarrada na pistola, minha mente paralisada pela aparição medonha que havia saltado sobre nós das sombras da cerração. Era um cão, um enorme cão negro como carvão, mas não um cão que olhos de algum mortal já tivessem visto. Saía fogo de sua boca, seus olhos brilhavam, seu focinho, pêlos do pescoço e papada estavam delineados em chamas bruxuleantes. Nenhum sonho delirante de um cérebro perturbado podia conceber algo mais selvagem, mais aterrador, mais infernal do que a forma escura e a cara selvagem que surgiu do muro da cerração.

Com saltos longos, a imensa criatura preta estava descendo o caminho aos pulos, seguindo firme os passos do nosso amigo. Ficamos tão paralisados pela aparição que permitimos que ela passasse antes de recuperarmos a coragem. Então Holmes e eu atiramos juntos, e a criatura soltou um uivo medonho, que mostrou que pelo menos um a havia atingido. Mas ela não parou, e continuou seguindo aos pulos. Mais adiante no caminho, vimos sir Henry olhando para trás com o rosto branco iluminado pelo luar, as mãos erguidas de terror, olhando indefeso para a coisa assustadora que o estava perseguindo.

Mas aquele grito de dor do cão fizera com que os nossos receios desaparecessem. Se ele era vulnerável, era mortal, e se podíamos feri-lo, podíamos matá-lo. Nunca tinha visto um homem correr tanto como Holmes correu naquela noite. Sou considerado ligeiro, mas ele me ultrapassou tanto quanto eu ultrapassei o pequeno profissional. Diante de nós, enquanto voávamos pelo caminho, ouvimos grito após grito de sir Henry e o rosnar profundo do cão. Cheguei a tempo de ver a fera saltar sobre sua vítima, atirá-la ao chão, e lançar-se à sua garganta. Mas no instante seguinte Holmes havia disparado cinco tiros do seu revólver no flanco da criatura. Com um último uivo de agonia e uma mordida enraivecida no ar, ela rolou de costas com as quatro patas agitando-se furiosamente, e depois caiu de lado. Eu me abaixei, ofegante, e encostei minha pistola na cabeça horrível, que brilhava fracamente, mas não foi necessário apertar o gatilho. O cão gigantesco estava morto.

Sir Henry jazia inconsciente no lugar onde havia caído. Arrancamos o seu colarinho e Holmes murmurou uma prece de gratidão quando viu que não havia nenhum sinal de ferimento e que o socorro havia chegado a tempo. As pálpebras do nosso amigo já estremeciam e ele fez um esforço débil para se mexer. Lestrade enfiou seu frasco de conhaque entre os dentes do baronete, e dois olhos assustados ficaram olhando para nós.

– Meu Deus! – sussurrou ele. – O que era isso? O que, em nome dos céus, era isso?

– Está morto, o que quer que seja – disse Holmes. – Liquidamos o fantasma da família de uma vez por todas.

Só no tamanho e na força era uma criatura terrível que estava estendida diante de nós. Não era um sabujo puro e não era um mastim puro, mas parecia uma combinação dos dois, ossudo, selvagem, e com o tamanho de uma pequena leoa. Mesmo agora, na imobilidade da morte, as mandíbulas enormes pareciam gotejar uma chama azulada e os olhos pequenos, profundos e cruéis estavam orlados de fogo. Pus a mão no focinho brilhante, e quando a tirei, meus próprios dedos pareciam brasas e brilhavam na escuridão.

– Fósforo – eu disse.

– Um preparado feito com habilidade – disse Holmes, cheirando o animal morto. – Não há nenhum cheiro que pudesse interferir no seu faro. Devemos ao senhor muitas desculpas, sir Henry, por tê-lo exposto a este susto. Eu estava preparado para um cão, mas não para uma criatura como esta. E a cerração deu-nos pouco tempo para recebê-la.

– Você salvou a minha vida.

– Depois de ter posto a sua vida em perigo. Você tem força para se levantar?

– Dê-me mais um gole desse conhaque e estarei preparado para qualquer coisa. Pronto! Agora, se você quiser me ajudar. O que você pretende fazer?

– Deixá-lo aqui. O senhor não está preparado para outras aventuras esta noite. Se esperar, um de nós voltará com o senhor para a Mansão.

Ele tentou levantar-se, cambaleando, mas ainda estava horrivelmente pálido e trêmulo. Nós o ajudamos a caminhar até uma pedra, onde ele se sentou tremendo, com o rosto mergulhado nas mãos.

– Temos de deixá-lo agora – disse Holmes. – O resto do nosso trabalho precisa ser feito, e cada minuto é importante. Temos o nosso caso completo, e agora queremos apenas o nosso homem.

– É de 1.000 a 1 a probabilidade de o encontrarmos em casa – ele continuou enquanto voltávamos rapidamente pelo caminho. – Aqueles tiros devem ter indicado a ele que o jogo terminou.

– Nós estávamos a uma certa distância, e esta cerração pode tê-los amortecido.

– Ele seguiu o cão para chamá-lo de volta, disso vocês podem ter certeza. Não, não, ele foi embora a esta altura! Mas revistaremos a casa para confirmar.

A porta da frente estava aberta, de modo que entramos correndo e fomos de cômodo em cômodo, para espanto de um velho criado trôpego que se encontrou conosco no corredor. Não havia nenhuma luz, a não ser na sala de jantar, mas Holmes apanhou o lampião e não deixou nenhum canto da casa inexplorado. Não conseguimos ver nenhum sinal do homem que estávamos perseguindo. Mas no andar de cima, a porta de um dos quartos estava trancada.

– Há alguém aqui! – gritou Lestrade. – Estou ouvindo um movimento. Abra esta porta!

Um gemido e um farfalhar fraco vieram do interior. Holmes atingiu a porta logo acima da fechadura com a sola do pé e ela se abriu. Com a pistola na mão, nós três entramos correndo no quarto.

Mas não havia ali nenhum sinal daquele vilão desesperado e desafiador que esperávamos ver. Em vez disso, nos deparamos com um objeto tão estranho e tão inesperado que ficamos parados por um momento olhando para ele, espantados.

O quarto estava arrumado como um pequeno museu, e as paredes eram cobertas por várias caixas com tampas de vidro cheias daquela coleção de borboletas e mariposas cuja formação tinha sido o passatempo deste homem complexo e perigoso. No meio desse quarto havia uma trave vertical, que fora colocada em alguma época como suporte das toras de madeira comidas pelo cupim que sustentavam o telhado. Neste poste estava amarrado um vulto, tão enfaixado e encoberto pelos lençóis que tinham sido usados para amarrá-lo que não se podia dizer no momento se era de um homem ou de uma mulher. Uma toalha passava em volta da garganta e estava presa atrás do pilar. Outra cobria a parte inferior do rosto, e sobre ela dois olhos escuros – olhos cheios de dor, vergonha e uma interrogação horrível – nos contemplavam. Num minuto arrancamos a mordaça, desamarramos os laços, e a sra. Stapleton caiu no chão diante de nós. Quando a sua bela cabeça caiu sobre o peito, vi o nítido vergão vermelho de uma chicotada no seu pescoço.

– O animal! – exclamou Holmes. – Aqui, Lestrade, sua garrafa de conhaque! Ponha-a na cadeira! Ela desmaiou de maus-tratos e exaustão.

Ela abriu os olhos outra vez.

– Ele está em segurança? – ela perguntou. – Ele escapou?

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